Estudo avalia mudanças do transporte público durante pandemia

Mariana Giannotti explica que, mesmo com o risco de lotação, a redução na frota foi homogênea e não considerou as diferentes demandas, especialmente nas periferias

 16/09/2020 - Publicado há 1 ano

O Jornal da USP no Ar recebeu Mariana Giannotti, professora do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica (Poli) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), para tratar sobre estudo que, envolvendo ambas as unidades da USP, avalia as importantes mudanças no sistema de transportes com a flexibilização decorrente da pandemia. 

A docente explica que a pesquisa foi feita no momento da pandemia em que muitas pessoas, dependendo do transporte público, voltaram às suas atividades presenciais, o que evidenciou uma desigualdade estrutural. “Pessoas com níveis de renda e educacional mais altos conseguiram permanecer em casa e fazer seus trabalhos remotamente. No entanto, grande parte da população, cuja presença física era essencial para a continuidade dos trabalhos, teve de continuar se movimentando pela cidade a despeito dos altos riscos de contágio”, evidencia Mariana. 

O estudo, que faz parte da Rede de Pesquisa Solidária, busca contribuir com a discussão de como ter uma reorganização para que o risco de contágio dessas pessoas no trajeto para o trabalho seja minimizado, especialmente profissionais essenciais como os da área da saúde e de serviços básicos. Mariana explica que a missão da pesquisa era “analisar a questão intraurbana, o que acontecia em termos de distribuição espacial das desigualdades socioterritoriais dentro das cidades, e como as políticas que foram adotadas estavam afetando especificamente as populações que dependem do transporte público”. 

Outra preocupação do grupo de pesquisa era não estigmatizar o transporte público, na medida em que é um serviço essencial. A professora aponta a ação em São Paulo que reduziu a frota para acompanhar a redução da demanda. No entanto, houve uma diminuição homogênea na cidade, que não considerou “as diferenças entre centro e periferia, onde há uma demanda muito maior pelo transporte público”. 

Além disso, com a redução na frota, há o problema de menor arrecadação, já que a receita vem das tarifas pagas pelos usuários. Mariana cita, como exemplo, regiões da Europa, onde foi dado um auxílio pelos governos federais para que as empresas continuassem com as frotas, a fim de proporcionar um distanciamento social e evitar a lotação. Recentemente, aqui no Brasil, foi aprovado na Câmara dos Deputados um projeto de lei de auxílio do governo federal para o transporte público.

“No Brasil”, aponta ela, “essa discussão demorou a aparecer como uma política emergencial. No entanto, é preciso aprofundá-la, pois um dos medos de trabalhadores da área é que esse auxílio não venha com condições técnicas específicas de uso, o que pode piorar ou dar continuidade a pontos negativos do serviço oferecido hoje”. 

Mariana finaliza, explicando que a pesquisa do CEM continua e que, além da pesquisa ligada à Rede de Pesquisa Solidária, há um projeto específico sobre desigualdades sociais no transporte urbano. 

Ouça a íntegra da entrevista no player. 


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