O legado da Lua:
50 anos depois

Passado meio século da histórica caminhada de Neil
Armstrong e Buzz Aldrin na superfície lunar, conquistas do
Programa Apollo e da corrida espacial continuam a
influenciar e inspirar a vida dos seres humanos na Terra

“Um pequeno passo para o homem; um salto gigantesco para a humanidade.” Assim Neil Armstrong anunciou ao mundo o início de sua histórica caminhada lunar, em 20 de julho de 1969.
 
Meio século depois, as pegadas deixadas por ele e Buzz Aldrin permanecem visíveis não apenas na superfície da Lua — que não tem vento para apagá-las — como no “DNA” de inúmeras tecnologias que utilizamos hoje no nosso dia a dia, de aspiradores de pó e tênis de corrida a telefones celulares e máquinas de ressonância magnética.
 
Ainda que os motivos que impulsionaram o esforço americano de chegar à Lua (antes dos soviéticos) na década de 1960 tenham sido majoritariamente geopolíticos — um desdobramento da Guerra Fria entre os Estados Unidos da América  (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), as “armas” que asseguraram essa conquista, na prática, foram as da ciência, da tecnologia e da engenharia, acopladas a uma impressionante capacidade de gestão, segurança orçamentária e articulação política por parte dos americanos.

Legado tecnológico

Pegada de Buzz Aldrin na Lua - Foto: NASA

O presidente americano John F. Kennedy não estava exagerando quando disse, em seu discurso ao Congresso, em 1961, que nenhuma missão seria “tão difícil ou tão cara” quanto a que ele estava propondo naquele momento, de “pousar um homem na Lua e trazê-lo de volta à Terra em segurança”, até o final da década. E assim foi feito. 
 
Em seus 12 anos de operação — do anúncio de Kennedy, em 1961, até o último pouso na Lua, em 1972 — o Programa Apollo consumiu mais de US$ 20 bilhões em recursos públicos (cerca de US$ 150 bilhões, em valores atuais), num esforço monumental envolvendo cerca de 400 mil profissionais e milhares de contratos e encomendas tecnológicas feitas a empresas e universidades americanas.
 
Praticamente tudo que foi usado nas viagens à Lua, da sola da bota dos astronautas aos computadores de bordo e sistemas de comunicação do Módulo Lunar, precisou ser inventado, miniaturizado, automatizado ou, no mínimo, melhorado de alguma forma antes de ser lançado ao espaço.
 
“A ciência americana deu um salto gigantesco”, diz o professor Glauco Arbix, coordenador do Observatório de Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP). “É o tipo de pesquisa que gera frutos em todas as áreas do conhecimento.”
Não que o programa espacial americano estivesse começando do zero. Em 1961, os EUA já haviam lançado uma série de satélites e até um homem ao espaço (Alan Shepard), mas ainda estavam “perdendo de 7×1 para os soviéticos”, lembra Arbix; e o desafio de pousar uma nave na Lua (e trazer a tripulação de volta em segurança) era infinitamente maior do que “apenas” colocar um objeto no espaço.
 
“Com a tecnologia que existia na época, parecia um delírio”, lembra o engenheiro aeroespacial Danton Villas Boas, tecnologista senior do Instituto de Aeronáutica e Espaço do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (IAE/DCTA), da Força Aérea Brasileira.
 
Mas é justamente nesses momentos de desafios extremos que os grandes avanços tecnológicos acontecem, diz o astronauta, engenheiro, aviador e atual ministro de Ciência e Tecnologia brasileiro, Marcos Pontes — o único brasileiro que já foi ao espaço. “A inovação não surge porque a pessoa está se sentindo muito bem e teve uma ótima ideia. Ela surge principalmente quando você tem uma dificuldade que te obriga a usar a criatividade para sair dela”, afirma Pontes, em entrevista ao Jornal da USP. “Eles realmente tiveram que se virar.”

Tripulação a caminho da plataforma de lançamento, em 16 de julho de 1969 - Foto: NASA

Momento da decolagem do foguete Saturno V na missão espacial Apolo 11 - Foto: NASA

Controladores de lançamento no Centro Espacial Kennedy durante a missão Apolo 11 - Foto: NASA

Importante lembrar que a computação era algo ainda primitivo na década de 1960 e a maioria dos cálculos, desenhos e projetos precisavam ser feitos à mão. Computadores do tamanho de uma geladeira tiveram de ser reprojetados para caber (e funcionar com extrema precisão) dentro de um painel de controle, o que exigiu avanços imensos na miniaturização e integração de circuitos eletrônicos, assim como no desenvolvimento de materiais semicondutores e outras tecnologias elementares que hoje estão embutidas (em versões muito mais modernas, é claro) em praticamente todo e qualquer aparelho eletrônico que utilizamos em nossas vidas.
 
