Índice aponta como estados têm reagido à pandemia

Liderada por pesquisadores da USP e do Cebrap, a recém criada Rede de Pesquisa Solidária divulgou nota técnica avaliando as políticas para enfrentamento da covid-19 adotada nos estados

O primeiro Boletim da Rede de Pesquisa Solidária traz, a partir de um estudo realizado por pesquisadores da Blavatnik School of Government da Universidade de Oxford, um mapa das respostas dos governos estaduais e federal no território brasileiro para reduzir a progressão da covid-19.

O chamado RDS (Índice de Rigidez do Distanciamento Social) classifica o grau de rigor das medidas adotadas pelos governos estaduais para introduzir estratégias o isolamento social para evitar a propagação da infecção e a transmissão local. O índice aponta a abrangência das medidas referentes ao fechamento de escolas, locais de trabalho e à suspensão de eventos em locais públicos sujeitos a aglomerações. A medida que avalia o fechamento de locais de trabalho foi dividida entre os setores de comércio, serviços, e setor industrial, para maior detalhamento.

Como é feito o cálculo

Uma vez identificadas, as políticas recebem escore 1 se contêm sugestões de suspensão das atividades, e escore 2 quando a suspensão passa a ser mandatória. Caso não haja nenhuma medida em exercício para o tema observado, a política recebe escore 0 (zero). A caracterização da dimensão geográfica destas medidas, por outro lado, é baseada na atribuição de escore igual a 1 (um) para os casos em que as determinações se dirigem a todo território e 0 (zero) quando existem especificações geográficas para sua aplicação.

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Finalmente, o RDS é calculado agregando-se as medidas de proibição de aglomerações e de fechamento de escolas e locais de trabalho. Essa soma é redimensionada para representar uma escala de 0 a 100, sendo 100 o máximo de rigidez de isolamento possível. As medidas incluídas para esta nota técnica são todas aquelas que foram publicadas desde começo o de janeiro deste ano até o fim de março, e o banco de dados agrega diariamente os resultados da progressão destas medidas.

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Fonte: CGRT-BRFED

A situação dos estados

Os estados reagiram com grande variedade em intensidade e rapidez à chegada do covid-19 ao País. São Paulo, epicentro da epidemia, foi o primeiro estado a tomar medidas, no dia 13 de março, sendo seguido por outros. Na semana seguinte, no dia 20 de março, todos os estados já haviam implementado alguma medida de restrição de atividades com vistas ao isolamento social. Muitos estados agiram cedo e de maneira mais rígida, alguns obtendo índices maiores do que São Paulo. Importante ressaltar que os estados a atingirem valores superiores ao estado de São Paulo no RDS foram aqueles que decretaram o fechamento de indústrias não essenciais. Apesar de praticamente todos os estados terem adotado medidas sanitárias e recomendações de alternância de turnos, entre outras, apenas Alagoas, Ceará e Goiás, de fato, decretaram o fechamento de indústrias.

A evolução do RDS em São Paulo

São Paulo teve seu primeiro caso confirmado no dia 25 de fevereiro (dado do Ministério de Saúde). No dia 13 de março, ainda com 64 casos e sem mortes confirmadas, o governo do estado decretou a proibição de eventos públicos com mais de 500 pessoas e recomendou o fechamento de escolas e universidades (Decreto No 64.862). Na segunda feira, dia 16 de março, quando o estado ainda contava com apenas 152 casos e nenhum óbito, o governo do estado decretou o fechamento de escolas e universidades, proibiu eventos sujeitos a aglomerações de qualquer tipo (sem limite permitido). Em comparação, o fechamento de escolas e universidades na Itália se deu no dia 4 de março, quando o aquele país já tinha 3.089 casos. No dia 24 de março, já com 840 casos e 40 mortes, foi decretado o fechamento do comércio (Decreto No 64.881), medida tomada pela Itália no dia 11 de março, com 12.462 casos. As indústrias, que não foram alvo de fechamento em São Paulo, fecharam na Itália apenas no dia 22 de março, já com 59.138 casos.

