Ato público realizado no dia 8 de março de 2020, Dia Internacional da Mulher, por mulheres indígenas de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, onde manifestaram insatisfação com violência doméstica, sexual e assédio e as poucas perspectivas de resolução existentes para o problema; mobilização para enfrentar a violência é analisada em pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP - Foto: Ana Amélia / Amazônia Real

Na Amazônia, mobilização de mulheres indígenas contra violência se estende a ações para enfrentar pandemia

Em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, mobilização para prevenir violência resultou em ações para contornar efeitos da pandemia na população da cidade

 27/05/2022 - Publicado há 3 meses  Atualizado: 07/06/2022 as 8:49

Autor: Júlio Bernardes

Arte: Guilherme Castro

No Amazonas, mulheres indígenas da cidade de São Gabriel da Cachoeira se organizaram como resposta à violência, uma mobilização que se estendeu ao enfrentamento da pandemia de coronavírus a partir de 2020. Nesse momento, começou a campanha Rio Negro, Nós Cuidamos!!!, que arrecada e distribui alimentos, máscaras, produtos de higiene, combustível, ferramentas agrícolas e de pesca para comunidades indígenas nas margens do Rio Negro, de forma a evitar que se desloquem para a cidade e contraiam a doença. Essa e outras ações das mulheres de São Gabriel são relatadas em uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, que analisa três casos de feminicídio de mulheres indígenas e a resistência presente na busca de formas de prevenir a violência doméstica, criminal e o assédio.

“Na pesquisa, eu analiso as formas práticas que se consolidam em um contexto crítico de violências e ameaças a mulheres indígenas na cidade de São Gabriel da Cachoeira, e como que essas mulheres respondem, atravessam e se constituem nesse contexto”, diz a autora do trabalho, Dulce Meire Mendes Morais, assessora técnica em Gênero do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA). “Por meio da análise dos documentos oficiais produzidos sobre os casos de feminicídio e o acompanhamento das mobilizações na cidade, foi possível pensar e alinhavar a pesquisa.”

O estudo De documentos, cactos e vírus: violência sexual, mulheres indígenas e Estado em São Gabriel da Cachoeira foi realizado na cidade de São Gabriel da Cachoeira, localizada na região do Alto Rio Negro, no noroeste amazônico brasileiro, e abrangeu as questões de violência doméstica, criminal (feminicídio) e assédio.

Dulce Meire Mendes Morais - Foto: Reprodução

Dulce Meire Mendes Morais - Foto: Reprodução

“São Gabriel da Cachoeira é o município de maior população indígena do País. São 23 povos, como Piratapuya, Tukano, Tuyuka, Baniwa, Baré, Dâw, entre outros, compreendendo mais de uma dezena de línguas distribuídas em quatro famílias linguísticas: aruak, tukano oriental, naduhup e yanomami”, descreve. “A esse conjunto de línguas originárias da região, soma-se ainda o nheengatu, o baniwa e o tukano, línguas co-oficiais do município, além do português e do espanhol.”

Em 2018, começaram a acontecer rodas de conversas na cidade para compreender melhor a temática de violência, num trabalho colaborativo entre a FSP, o ISA, o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (Dmirn) da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Observatório da Violência de Gênero no Amazonas (Ovgam). “Nessas conversas, bem como em trabalho de campo, foram observados diversos relatos de jovens sobre o medo de estupro e muitas reportaram histórias próprias ou de amigas, parentes e conhecidas que já passaram por esse tipo de situação, além de assédios nos espaços públicos e também no interior de suas casas”, afirma a pesquisadora. As mulheres se organizaram e reivindicaram uma delegada mulher, conseguindo que a delegada Grace Jardim atuasse na cidade, a partir de janeiro de 2019.