“Os smartphones que as pessoas usam hoje não seriam possíveis sem a Apollo 11”, aponta Arbix, da USP. “Eles tiveram que integrar circuitos de maneira totalmente nova. Isso colocou a produção e design de semicondutores num outro patamar.”
 
Isso, sem falar nas tecnologias pioneiras de comunicação wireless, desenvolvidas para se comunicar com os astronautas e monitorar sua saúde no espaço. Ou nas técnicas de congelamento e desidratação (liofilização) de alimentos, que precisaram ser desenvolvidas para empacotar suas refeições, amplamente usadas hoje nas indústrias de fármacos e alimentos, aqui na Terra.

Um dos primeiros passos dados na Lua - Foto: NASA

Armstrong (esquerda) e Aldrin colocam a bandeira dos Estados Unidos na Lua - Foto: NASA

Após pouso na água, tripulação aguarda o helicóptero de resgate - Foto: NASA

Nem nas técnicas de processamento de imagens digitais, desenvolvidas pelo Laboratório de Propulsão à Jato (JPL) da Nasa na década de 1960, para melhorar a qualidade das imagens da Lua, que contribuíram para o desenvolvimento de máquinas de ressonância magnética e tomografia computadorizada, usadas hoje nos hospitais do mundo todo para detectar tumores, fraturas e uma série de outros problemas, com benefícios imensos para a saúde humana. 
 
Muito menos na enorme variedade de ferramentas e novos materiais, resistentes a temperaturas extremas, radiação cósmica e diversas outras características, que precisaram ser desenvolvidos para as missões espaciais e hoje estão presentes em equipamentos de bombeiros, roupas de ginástica, carros, aviões, navios, edifícios e outros produtos dos mais variados tipos.
 
A lista de contribuições tecnológicas é enorme. Tudo desenvolvido com o apoio de universidades e mais de 20 mil empresas privadas, contratadas pela Nasa ao longo do programa. Cada um dos módulos do foguete lançador (o gigantesco Saturno V) e dos veículos espaciais (Módulo de Comando, Módulo de Serviço e Módulo Lunar), por exemplo, foi projetado e construído por uma empresa diferente — usando peças, sistemas e serviços que também precisaram ser desenvolvidos por outras empresas, especialmente para o projeto.

Caminhada do Homem na Lua

Já em 1962, o presidente Kennedy destacava que o desafio lunar, mesmo em sua fase inicial, havia criado “um grande número de empresas e dezenas de milhares de novos empregos”. “O espaço e suas indústrias relacionadas estão gerando novas demandas de investimento e pessoal qualificado”, disse JFK, em setembro daquele ano, em seu famoso discurso no campo de futebol da Universidade Rice, em Houston, Texas.
 
Outras universidades tiveram papel decisivo no programa, como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), responsável por desenvolver o sistema de navegação dos veículos espaciais, e o Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), responsável por abrigar e gerenciar o JPL da Nasa. 
 
“Muitas pessoas criticam o valor que se gasta com os programas espaciais, mas esquecem que esse dinheiro todo é gasto aqui na Terra, gerando empregos e inovação tecnológica”, diz a astrônoma brasileira Rosaly Lopes, pesquisadora sênior do JPL.
 
“O crescimento da nossa ciência e educação será enriquecido pelo novo conhecimento do universo e do ambiente, pelas novas técnicas de aprendizado, mapeamento e observação; pelas novas ferramentas e computadores para a indústria, para a medicina, para as residências e as escolas”, discursou ainda Kennedy, em 1962. 

Presidente Kennedy em discurso na Rice University

Talvez o maior legado seja a própria conquista do espaço, indispensável para o desenvolvimento de todos sistemas mais modernos de telecomunicações, meteorologia, navegação, geolocalização (GPS) e monitoramento da superfície terrestre, entre outros serviços essenciais
 
“A grande contribuição foi ter lançado a base dos programas espaciais, que passaram a servir a sociedade de forma ampla”, diz o coordenador de gestão científica e tecnológica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Petrônio Noronha de Souza. Basicamente, qualquer coisa que dependa de um satélite para funcionar deve um “obrigado” ao Programa Apollo.
 
