É necessário que se tenha um olhar da saúde pública sobre esses espaços para que seja possível a implementação de políticas públicas que auxiliem na promoção da alimentação saudável. Oferta de produtos não saudáveis em estações do Metrô – Foto cedida pela pesquisadora

O que se come no Metrô de SP? Oferta pode influenciar passageiros a escolhas ruins

Estudo considera que a alta exposição e o baixo preço de alimentos ultraprocessados são um obstáculo para a garantia da autonomia, direitos e saúde da população

 01/09/2021 - Publicado há 2 meses

Por Guilherme Gama
Arte: Lívia Magalhães / Jornal da USP

Nas estações do Metrô em São Paulo, por onde passam 5 milhões de pessoas por dia, é comum encontrar serviços de alimentação para os passageiros, que veem no trajeto ao trabalho ou à faculdade a oportunidade de se alimentar. Um estudo da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP analisou 66 pontos comerciais em 19 estações do Metrô para entender como esse ambiente alimentar pode interferir na alimentação e, portanto, na saúde da população.

Os dados apontam que a grande disponibilidade e o baixo custo dos alimentos e bebidas ultraprocessados (de alta caloria e baixo valor nutricional), em comparação com alimentos in natura ou minimamente processados, podem limitar a autonomia dos usuários do transporte que buscam escolhas saudáveis, o que diverge com a garantia da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), preconizada pela Constituição. “Para mudar esse cenário, é necessário que se tenha um olhar da saúde pública sob esses espaços para que seja possível a implementação de políticas públicas que auxiliem na promoção da alimentação saudável”, afirma ao Jornal da USP a nutricionista Jessica Vaz Franco, doutoranda pela FSP e uma das autoras do estudo.

Jessica Vaz Franco – Foto: Arquivo pessoal

O que se come no Metrô de São Paulo?

As pesquisadoras adentraram o interior das estações do Metrô consideradas mais movimentadas de São Paulo e administradas exclusivamente pelo governo estadual. Por um sistema de checklist, foram analisados quiosques, lanchonetes, lojas e vending machines para quantificar, identificar e caracterizar os alimentos disponíveis, segundo seus atributos, como grau de processamento, preço, variedade (de marca, tipo de embalagem, volume, peso), localização, entre outras métricas. Assim, foi possível descrever o ambiente alimentar das estações. Vale destacar que a coleta foi feita em 2017, quando a linha Lilás ainda era estritamente de administração pública.

‘Vending machines’ no metrô – Foto cedida pela pesquisadora

Os dados mostraram um cenário com alta oferta de alimentos não saudáveis em comparação com os saudáveis. Refrigerantes, por exemplo, foram encontrados em todas as estações, em uma média de oito tipos por estabelecimento – chegando a até 24 variedades do produto em um único comércio. A única opção de bebida saudável era água mineral, presente em todas as estações estudadas, exceto na Tucuruvi, e suco natural da fruta, este encontrado apenas na estação Brás. Para além de bebidas, em grande parte das observações, a água era o único produto saudável disponível para compra.

O salgadinho de pacote ou biscoito salgado sem recheio, o bombom e o chocolate em barra e o refrigerante estavam disponíveis em mais da metade dos pontos comerciais (51,5%, 53,0%e 60,6%, respectivamente), conforme o estudo. Eles são, na verdade, misturas de produtos industriais e pouco ou nada têm de alimento; são classificados como ultraprocessados, segundo a classificação alimentar denominada NOVA, que descreve os alimentos por grau de processamento industrial.

“A alta exposição de ultraprocessados nas estações do Metrô não possibilita que os usuários diários desse transporte tenham a garantia do direito humano à alimentação adequada e saudável assegurada e a alta quantidade de propagandas em relação a esses alimentos compromete também a autonomia de escolha”

Enquanto isso, frutas, que são alimentos in natura (com alto valor nutricional), só foram vistas nas estações Brás e Tatuapé e em apenas 10,0% das lanchonetes e 4,8% das vending machines nessas estaçõesAs hortaliças, que também fazem parte desse grupo, estavam disponíveis apenas como parte de preparações de sanduíches, que foram considerados alimentos não saudáveis, presentes em 70,0% das lanchonetes, 66,7% das cafeterias e 9,5% das vending machines das estações Sé, Luz, Tatuapé, Brás e República. O artigo informa que não foram encontradas informações nutricionais em nenhum dos 66 pontos comerciais.