“Antes de ir para São Gabriel pela primeira vez, eu tinha apenas uma narrativa que me foi contada sobre duas mulheres que haviam sido assassinadas e violentadas sexualmente. Essa era a imagem que eu tinha quando iniciei meu trabalho, imóvel, de duas mulheres mortas. No entanto, pude perceber que é possível colorir e dar movimento a essa imagem”, relata. “Observei, ao longo do trabalho de campo, mulheres organizadas e articuladas dentro do movimento indígena. Um dos momentos mais significativos que diz respeito a tais articulações foi minha experiência na construção de um ato público realizado no dia 8 de março de 2020, Dia Internacional da Mulher.”

Insatisfação Compartilhada

Dulce conta que as mulheres se reuniram na orla da praia da cidade para evidenciar uma insatisfação compartilhada das violências contra elas e, também, da pouca chance de resolução que encontram nessas situações e contextos violentos. “Embora fosse a preparação de um ato contra a violência sofrida pelas mulheres, não faltou espaço para cores, beleza, sorrisos, companheirismo e amizade”, observa. “Me parece que elas, além da capacidade de envolver pessoas em sua luta, compartilham a feitura do mundo para construir um lugar onde todas as vidas sejam vivíveis. Então, falar de violência com essas mulheres é também falar sobre luta, enfrentamento e resistência.”

Foto: site da campanha Rio Negro, Nós Cuidamos!

De acordo com a pesquisadora, o movimento de mulheres indígenas da cidade ganhou visibilidade local e nacional, não apenas com as questões referentes a violências como também as relacionadas à pandemia de covid-19. “Devido à situação crítica em que o estado do Amazonas se encontrava, o trabalho de campo em São Gabriel foi alterado e depois interrompido em maio de 2020”, ressalta. “Em junho, elaboramos a cartilha Violência Doméstica e Violência Sexual em tempos de pandemia. Redes de apoio e denúncias: você não está sozinha, que demandou uma mobilização para distribuição e conversas nas línguas indígenas da região sobre o material produzido. O processo pandêmico da cidade, especialmente as ações de enfrentamento através da campanha Rio Negro, Nós Cuidamos!, criada e liderada pelas coordenadoras do Dmirn, tornou-se central em minha pesquisa, a partir de diálogos por videochamadas e do acompanhamento do trabalho das mulheres por WhatsApp e presencialmente.”

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Segundo Dulce, a campanha teve como objetivo arrecadar e distribuir alimentos, máscaras, produtos de higiene, combustível, ferramentas agrícolas e de pesca para auxiliar as famílias do Rio Negro a não se deslocarem até a cidade em busca desses produtos, correndo o risco de contraírem a doença e a levarem para as comunidades indígenas. “A campanha também procurou atender às necessidades da Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, a Rede Wayuri, sistema regional de comunicação e informação radiofônica e digital da Foirn, que teve papel fundamental na divulgação de informações sobre o coronavírus nas comunidades indígenas”, ressalta. “Entendo que, atualmente, a campanha está em processo de reelaboração. Muitas situações de vulnerabilidade assolam a população do Rio Negro, como, por exemplo, as cheias, e as coordenadoras do Dmirn estão se articulando para pensar novas frentes de atuação.”

A pesquisa foi
orientada pelo professor José Miguel Olivar, da FSP, coordenador do projeto Gênero e Violência Contra Mulheres Indígenas na Cidade de São Gabriel da Cachoeira, iniciativa que teve a colaboração de Juliana Radler e Carla Dias, do ISA, Elizângela Costa, Janete Alves, Maria do Rosário, Larissa Duarte e Glória Rabelo, antigas e atuais coordenadoras do Dmirn, e a professora e coordenadora do Observatório da Violência de Gênero no Amazonas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Flávia Melo. “Também foi de extrema importância a parceria com Grace Jardim, que atuava como delegada da Polícia Interativa de São Gabriel da Cachoeira e com a Vigilância Epidemiológica da cidade através da Secretaria Municipal de Saúde”, afirma Dulce. “Para além de instituições, a contribuição das mulheres indígenas de São Gabriel foi fundamental para o desenvolvimento da pesquisa.”

Mais informações: e-mail dulcemorais@usp.br, com Dulce Meire Mendes Morais


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