Instituto Butantan faz parceria com empresa chinesa para testar vacina contra o sars-cov-2

Vacina já está em estágio de desenvolvimento avançado e será testada em 9 mil voluntários para confirmar sua eficácia

Epidemia em ascensão torna Brasil um dos melhores lugares do mundo para testes da vacina contra a covid-19 – Foto: Pixabay

Se por um lado o Brasil é hoje um dos grandes epicentros da pandemia de covid-19 no mundo, por outro está se consolidando, também, como um dos epicentros da testagem e desenvolvimento de vacinas contra o vírus causador da doença, o sars-cov-2. Posição que ganhou força, nesta semana, com o anúncio de uma parceria entre o Instituto Butantan, ligado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, e a empresa chinesa Sinovac, com sede em Pequim.

A vacina foi desenvolvida na China; já passou pela Fase 1 de testes clínicos, envolvendo 144 pessoas, e está agora na Fase 2, com 600 voluntários em processo de acompanhamento, segundo informações divulgadas pelo governo do Estado. Essas duas etapas iniciais servem, principalmente, para avaliar a segurança do produto. Se essa segurança for comprovada, a ideia é que a Fase 3 — envolvendo um número bem maior de pessoas, e mais voltada para eficácia — seja realizada no Brasil, com 9 mil voluntários, em parceria com o Butantan.

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“É uma das vacinas em desenvolvimento em estágio mais avançado do mundo”, disse o diretor do instituto, Dimas Tadeu Covas, na entrevista coletiva de anúncio da parceria, realizada quinta-feira (11 de junho), no Palácio dos Bandeirantes. Covas é professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.

Testes pré-clínicos, realizados em camundongos, ratos e macacos, mostraram uma boa resposta protetora da vacina; mas só mesmo os estudos clínicos de Fase 3 poderão comprovar se ela é, realmente, eficiente e segura para a prevenção da covid-19 em seres humanos.

Há muitas formas de se desenvolver uma vacina. Neste caso, a técnica utilizada é a mais clássica de todas: a de vírus inativado. A vacina contém cópias do sars-cov-2 que foram cultivadas em células in vitro e desativadas em laboratório, de modo a gerar uma resposta imune do organismo, sem causar a doença. É como se fosse uma “falsa infecção” de treinamento. Assim, caso a pessoa venha a ser infectada de verdade no futuro, seu sistema imunológico já estará apto a reconhecer e eliminar rapidamente o invasor. Dessa forma, evita o desenvolvimento da doença.

O vírus inativado é combinado com outras substâncias, chamadas adjuvantes, para potencializar a resposta imune do organismo. A eficácia da vacina também depende de ajustes de dosagem, número de aplicações e outros fatores, que precisam ser testados e comprovados clinicamente.

Como o objetivo da vacina é prevenir, e não curar a doença, a melhor maneira de testar sua eficácia é vacinar um número grande de pessoas que estejam naturalmente expostas ao vírus e fazer um acompanhamento criterioso para saber se elas foram protegidas ou não. Ou seja, se tiveram contato com o vírus, mas não ficaram doentes, porque estavam imunizadas. E o Brasil, infelizmente, é hoje um dos melhores lugares lugares do mundo para se fazer isso, pelo fato de a pandemia ainda estar em ascensão por aqui. Nos países onde a pandemia já foi controlada (caso da própria China) é impossível fazer esse tipo de avaliação em larga escala, pois as pessoas não estão mais expostas ao vírus no dia a dia.

Caso a vacina chinesa se prove eficiente, a parceria prevê que a tecnologia seja compartilhada com o Instituto Butantan, para ser produzida e distribuída gratuitamente no Brasil.

Outras nove vacinas, baseadas em diferentes técnicas, já estão em fase de testes clínicos (com seres humanos) ao redor do mundo. Uma delas, desenvolvida pela Universidade de Oxford e incorporada pela indústria farmacêutica AstraZeneca, também será testada no Brasil, em parceria com o Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (Crie) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); já em Fase 3, com 2 mil voluntários.

Mais de 120 protótipos de vacinas também estão em fase inicial de desenvolvimento ao redor do mundo, incluindo projetos na USP, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e no próprio Instituto Butantan.

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