Estudo desvenda feromônios de besouros “serra-paus” do Brasil

Resultados dão subsídios para monitoramento conservacionista e manejo das espécies de importância agrícola e florestal

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Trabalho contribui para entendimento de espécies consideradas pragas agrícolas e florestais quando fora de sua região de origem. Na foto, espécime da família dos cerambicídeos, popularmente conhecidos como “serra-paus” ou “longicórnios” – Foto: Didier Descouens via Wikimedia Commons . / CC BY-SA 3.0

 

Pesquisa em andamento na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, identifica os feromônios produzidos por besouros da família Cerambycidae, popularmente conhecidos como “serra-paus” ou “longicórnios”, nativos do Brasil. “Estes besouros são de suma importância para a manutenção da saúde dos ecossistemas, pois suas larvas se alimentam de material lenhoso, como troncos e galhos de árvores, vivas ou mortas, o que contribui sobremaneira para a ciclagem de nutrientes no ambiente”, relata Weliton Dias da Silva, pós-doutorando do Departamento de Entomologia e Acarologia, autor do estudo.

Além disso, segundo o pesquisador, algumas espécies de Cerambycidae são consideradas importantes pragas agrícolas e florestais, as quais podem se tornar ainda mais danosas quando introduzidas fora de sua região de origem. “Pesquisas realizadas em pouco mais de uma década têm identificado feromônios ou candidatos feromonais em, aproximadamente, 100 espécies de besouros desta família.” Os feromônios são substâncias químicas produzidas pelos insetos para comunicação entre indivíduos de uma mesma espécie. “Estes ‘sinais químicos’, uma vez liberados no ambiente, são percebidos pelos insetos por meio de receptores específicos localizados em suas antenas. Os feromônios podem ser de vários tipos, dependendo do papel biológico exercido. Em Cerambycidae, por exemplo, os ‘feromônios sexuais de agregação’ são os mais conhecidos e são exclusivamente produzidos pelos machos para a atração de coespecíficos com propósitos reprodutivos”, explica.

Câmaras abertas por larvas de cerambicídeos num tronco de árvore – Foto: Charlotte Simmonds via Wikimedia Commons / CC BY 2.0

O estudo reforça que várias destas espécies produzem ou utilizam-se dos mesmos compostos feromonais para localização do parceiro sexual e substratos para a oviposição. “Por causa desta ‘parcimônia’ na produção e uso de feromônios é que armadilhas iscadas com estas substâncias têm sido utilizadas na captura de múltiplas espécies de Cerambycidae. Contudo, estas pesquisas têm se concentrado somente em cerambicídeos nativos da América do Norte, Europa e Ásia, sendo muito pouco conhecidos os feromônios produzidos pelas espécies africanas, australianas e sul-americanas, apesar da diversidade de espécies nestes continentes”, complementa.

Os resultados do trabalho feito no Laboratório de Ecologia Química e Comportamento de Insetos, e que tem supervisão do professor da Esalq José Maurício Simões Bento, estão em artigo intitulado Aggregation-Sex Pheromones and Likely Pheromones of 11 South American Cerambycid Beetles, and Partitioning of Pheromone Channels, publicado na revista Frontiers in Ecology and Evolution.

No artigo, os autores trazem as primeiras evidências da existência de parcimônia biossintética e de uso de feromônios envolvendo espécies de Cerambycidae nativas da América do Sul, especificamente do Brasil. “Apesar desta parcimônia, mostramos que a atração cruzada entre espécies que vivem nos mesmos locais e que voam na mesma época do ano pode ser, pelo menos, minimizada por componentes feromonais minoritários. Para aquelas espécies que produzem atraentes feromonais distintos, mas que são atraídas pelos feromônios de hetroespecíficos, sugerimos que elas podem estar utilizando, de modo oportunista, os ‘canais feromonais’ de outros cerambicídeos para encontrarem hospedeiros adequados para as suas larvas.”

Outro aspecto interessante é que entre os compostos feromonais identificados neste estudo, estão alguns que já foram identificados para várias espécies de Cerambycidae da América do Norte e Ásia, o que dá mais suporte para a hipótese de que certas estruturas feromonais são conservadas entre espécies de diferentes continentes.

Dimorfismo sexual em poros pronotados em Ambonus distinctus e Ambonus electus. Detalhe nos cantos inferiores esquerdos do tergum de (A) macho e (B) fêmea A. distinto, e (C) macho e (D) fêmea A. electus. Os machos de ambas as espécies têm poros específicos do sexo (como mostrado pelas setas) que estão ausentes nas fêmeas e uma maior densidade de cabelos.

O trabalho traz novas e importantes informações sobre a ecologia química de Cerambycidae, principalmente das espécies nativas do Brasil. “Os resultados gerados fornecem subsídios para o desenvolvimento de estratégias de monitoramento de espécies de cerambicídeos da fauna brasileira, com propósitos conservacionistas, e para o manejo integrado das espécies de importância agrícola, florestal e quarentenária.”

A pesquisa está vinculada ao pós-doutoramento de Weliton Dias da Silva, sob a supervisão do professor José Maurício Simões Bento e com colaboração dos professores Jocelyn G. Millar (University of California, Riverside) e Lawrence M. Hanks (University of Illinois at Urbana-Champaign).

Para José Maurício Simões Bento, o trabalho revela aspectos ainda pouco conhecidos da comunicação química das espécies de besouros serra-paus nativos do Brasil. “Considerando que armadilhas com feromônios são muito sensíveis e específicas na detecção de insetos, elas poderão ser utilizadas para o zoneamento geográfico dos cerambicídeos estudados aqui. Uma vez que a diversidade de cerambicídeos está intimamente ligada a diversidades de plantas hospedeiras, a captura ou não destes besouros por estas armadilhas pode fornecer indícios sobre a conservação da fauna e flora local”.

O artigo pode ser acessado na íntegra neste link.

Da Divisão de Comunicação da Esalq, com edição do Jornal da USP

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