Além da alta oferta, os alimentos com maior grau de processamentos também era mais acessíveis pelos baixos preços, como balas comercializadas por R$ 0,10; biscoitos doces recheados por R$ 0,75 e refrigerantes por R$ 2,00. Com R$ 5,00, um passageiro com fome a caminho de casa pode escolher entre uma ampla opção de alimentos não saudáveis e, talvez com sorte, pode ter a opção de consumir uma garrafa d’água e uma maçã – por exemplo. “A alta exposição de ultraprocessados nas estações do Metrô não possibilita que os usuários diários desse transporte tenham a garantia do direito humano à alimentação adequada e saudável assegurada e a alta quantidade de propagandas em relação a esses alimentos compromete também a autonomia de escolha”, afirma a autora da pesquisa.

Promoções de salgados – Foto cedida pela pesquisadora

O estudo usou o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social para caracterizar as áreas geográficas das localidades de cada estação e relacioná-las com aspectos de vulnerabilidade social. Porém, não houve diferença entre os marcadores de alimentos saudáveis e não saudáveis pelo território. O destaque foi apenas do grupo de estações com baixíssima vulnerabilidade (Ana Rosa, Barra Funda, Consolação, Paraíso, Vila Madalena, Adolfo Pinheiro e Santo Amaro) que apresentou apenas um tipo de alimento saudável: água mineral.

De acordo com a pesquisadora, não há controle do que será vendido em cada um dos pontos comerciais; as questões de alimentação não são levadas em conta nos critérios de concessão, e fica a cargo do comerciante decidir os produtos ofertados. Pelos baixos preços, menor perecibilidade e popularidade entre o público, os alimentos ultraprocessados são os escolhidos para compor as vitrines. “Com esses dados, é interessante que o poder público pense formulações de intervenções, para mudar esse cenário através de políticas públicas, vendo a saúde pública também no contexto dos transportes públicos”, completa.

Atualmente, em sua pesquisa de doutorado, Jessica dá continuidade à pesquisa e busca identificar e analisar as ideias sobre possíveis intervenções regulatórias direcionadas ao ambiente alimentar das estações do Metrô da cidade de São Paulo. Isso através dos usuários, de representantes de organizações da sociedade civil e de representantes do governo estadual de São Paulo.

Direito e acesso

“A oferta de alimentos no Metrô é um serviço secundário, onde o primário é o transporte. Mas uma vez que há essa proposta alimentar, que seja de uma maneira segura e que garanta também os direitos e respeite a autonomia dos usuários. Trata-se de um espaço público, administrado pelo governo do Estado de São Paulo, o que amplia a importância do estudo."

A Emenda Constitucional nº 64 inclui a alimentação como um direito social, contido no artigo 6º da Constituição Federal de 1988; esse direito é garantido pela Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), de acordo com a Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006. Na prática, a pesquisadora explica que o Estado não tem apenas a responsabilidade de promover acesso à alimentação, mas acesso à alimentação de qualidade para a população. Quando se pensa na promoção de saúde pública, estão os impactos dos ambientes alimentares na alimentação, ao passo que o consumo de alimentos acontece também fora das residências: em outros espaços do cotidiano – inclusive no caminho até esses destinos. 

“A oferta de alimentos no Metrô é um serviço secundário, onde o primário é o transporte. Mas uma vez que há essa proposta alimentar, que seja de uma maneira segura e que garanta também os direitos e respeite a autonomia dos usuários”, afirma Jessica. Ela destaca que se trata de um espaço público, administrado pelo governo do Estado de São Paulo, o que amplia a importância do estudo.

O artigo foi publicado na Revista Ciência & Saúde Coletiva e está disponível na plataforma SciELO. O artigo  também conta com a autoria das pesquisadoras Mariana Tarricone Garcia, Daniela Silva Canella, Iara da Rocha Louzada e Cláudia Maria Bógus, do Grupo de Pesquisa em Promoção da Saúde e Segurança Alimentar e Nutricional, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

Mais informações: e-mail  jessicavazfranco@usp.br, com Jessica Vaz Franco


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