“O impacto foi muito grande no mundo todo, não só nos Estados Unidos”, resume o físico Antonio José Roque da Silva, professor da USP e diretor geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas.
 
No fim das contas, o esforço para conquistar a Lua gerou “uma pequena revolução industrial”, semelhante à que aconteceu com as grandes navegações dos séculos 16 e 17, segundo o astrônomo Augusto Damineli, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. “Foi, certamente, um dos grandes feitos da humanidade”, diz o professor, de 72 anos, um dos muitos da sua geração que foram inspirados pelo Programa Apollo a entrar para a ciência e investigar o universo (mais relatos abaixo).

Corrida Espacial

Americanos e soviéticos travaram uma disputa ferrenha pela conquista do espaço entre as décadas de 1950 e 1970
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Diálogos na USP

Chegada do homem à Lua foi um grande salto para a humanidade

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Chegada à Lua, em 1969, exigiu séculos de ciência e teve competição entre superpotências mundiais

Para colunista, a chegada do homem à Lua, mais do que uma vitória americana, foi uma vitória da humanidade e dos direitos humanos

Sem a Missão Apolo, áreas como a microeletrônica, que está em nossos computadores e celulares, poderiam ter demorado bastante para surgir

Fonte de inspiração

Terra fotografada pela tripulação do Apollo 8 - Foto: NASA

Rosaly Lopes tinha 12 anos quando o homem pisou na Lua. Naquela noite de 20 de julho de 1969, ela estava dentro de um ônibus na Argentina, voltando com a família de uma viagem à Patagônia. Não havia televisão, mas um dos passageiros ouvia a transmissão do pouso pelo rádio. 
“Foi muito emocionante; difícil até de descrever”, recorda Rosaly. Quando o ônibus fez uma parada para o café, ela desceu, olhou para o céu noturno e decidiu que sua vida seria dedicada ao espaço. O sonho de infância era ser astronauta; mas, reconhecendo que as chances eram muito pequenas — “por ser menina, brasileira, e muito míope” —, acabou aceitando a sugestão da irmã, de estudar astronomia. “Eu mal sabia o que um astrônomo fazia, mas queria trabalhar na corrida espacial, queria conquistar a Lua.”
 
Carioca, Rosaly foi para a Universidade de Londres estudar astronomia e, mais tarde, ciências planetárias, com especialização em vulcanologia. Em 1989, entrou para o Laboratório de Propulsão à Jato (JPL) da Nasa, em Pasadena, na Califórnia, onde permanece até hoje, como pesquisadora sênior. É referência internacional no estudo de vulcões extraterrestres, principalmente nas luas Io (de Júpiter) e Titã (de Saturno), usando imagens coletadas por sondas espaciais. “Não fui ao espaço, mas acabei explorando o sistema solar por meio da robótica. Isso saciou um pouco meu espírito de aventureira”, brinca a cientista.

Rosaly Lopes - Foto: Jani Radebaugh / CC BY-SA 4.0

Além do seu legado tecnológico, mais pragmático, as missão Apollo deixaram pegadas na imaginação de muitos jovens e crianças que, como Rosaly, se inspiraram nas façanhas da corrida espacial para entrar para a ciência e as engenharias. Uma herança muito mais difícil — talvez impossível — de ser quantificada, mas igualmente importante.

“Nunca desejei ser astronauta, mas o sucesso da missão Apollo me arrancou do interior do Paraná e me fez aventurar por um mundo incerto e complexo da cidade de São Paulo à procura de uma faculdade de Física”, lembra o professor Augusto Daminelli, do IAG-USP. Ele tinha 22 anos quando Neil Armstrong e Buzz Aldrin puseram os pés na Lua. Vivia na roça e não tinha televisão, mas conseguiu assistir ao feito pela TV, com a família, na casa de amigos. “Foi uma inspiração.”

“Daí, seguindo caminhos imponderáveis acabei me tornando um astrofísico e olhando a Lua não mais como um grande e difícil objetivo, mas como um pequeno aglomerado de rochas girando em torno de um minúsculo planeta”, completa Daminelli, hoje um renomado especialista em evolução estelar e astrobiologia.

