Morcego da espécie Sturnira lilium: indivíduos da mesma espécie apresentam preferências alimentares distintas entre si, comportamento chamado de especialização individual – Foto: Marco Mello

Mesma espécie de morcegos, gosto diferente para comida: como isso pode impactar o ambiente?

Pesquisadores estudaram por 13 anos a espécie Sturnira lilium e constataram que as preferências alimentares dos indivíduos definem os espaços que eles irão frequentar

15/10/2020
Por Beatriz Azevedo
Arte: Vinicius Vieira

Pesquisadores do campus de Rio Claro da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com o Instituto de Biociências (IB) da USP, estudaram por 13 anos o comportamento alimentar de morcegos da espécie  Sturnira lilium (família Phyllostomidae). A espécie é frugívora, ou seja,  se alimenta de frutos e plantas. A pesquisa mostrou que indivíduos da mesma espécie apresentam preferências alimentares distintas entre si, comportamento chamado de especialização individual. O estudo concluiu que a predileção de cada indivíduo o leva a ter uma forma característica de se deslocar no habitat em busca do alimento e isso pode ter impacto no meio ambiente.

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A pesquisa de doutorado Especialização individual no uso do espaço por morcegos frugívoros procurou entender como esses mamíferos se deslocam em razão do alimento e foi realizada na reserva da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a Fundação Alexander von Humboldt-Stiftung, da Alemanha, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) financiaram o estudo. 

“No começo dos anos 2000, os cientistas começaram a falar sobre especialização individual, mostrando que não existia uma lista de quais alimentos uma espécie inteira comia. Indivíduos da mesma espécie comem coisas diferentes”, disse ao Jornal da USP a pesquisadora Patrícia Kerches-Rogeri, coautora do estudo.

Para constatar a especialização individual, os cientistas identificaram as áreas de forrageio dos morcegos — onde eles buscam comida — para medir a densidade das plantas em diferentes regiões da reserva. Eles notaram que, em cada área, existiam mais de algumas plantas do que de outras, o que indica a preferência individual.

“Se cada morcego prefere um tipo de planta e cada um deles cresce em lugares diferentes, o morcego é obrigado a frequentar ambientes diferenciados e isso faz com que cada indivíduo da população tenha um padrão de voo distinto”, disse ao Jornal da USP Marco A. R. Mello, professor do Instituto de Biociências da USP e orientador da pesquisa de doutorado que foi defendida na Unesp.

A movimentação em busca do alimento

Para entender como a preferência por determinados alimentos afeta o deslocamento de cada morcego os pesquisadores usaram a radiotelemetria. Os radiotransmissores — que pesavam, em média, 0,4 grama — eram colados nos morcegos com cola veterinária e se soltavam em, no máximo, 30 dias. Os equipamentos tinham sensor de movimento e enviavam um sinal sonoro para a antena dos pesquisadores. Apenas indivíduos adultos e não reprodutivos entraram do estudo.

A sinalização indicava se o morcego estava parado ou em movimento. O sinal que mostrava a movimentação era mais rápido, enquanto o que apontava repouso era mais espaçado. Os cientistas precisavam acompanhar o sinal dos indivíduos durante a noite para mapear a chamada área de vida de cada animal, ou seja, os lugares mais frequentados e utilizados por eles. 

“Após duas noites, nós éramos capazes de prever onde o morcego estaria em cada momento da noite”, afirma Patrícia, ressaltando que “isso acontece porque esses animais usam manchas de recurso, ou seja, eles identificam onde fica o recurso e o usam até acabar”.

Imagem da reserva da UFSCar – Foto: Marco Mello

Rede social de morcegos

A computação e análise de dados do experimento se basearam em redes complexas. A ideia era representar a dieta de indivíduos diferentes por sobreposição. O mesmo pode ser feito com o espaço, transformando-o em uma rede para representar como os indivíduos o utilizam. 

Existem duas formas de representar a dieta e os espaços: em redes e entre os próprios morcegos. A primeira forma consiste em juntar o comportamento dos morcegos com os diferentes itens alimentares e isso gera um padrão de interações, porque cada indivíduo prefere uma planta: alguns morcegos iam em só uma área, outros iam em várias e assim por diante. A segunda maneira é traduzir essas interações entre os próprios morcegos. 

Imagem da reserva da UFSCar – Foto: Marco Mello

“Forma-se uma espécie de rede social de morcegos”, informa ao Jornal da USP Bernardo Brandão, pesquisador na  Swedish University of Agricultural Sciences (Suécia) e coautor da pesquisa. Isso serve para entender o quão parecido é o comportamento dos morcegos individualmente. “Nós queríamos ver quem curte as mesmas coisas e quem prefere coisas diferentes”, acrescenta Brandão.

Além de adaptar essas redes complexas para o caso específico dos morcegos, os pesquisadores adaptaram outras medidas de espaço. Eles estimaram a área de uso (onde é mais provável o animal estar) e fizeram sobreposição para transformar em uma medida do quão especialista um único animal pode ser. Se a sobreposição do animal é muito alta, isso significa que ele é mais generalista e vice-versa.

Os pesquisadores deixaram esse padrões e redes disponíveis para todos os cientistas. A ideia é que seja possível usar esse parâmetro para qualquer animal. 

Impactos ambientais

Os morcegos são dispersores de sementes eficientes: eles comem o fruto e não as danificam. Quando defecam, elas estão intactas. Por terem capacidade de voar por longas distâncias, eles podem pegar o fruto e levar sua semente para outros lugares, onde pode ser que a semente não encontre condições para germinar. É uma sequência de eventos. A especialização da dieta leva cada morcego a frequentar lugares diferentes e isso afeta a eficiência do animal como dispersor de sementes. 

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“Vamos supor que algum indivíduo goste de comer pimentas e tomates, mas eles crescem em ambientes diferentes, então, pode ser que ele leve a pimenta para onde ela não consiga crescer e vice-versa. Ou um indivíduo que gosta só de comer pimentas, ele vai estar sempre levando as pimentas para um lugar onde elas crescem bem”, explica o professor Marco Mello.

Os morcegos Sturnira lilium se alimentam de plantas pioneiras, aquelas que chegam primeiro aos ambientes desmatados. Se a individualização afeta a eficiência dos morcegos como dispersores, pode haver consequência para a regeneração de regiões de vegetação.

Outra conclusão é sobre a complexidade dos organismos. É comum ver estudos alimentares que observam a espécie como uma entidade fixa e sem individualidade. “Quando começamos a olhar a especialização, começamos a olhar para o indivíduo enxergando essa variabilidade”, conta Patrícia. 

Partindo disso, é possível criar um link com a preservação e conservação do meio ambiente. Se cada indivíduo é único, não há motivos para preservar um ou outro. Bernardo usa como exemplo a construção de barragens. Alagar uma parte da floresta pode fazer com que os indivíduos especialistas sejam prejudicados e até deixem de existir. Dentro da população existem tanto indivíduos generalistas como especialistas.

Uma coisa que tenho pensado bastante ultimamente é sobre a Mata Atlântica. Será que nós já a destruímos a ponto de só existir indivíduos generalistas ali? Se sim, podemos ter perdido muita variedade nas espécies”, conclui Patrícia.

Mais informações: e-mail parogeri@gmail.com, com Patrícia Kerches-Rogeri


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