“Jornal da USP” fortalece redes para divulgação da ciência

Veículo tem ampliado iniciativas para integrar o público e a ciência das universidades com novos projetos, presença em eventos e ações nas mídias sociais

Arte sobre fotos: Moisés Dorado

Notícias falsas, movimento antivacina, terra plana. Num mundo em que a desinformação tem crescido a ponto de ocupar espaços de destaque no debate público, a defesa da ciência se faz necessária. É neste contexto que o Jornal da USP, que agrega a Rádio USP e a TV USP, tem investido cada vez mais em ampliar iniciativas de divulgação científica.

Com o crescimento do veículo, aumenta a responsabilidade de trazer conteúdo de qualidade que ajude a levar a produção das universidades para fora delas. Além das matérias que explicam pesquisas e descobertas científicas, hoje há também um esforço maior de compartilhar as experiências da equipe para contribuir com outros projetos de divulgar a ciência.

No último ano, representantes do Jornal da USP participaram de diversos eventos com esse objetivo, tanto em São Paulo, em universidades e instituições de pesquisa, como em outros lugares, de Goiás a Santa Catarina. Além disso, continua existindo o desejo de sempre melhorar a produção e alcançar novos públicos, ampliando a presença do veículo em diferentes mídias e nas redes sociais.

Conexões

Luiza Caires: Levando “a palavra” da divulgação científica para vários cantos do País

Esse diálogo se intensificou com a publicação do guia De cientista para jornalista – noções de comunicação com a mídia, que reúne orientações sobre como lidar com a imprensa e produzir conteúdo para divulgar a ciência de modo mais eficiente.

Luiza Caires, editora de Ciências do Jornal da USP e uma das autoras do guia, explica que de início ele foi pensado para a comunidade USP, mas circulou rapidamente e um grande número de instituições passou a fazer convites à equipe para palestras e oficinas. Ela mesma já foi a outras universidades com esse objetivo, inclusive em outros estados. “Neste semestre participei de mais de dez eventos. É corrido conciliar com o trabalho de editora e às vezes também de repórter. Mas aqui somos sempre estimulados a essa extensão, e acho fundamental encontrar tempo para interagir, principalmente com outras universidades públicas”, comenta.

“O que a gente vem buscando, principalmente, é fortalecer a rede de divulgação de ciência, tanto na USP quanto fora dela”, diz. “Não apenas ajudando com nossa experiência, mas ouvindo, porque quando vamos para outros lugares também aprendemos muito.”

Outra contribuição nesse sentido é a recente incorporação do Ciência USP à rede Science Vlogs Brasil, que reúne cientistas e comunicadores que buscam ampliar o conteúdo qualificado de ciência divulgado na internet, especialmente em vídeo.

Science Vlogs: qualidade na divulgação de ciência pelo YouTube

Internamente, o Jornal da USP também abriu uma seleção para consultores cientistas colaborarem com as publicações. O objetivo foi reunir especialistas de diferentes áreas que fiquem à disposição para tirar dúvidas sobre questões científicas envolvendo as produções. Fazem parte da rede alguns professores da Universidade, mas o foco principal foram os alunos de pós-graduação. “É um público do qual queremos nos aproximar mais, conhecer melhor o que vem sendo feito por eles”, diz Luiza Caires, à frente da iniciativa. “Também é um pessoal mais jovem, que fala mais a linguagem de um público do qual o jornal quer se aproximar.”

Ciência para ver e ouvir

Além das parcerias, o Jornal da USP também procura se desenvolver em diferentes mídias, que contribuem para tornar a ciência mais acessível e alcançar novos públicos, como as reportagens audiovisuais feitas para o Canal USP.

Tabita Said e Thales Figueiredo: Ciências humanas também têm destaque no vídeo – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

De acordo com Tabita Said e Thales Figueiredo, ambos da equipe de vídeo do Jornal da USP, as produções buscam sempre a melhor maneira de tornar o conteúdo compreensível e atrativo, não resumido a trazer conclusões de pesquisas nem colocando os cientistas como seres iluminados que têm as respostas para tudo. “Divulgação científica não é somente trazer resultados, e sim mostrar os processos de como a ciência é feita”, diz Tabita Said.

A equipe procura ainda produzir conteúdo plural, dando espaço também para áreas e temas nem sempre valorizados, como nas ciências humanas. Um exemplo foi a série da TV USP sobre o movimento LGBT durante a ditadura militar, feita a partir de uma tese de doutorado defendida na USP.