Augusto Daminelli - Foto: Marcos Santos / USP Imagens

“Havia um ambiente naquela época que valorizava muito a ciência; era muito bacana”, lembra o físico Antonio José Roque da Silva, da USP. Ele tinha só 5 anos em 1969, mas se lembra de ver todo mundo em casa parado na frente da TV, vendo o homem chegar à Lua. O tema era recorrente na mídia, nos programas de televisão, nas revistas, nos gibis e nos brinquedos; permeava toda a cultura e o imaginário da época. “Lembro que se falava muito disso em casa. Foi algo que certamente influenciou uma geração.”
 
“A astronomia e a exploração do universo talvez sejam os temas que mais despertam o interesse pela ciência. Tem essa dimensão do fascínio pelo desconhecido, que é algo mais intangível, além da tecnologia”, diz o engenheiro Carlos Américo Pacheco, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-reitor do Instituto de Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos.

Antonio José Roque da Silva - Foto: Grupo Sampa / IF

“Lembro daquela imagem na TV e, depois disso, da quantidade de brinquedos que tinha conectados à Lua e a foguetes”, recorda o engenheiro Danton Villas Boas, tecnologista do IAE-DCTA, especialista em motores foguete de propulsão líquida. Ele tinha 7 anos em 1969. “Estou trabalhando nessa área, sem dúvida, por influência do pouso na Lua.”

Outro abduzido pela euforia espacial da época foi o atual ministro Marcos Pontes, então um garoto de 6 anos crescendo na periferia de Bauru, interior de São Paulo. Ele confessa que não se lembra muito do dia, mas conta que o irmão mais velho, Luiz Carlos — que escrevia cartas para a Nasa e colecionava fotos dos astronautas e das espaçonaves —, lhe explicou o que estava acontecendo. “Aí eu falei: então, tudo bem; se eles estão pousando na Lua, um dia eu vou ser astronauta e vou para lá também.”
 
Pontes cresceu, entrou para a Força Aérea, virou piloto de caça, graduou-se em engenharia aeronáutica pelo ITA, e em 1998, quase 30 anos depois do pouso da Apollo 11, foi selecionado para ser o primeiro astronauta brasileiro, treinado pela Nasa. A oportunidade estava atrelada a um acordo de participação do Brasil na construção da Estação Espacial Internacional (ISS), que acabou não se concretizando (as peças que cabiam ao Brasil construir nunca foram entregues). Ainda assim, Pontes concluiu seu treinamento no Johnson Space Center, em Houston, foi diplomado astronauta, e em 2005 se tornou o primeiro (e até hoje, único) brasileiro a ir ao espaço, de carona numa missão russa à ISS.

Marcos Pontes - Foto: NASA/Bill Ingalls

Se Pontes se inspirou nas missões Apollo para chegar ao espaço, seu próprio vôo também serviu para inspirar uma nova geração de — quem sabe — futuros astronautas e cientistas brasileiros. “O que mais me lembro é da chegada do Pontes à Estação Espacial; foi algo que realmente me marcou. Eu tinha 8 anos; assisti pela TV”, conta a jovem Maria Gisllanny Bezerra Silva, hoje com 21, estudante do quarto semestre de Física na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). “Aquele dia, resolvi que queria ser astronauta.”

No início deste ano, Maria foi uma de 24 jovens selecionados ao redor do mundo para receber o STEAM and Space Award, um prêmio de reconhecimento oferecido pela organização The Mars Generation (“Geração Marte”), criada pela jovem americana Abigail Harrison — outra aspirante a astronauta, com sonhos de pisar em Marte. Ela planeja se mudar ainda neste ano para os EUA, para estudar física e engenharia no Sweet Briar College, uma faculdade só para mulheres na Virgínia. E de lá, fazer decolar sua carreira de astronauta. 
 
“Com certeza, me inspiro muito nessas jornadas do homem à Lua”, conta Maria, que é apaixonada pelo filme Apollo 13, de 1995. “Já assisti algumas centenas de vezes.”

Maria Gisllanny Silva - Foto: Arquivo pessoal

Apollo 13 foi a única missão que fracassou em pousar na Lua (por causa de uma explosão em um dos tanques de oxigênio da nave), mas entrou para a história como um caso heróico de resgate espacial — muito bem retratado no filme. Um “fracasso de sucesso”, nas palavras da Nasa. Depois, vieram ainda a Apollo 14, 15, 16 e 17. Ao todo, foram seis pousos em sete tentativas, num período de três anos e meio. Nada mal para uma missão que parecia quase impossível.

