Estudo calcula como tráfego aéreo e rodoviário podem aumentar dispersão da covid-19 no País

Pesquisadores avaliaram capacidade da doença se espalhar por regiões através do padrão de mobilidade humana. Estudo também aponta disparidades regionais no número de leitos

A partir da transmissão comunitária no Rio de Janeiro e São Paulo, doença pode ser difundida por outros grandes centros, como Distrito Federal, Recife e Salvador – Foto: Marcelo Camargo/ABr

Um relatório produzido pela Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) e Fundação Getúlio Vargas (FGV) alerta para o risco da covid-19 espalhar-se para as regiões metropolitanas do Sul e do Sudeste, Recife, Salvador e o Distrito Federal, a partir dos casos registrados no Rio de Janeiro e em São Paulo. O estudo mostra que a doença pode ser levada para essas áreas por meio do tráfego aéreo e se disseminar nas regiões metropolitanas através de pessoas que moram em um município e trabalham ou estudam em outro. O trabalho também aponta que os grandes centros urbanos concentram os maiores índices de população acima de 60 anos, mais sujeita a casos graves, e há grandes disparidades regionais no número de leitos disponíveis para atendimento. A íntegra do documento pode ser consultada aqui.

As conclusões do relatório já foram encaminhadas para as autoridades da área de saúde. “O estudo cruzou informações sobre todas as regiões do Brasil para ter uma noção da exposição à covid-19 e da capacidade de atendimento do sistema de saúde”, afirma o pesquisador da Fiocruz Marcelo Gomes, coordenador do estudo. “O objetivo é que as autoridades de saúde pública possam utilizar os dados do trabalho para auxiliar a alocação de recursos prioritários e determinar ações para minimizar o impacto da doença.” O relatório Estimativa de risco de espalhamento da COVID-19 no Brasil e o impacto no sistema de saúde e população por microrregião foi produzido pelo Núcleo de Métodos Analíticos para Vigilância em Saúde Pública (PROCC) da Fiocruz e pela Escola de Matemática Aplicada (EMAp) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Avião pousando no aeroporto Internacional de Guarulhos – Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Inicialmente, com base nos casos registrados no Rio e em São Paulo, os pesquisadores avaliaram a capacidade da doença se espalhar para outras regiões através do padrão de mobilidade humana. “Para fazer essa estimativa, foram usados dados da malha aérea nacional e informações do Censo Demográfico de 2010 sobre mobilidade pendular intermunicipal, ou seja, deslocamentos para estudo ou trabalho entre município”, conta o pesquisador. “O cálculo permite estimar qual o risco de exposição e a velocidade de disseminação do vírus em cada uma das 558 microrregiões do País.”

Numa segunda etapa do trabalho, foi analisado o perfil demográfico de todas as regiões brasileiras para obter informações sobre as populações com mais de 60 anos de idade, entre as quais há maior risco de casos graves da doença. “Também foram incorporadas informações sobre leitos para internação e complementares, a fim de avaliar a capacidade de atendimento de cada localidade”, diz Gomes. “A ideia é que, quanto maior a população em risco, maior tem que ser a oferta de leitos hospitalares, para que possa ser atendida em caso de disseminação da covid-19.”

Alto risco de exposição

De acordo com a pesquisa da Fiocruz, os principais centros urbanos do Brasil, em especial as regiões metropolitanas do Sul, Sudeste, Recife e Salvador, além do Distrito Federal, encontram-se em um cenário de alta exposição ao vírus da covid-19 em função da transmissão comunitária no Rio de Janeiro e São Paulo. “Isso acontece devido ao alto fluxo de pessoas através da malha aérea, porque a mobilidade de longo alcance permite a disseminação da doença entre Estados distintos”, destaca o pesquisador. “Na regiões metropolitanas e no entorno das capitais também há elevado risco de exposição devido à mobilidade pendular.”

O estudo indica que nos grandes centros, em geral, há um porcentual elevado de pessoas com mais de 60 anos. “Isso é uma medida de vulnerabilidade”, alerta Gomes. “Quanto maior a fração da população nessa faixa etária, maior é o risco de pessoas com quadros graves de covid-19, aumentando também a necessidade de disponibilizar leitos para atender essa população.”

Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil via Flickr – CC

Quanto à disponibilidade de leitos, o trabalho aponta que a grande maioria dos Estados apresenta um cenário heterogêneo. “Dentro de um mesmo Estado, há microrregiões com um número relativamente alto de leitos para cada 10 mil habitantes e outras com baixa quantidade de leitos”, relata o pesquisador. “Essa disparidade é um grande desafio em termos de distribuição de recursos para atendimento hospitalar em todo o território nacional.”

Gomes reforça que o objetivo do estudo e fornecer subsídios com informação cientificamente relevante para as autoridades decidirem qual o melhor rumo a ser tomado. “O que podemos afirmar é que as ações já determinadas como distanciamento social, redução dos deslocamentos ao mínimo necessário e outras ações nesse sentido são fundamentais para, se não impedir, retardar ao máximo a disseminação no território”, enfatiza, “para que as autoridades tenham tempo hábil para reestruturar o sistema de saúde onde for necessário e atender a população com qualidade”.

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