Transformada em curta-metragem, a série foi exibida neste ano no festival de cinema For Rainbow, no Ceará, no qual Thales Figueiredo esteve presente. “É legal enxergar a representação da ciência para além do que a gente costuma enxergar como divulgação científica. O próprio tema dessa série, LGBTs na ditadura, é algo que vai nesse sentido”, comenta.

No mês passado, Tabita e Thales ministraram uma oficina sobre divulgação científica e produção de vídeo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a convite do Grupo Língua Franca de Divulgação Científica. Em outra data, os convidados foram os jornalistas Silvana Salles e Denis Pacheco, que falaram sobre o mesmo tema voltado para os podcasts, outra mídia na qual o Jornal da USP tem investido esforços.

Silvana Salles e Denis Pacheco: contando histórias científicas em podcast – Fotos: Cecília Bastos / USP Imagens e Arquivo pessoal

Denis Pacheco, que produz os podcasts Momento Cidade e Jornal da USP+ e colabora com o Momento Tecnologia, explica que uma das vantagens do formato para divulgação científica é que, no geral, sua capacidade de prender a atenção é maior do que em outras mídias. “O podcast também é capaz de gerar empatia do público com o apresentador, o que é muito bom, especialmente quando é necessário explicar um tema complicado.”

No Ciência USP, cada episódio procura aproveitar todo o potencial do áudio para abordar um assunto diferente: pesquisas, descobertas, temas de ciência em alta nos debates. Trata-se de um modelo pouco utilizado em podcasts sobre ciência no Brasil, roteirizado e baseado principalmente em reportagens. Como diz Silvana Salles, que apresenta o programa, o objetivo é “mobilizar áudios para contar uma história”.

Ela complementa ainda que dessa forma é possível extrapolar os limites de uma determinada área ou pesquisa para explorar melhor determinado tema. Em um dos episódios, por exemplo, participam um arqueólogo e um geólogo para falar sobre como a chegada de Colombo interferiu no clima da América. “Podemos pensar em cruzamentos, em como pessoas de áreas completamente diferentes podem falar sobre um mesmo assunto”, diz a jornalista.

No início do ano, o time de colaboradores do Jornal da USP envolvidos com a comunicação da ciência ganhou fôlego com a chegada à USP, como repórter especial, do jornalista Herton Escobar. Ele tem se dedicado, principalmente, a cobrir temas de política científica, além organizar a série de eventos USP Talks, que leva destacados cientistas para falar ao vivo com o público sobre os temas de interesse da atualidade.

Herton Escobar e o USP Talks no auditório do Masp – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

“A política científica tem um impacto direto nas universidades, no que é produzido nelas, que por sua vez causa impacto na sociedade. E a imprensa de modo geral tem poucos jornalistas dedicados especificamente a isso”, comenta Herton Escobar.

Alguns dos principais temas que ele tem acompanhado recentemente são a proposta de fusão da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e as definições do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações para 2020. Herton também tem participado como palestrante e mediador de eventos ligados à ciência, na USP e fora dela.

Mídias sociais

Nas mídias sociais Ciência USP, a divulgação busca cada vez mais se tornar “interação científica”, conta Luiza Caires. No Instagram, por exemplo, uma ação manteve linha direta entre o público e os cientistas responsáveis pela descoberta de uma nova doença no Acre, para que tirassem dúvidas sobre o tema. O público também é chamado para ver os bastidores da produção de notícias, no momento em que as reportagens são feitas, como em matéria que cobriu o trabalho de paleontólogos investigando supostas pegadas de dinossauro no Mato Grosso, e a cobertura em tempo real de uma visita aos túneis do Cern, na Suíça.

Instagram Ciência USP: interação científica

Threads (ou “fios”, como são chamados em português) no Twitter trazem imagens e aspectos novos sobre as pautas publicadas no jornal, organizadas num dos formatos preferidos dos usuários dessa rede. Além disso, pesquisadores de universidades públicas estão sendo convidados a elaborar, junto com Ciência USP, threads sobre seus trabalhos.

Somadas, todas essas iniciativas procuram tornar o conteúdo melhor e acessível para mais gente. Como explica Luiza Caires, dessa forma a USP busca cumprir um papel de fortalecer a divulgação e o jornalismo científicos que, no Brasil, têm limitações, com pouco espaço na mídia um número relativamente pequeno de profissionais dedicados a ele.

“Informação é poder, não apenas no sentido político mas também no cotidiano; ter informações científicas básicas ajuda a lidar com a realidade de um jeito diferente”, coloca. “Não é como se isso resolvesse tudo, claro, mas contribui de uma forma importante.”

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