“Continuo profundamente admirado do com o que eles fizeram”, diz o coordenador de gestão científica e tecnológica do INPE, Petrônio Noronha de Souza. 
 
“Quase todas as outras grandes aventuras do homem podem ser repetidas com relativa facilidade, mas não essa. Foi muito difícil naquela época e continua sendo muito difícil, hoje.”

Petrônio Noronha de Souza - Foto: Divulgação/MCTIC

Os Estados Unidos têm como meta voltar à Lua em 2024, estabelecer uma base permanente lá, e usar essa experiência para planejar uma futura missão tripulada a Marte. Seu novo concorrente espacial, a China, também tem planos ambiciosos de enviar astronautas e construir uma base lunar nos próximos 10 anos. Já o Brasil, ainda sofre para reerguer seu Programa Espacial, 16 anos após o acidente com o Veículo Lançador de Satélite (VLS) na base de Alcântara, que deixou 21 mortos.

Um novo desafio: 2024

A Nasa buscará solicitações para posto avançado lunar que apoiará a exploração humana da Lua até 2024 - Foto: NASA

Faz 47 anos que ninguém pisa na Lua. É verdade que o interesse pelo satélite arrefeceu com o encerramento das missões Apollo, em 1972, e o espaço entrou numa era mais pacífica e moderada de exploração, voltada para a investigação científica de outros planetas e a ocupação humana da órbita terrestre. Uma nova corrida espacial, porém, começa a tomar forma no horizonte lunar, com novos contornos, novas ambições e novos protagonistas.
 
“Assim como os Estados Unidos foram a primeira nação a alcançar a Lua no século 20, seremos também a primeira nação a retornar com astronautas à Lua no século 21”, discursou o vice-presidente Mike Pence, em março deste ano, ao anunciar o compromisso do governo Trump de enviar uma nova missão tripulada ao satélite “nos próximos cinco anos” (até 2024). “A primeira mulher e o próximo homem na Lua serão astronautas americanos, lançados por foguetes americanos, de solo americano”, garantiu Pence.
O nêmesis da União Soviética, que impelia os americanos a conquistar a Lua nos tempos da Guerra Fria, não existe mais. A Rússia é hoje a grande parceira dos Estados Unidos no espaço; sendo responsável, inclusive, por levar e trazer astronautas da Estadão Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), após a aposentaria os ônibus espaciais da Nasa, em 2011. Apesar de ter perdido a corrida lunar para os EUA, os russos desenvolveram um sistema de foguetes e cápsulas espaciais altamente confiáveis, chamado Soyuz (União, em russo), que é hoje o único meio de transporte humano no espaço.

Vice-presidente Mike Pence sobre o progresso da NASA e planos futuros para retornar à Lua e a Marte - Foto: NASA

O transporte de cargas, por sua vez, é feito por empresas privadas, contratadas pela Nasa, que também competem entre si pelo pioneirismo numa nascente indústria de comércio e turismo espacial.
 
Os chineses, que nem tinham programa espacial 50 anos atrás, são os “novos soviéticos”, avançando rapidamente e com planos ambiciosos de estabelecer uma presença na Lua já na próxima década.
 
A primeira conquista veio no início deste ano, com o primeiro pouso de um robô (missão Chang’e-4) no “lado oculto” do satélite — assim chamado porque nunca fica de frente para a Terra. A próxima missão (Chang’e-5) está prevista para ser lançada em dezembro, com uma outra sonda robótica que deverá trazer amostras do solo lunar de volta à Terra.

O modelo da sonda lunar Chang'e-5 é exibido em Zhuhai, na China - Foto: Xinhua / Liang Xu

Em 2022, está previsto o lançamento de uma estação espacial chinesa, para dar apoio a missões à Lua e a Marte; incluindo o envio de astronautas (ou taikonautas, no caso) e a construção de uma base de pesquisa na Lua “em cerca de dez anos”, segundo a agência estatal de notícias chinesa Xinhua.
 
Já os Estados Unidos querem voltar à Lua até 2024; não só para um “bate-volta”, como fizeram os astronautas da Apollo, mas para iniciar um processo de ocupação permanente do satélite. Esse é o objetivo do Programa Artemis (nome da irmã de Apollo e deusa da Lua na mitologia grega), que prevê a colocação de uma estação espacial em órbita lunar (chamada Gateway) e a construção de uma base fixa no pólo sul da Lua.