A partir do acompanhamento das medidas adotadas no estado de São Paulo, percebe-se que houve um gradual aumento de isolamento social acompanhando o avanço da epidemia no estado. O estado de São Paulo, porém, não atingiu o grau máximo de medidas para implantar o distanciamento social, já que até agora não decretou o fechamento de indústrias, instruindo a respeito de padrões sanitários e recomendando a realização de turnos entre os trabalhadores (Decreto No 64.864).

A velocidade da resposta do RDS em outros estados

A maioria dos estados brasileiros seguiu as medidas de distanciamento social implantadas em São Paulo, adotando medidas para aumentar o distanciamento social na mesma semana que o estado decretou as primeiras medidas. Alguns estados, como a Bahia, reagiram adotando uma maior abrangência de medidas em um só decreto. Outros como Goiás, foram além das medidas adotadas pela média nos estados e decretaram proibição e fechamento de indústrias.

Por já estarem em vigor nos estados por algumas semanas, é esperado que as medidas de distanciamento social comecem a apresentar resultados não apenas na redução efetiva da mobilidade, medida, por exemplo, por meio de tecnologias de localização, como tem feito o governo do estado de São Paulo  – João Dória diz que 49% dos paulistas estão cumprindo quarentena; ideal seria 70% -, mas também no número de casos e de mortes em decorrência do vírus. Investigar e avaliar o impacto das medidas implantadas será a próxima etapa de pesquisa do projeto.

O Índice de Rigidez do Distanciamento Social (RDS) em três tempos em todos os estados brasileiros - Fonte: CGRT-BRFED

Sobre a Rede

A Rede de Pesquisa Solidária é uma iniciativa de pesquisadores para calibrar o foco e aperfeiçoar a qualidade das políticas públicas dos governos federal, estaduais e municipais que procuram atuar em meio à crise da covid-19 para salvar vidas. O alvo é melhorar o debate e o trabalho de gestores públicos, autoridades, congressistas, imprensa, comunidade acadêmica e empresários, todos preocupados com as ações concretas que têm impacto na vida da população.

Trabalhando na intersecção das Humanidades com as áreas de exatas e biológicas, trata-se de uma rede multidisciplinar e multi-institucional que está em contato com centros de excelência no exterior, como as Universidades de Oxford e Chicago.

A coordenação científica está com a professora Lorena Barberia (Ciência Política USP). No comitê de coordenação estão: Glauco Arbix (Sociologia-USP e Observatório da Inovação), João Paulo Veiga (Ciência Política USP), Graziela Castello (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – Cebrap), Fábio Senne (Nic.br) e José Eduardo Krieger (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP – INCT-Incor). O comitê de coordenação representa quatro instituições de apoio: o Cebrap, o Observatório da Inovação, o Nicbr e o Incor. A divulgação dos resultados das atividades será  feita semanalmente através de um boletim, elaborado por Glauco Arbix, João Paulo Veiga e Lorena Barberia.

São mais de 40 pesquisadores e várias instituições de apoio que sustentam as pesquisas voltadas para acompanhar, comparar e analisar as políticas públicas que o governo federal e os estados tomam diante da crise. “Distanciamento social, mercado de trabalho, rede de proteção social e percepção de comunidades carentes são alguns dos alvos de nossa pesquisa. Somos cientistas políticos, sociólogos, médicos, psicólogos e antropólogos, alunos e professores, inteiramente preocupados com o curso da crise provocada pelo corona vírus no mundo e em nosso país”, define Glauco Arbix.

Ouça a entrevista de Arbix ao Jornal da USP no Ar

Leia o primeiro boletim da Rede de Pesquisa Solidária

As outras notas estão disponíveis neste link.

Com informações da Rede de Pesquisa Solidária

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