O programa Artemis prevê a colocação de uma estação espacial em órbita lunar - Foto: NASA

Para colocar tudo isso no espaço, estão sendo desenvolvidos o foguete SLS e a cápsula Orion — substitutos do Saturno V e dos veículos espaciais que transportavam os astronautas na era Apollo, respectivamente. O SLS será o maior e mais poderoso foguete já construído pelo homem, com capacidade para levar até 45 toneladas de carga ao espaço. Já a cápsula Orion (lançado pelo SLS) fará o papel dos antigos ônibus espaciais, levando e trazendo astronautas da estação espacial Gateway — que, assim como a ISS, será um projeto internacional dos EUA com Europa, Rússia, Japão e Canadá. É esperado que ambos façam seus primeiros voos em 2020.
 
A ideia de longo prazo é que a Lua sirva como base de treinamento, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias necessárias para futuras missões ao planeta Marte, a partir de 2030. O desafio foi lançado pelo presidente Donald Trump em dezembro de 2017, com a Diretiva de Política Espacial 1, prevendo um retorno à Lua até 2028. No início deste ano, porém — possivelmente pressionado pelos avanços chineses —, o prazo foi adiantado para 2024.

Alcântara, o lugar escolhido para lançar o VLS - Fotos: Sgt Resende/Agência Força Aérea / Ascom / Ministério da Defesa

O Brasil, por enquanto, não tem pretenções de colocar nada na Lua; muito menos os pés. O Programa Espacial Brasileiro ainda sofre para se recuperar da tragédia de agosto de 2003, quando um acidente com o foguete VLS (Veículo Lançador de Satélites) matou 21 pessoas no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. O país tem uma parceria de sucesso com a China para a construção de satélites de observação da Terra da classe CBERS, mas pouco para mostrar além disso. Restrições técnicas e orçamentárias limitam significativamente as ambições nacionais no espaço.
“Temos um programa espacial que, infelizmente, é modesto demais para o tamanho do Brasil”, diz o coordenador de gestão científica e tecnológica do INPE, Petrônio Noronha de Souza. “Temos realizações, mas poderíamos entregar muito mais para a sociedade.”
 
Ele ressalta a importância estratégica do espaço para setores essenciais à economia e à segurança nacional, como telecomunicações, meteorologia e agricultura. “O espaço é uma infraestrutura absolutamente fundamental para o funcionamento de qualquer nação hoje; não tem como abrir mão disso”, afirma Souza. “O investimento no espaço se paga muito rapidamente pelo benefício que traz. Não é simplesmente uma aventura.”

Torre móvel de integração do VLS - Foto: Sgt Resende / Agência Força Aérea / Ascom / Ministério da Defesa

Outros especialistas ouvidos pela reportagem destacaram a necessidade de objetivos claros e mais conectados com as demandas e desafios do País. “O sucesso do programa espacial brasileiro depende de mais recursos e do desenho de uma missão que justifique fazer esses investimentos”, diz o engenheiro e economista Carlos Américo Pacheco, professor da Unicamp e ex-reitor do ITA.
 
Segundo o ministro Marcos Pontes, o desenvolvimento do programa espacial brasileiro depende de uma recuperação do orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC) e da aprovação em definitivo, pelo Congresso, do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) entre Brasil e Estados Unidos, para uso do Centro de Lançamento de Alcântara.

Destroços da estrutura de lançamento do VLS - Foto: Rose Brasil / ABr

 Uma vez que isso esteja resolvido, diz ele, o objetivo é investir na construção de satélites nacionais, voltados para “objetivos nacionais”, sob demanda de outros ministérios. “Vamos ver o que os ministérios precisam e fazer sob demanda esses satélites, com tecnologia nacional e empresas nacionais, para serem lançados do Brasil”, disse Pontes ao Jornal da USP
 
Inicialmente, segundo ele, deverão ser usados veículos lançadores (foguetes) de empresas internacionais; porém sem abrir mão do objetivo de desenvolver, também, lançadores nacionais, voltados para satélites de pequeno porte, que seriam a nova tendência do setor. “Vejo muitas possibilidades de cooperação para projetarmos e construirmos esses satélites no Brasil”, diz o ministro.

Satélite CBERS-4A após o ultimo teste de simulação espacial no INPE - Foto: INPE

Foto de destaque: Buzz Aldrin, segundos antes de se tornar o segundo homem a pisar na lua. Foto: NASA.

Arte: Beatriz Abdalla (infografia), Cleber Siquette (linha do tempo) e Moisés Dorado

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