Cientistas reforçam ao MCTIC vantagens de o Brasil virar Estado membro Cern

Benefícios da associação à Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear vão além da ciência, com alto potencial econômico e tecnológico para indústria

A Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern) é sede do maior experimento científico do mundo, realizado em cooperação entre vários países – Foto: Luiza Caires

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Onze universidades e instituições brasileiras, entre as quais a USP, têm pesquisadores atuando no Large Hadron Collider (LHC), experimento da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern) feito em cooperação por cientistas de todo o mundo. No dia 28 de junho, parte destes cientistas recebeu o Ministro da Ciência,Tecnologia, Informação e Comunicações (MCTIC), Marcos Pontes, e sua comitiva para apresentar as instalações e tratar, entre outros assuntos, da possibilidade de o Brasil se tornar membro do Cern. O País ainda não é um Estado membro da organização, mas tem com ela um acordo de colaboração desde 2006.

O ministro Marcos Pontes, membros da sua comitiva e representantes do Cern – Foto: Missão Permanente do Brasil em Genebra/Ministério das Relações Exteriores

Acompanhado de seus assessores, do diretor de Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), Antonio José Roque da Silva, e do presidente da Rede Nacional de Física de Altas Energias (Renafae), Ronal Shellard, o ministro visitou a sede deste que é o maior e mais complexo aparato científico já desenvolvido pela humanidade, explorando o que representa hoje a fronteira do conhecimento na busca do entendimento dos constituintes mais básicos da matéria e das interações que atuam sobre eles.

Eles se reuniram com representantes – pesquisadores e estudantes – dos quatro experimentos do LHC no Cern (Atlas, Alice, CMS e LHCb) e do experimento Alpha. “Os pesquisadores fizeram um breve relato do histórico das colaborações brasileiras no Cern e falaram da tecnologia envolvida nos experimentos, bem como das possíveis oportunidades de uma futura condição do Brasil como país membro”, relata o professor do Instituto de Física (IF) da USP Marco Leite, presente na reunião.

Marco Leite diz que o ministro e sua comitiva se mostraram sensíveis às preocupações externadas pela comunidade e pela necessidade urgente de dar prosseguimento ao processo de associação do Brasil ao Cern. “Ele ressaltou que é importante que a comunidade científica se mobilize junto aos seus representantes no Congresso e no Senado, pois é onde tais assuntos são debatidos”, relata o professor, que lidera as pesquisas da USP feitas no experimento Atlas.

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Após o encontro, Marcos Pontes se reuniu oficialmente com a diretora do Cern, a cientista italiana Fabiola Gianotti. Enquanto que os resultados práticos desta visita deverão levar algum tempo, já que dependem de fatores como orçamento e tramitação em esferas além do MCTIC, a percepção de Marco Leite é que “a visita foi extremamente positiva e representou uma oportunidade valiosa para um diálogo entre o MCTIC e os pesquisadores da área de física de altas energias”, diz.

O professor do IF destaca que construir, operar e analisar os dados produzidos por esse instrumento é uma tarefa gigantesca, conduzida por milhares de cientistas durante várias décadas, empregando o que há de mais avançado na tecnologia e nos modelos da física e da matemática. “Poder tomar parte e colaborar nestes experimentos é um privilégio muito grande para a comunidade da física do Brasil. Certamente pesquisadores brasileiros estão participando do que há de mais sofisticado no mundo na área de altas energias.”

Também foram abordados no encontro o impacto social do experimento e as estratégias para a divulgação das pesquisas realizadas no LHC para o público em geral. Ainda foram expostas as experiências e perspectivas profissionais dos estudantes envolvidos nos experimentos do LHC, já que se trata de um projeto que ainda se estenderá por várias décadas.

Impacto na ciência e na economia

As instituições envolvidas têm a possibilidade de acessar os dados e participar de importantes descobertas e medidas fundamentais para entender como a natureza se comporta. Nesse processo, um intenso e contínuo programa de pesquisa e desenvolvimento é conduzido ao longo de toda a duração do projeto, com períodos de onde parte dos equipamentos, detectores e sistemas de processamento de informação são atualizados para fazer frente aos desafios que aumentam à proporção que mais conhecimento é obtido. “Nessa área, novas técnicas, bens e equipamentos de altíssimo valor agregado são inventados, construídos e postos em operação no LHC e em seus experimentos: sistemas eletrônicos, sensores de radiação, mecânica de alta precisão, dispositivos magnéticos, software, entre outros”, diz Marco Leite.

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O professor do Instituto de Física da USP Marco Leite: visita foi positiva e representou uma oportunidade valiosa para diálogo entre o MCTIC e os pesquisadores – Foto: Luiza Caires

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O docente do IF Marcelo Munhoz coordena uma equipe da USP que trabalha no experimento Alice, do LHC. Ele também acha que o Brasil terá muito a ganhar, não só em termos de pesquisa científica, como em tecnologia, caso nos tornemos membro do Cern. “A ideia é que o País contribua com um montante de recursos anualmente para a manutenção do Cern, e como contrapartida, o Cern se compromete a comprar produtos e serviços brasileiros. Assim as indústrias e empresas brasileiras podem participar dos editais do Cern.” Ele explica que, “como uma instituição dedicada à pesquisa de ponta, a necessidade do Cern é por tecnologia muito avançada”, e então qualquer demanda teria um potencial de levar a melhorias e avanços das nossas indústrias.

Marcelo Munhoz coordena equipe da USP que trabalha no experimento Alice, do LHC – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Marco Leite complementa dizendo que o Cern abriga ainda outros experimentos que compartilham dos mesmos desafios tecnológicos, o que faz da organização uma importante consumidora de produtos industriais e serviços. “O caso do Sirius no Brasil, com um grau de nacionalização muito alto, mostra que a indústria nacional pode e quer ser desafiada com encomendas de altíssima exigência tecnológica e de qualidade”, diz. Além disso, elas se tornam não apenas fornecedoras, mas participantes do processo de pesquisa e desenvolvimento, o que para elas abre oportunidades além do Cern. “O recente acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia pode ser, se aprovado, um importante amplificador dessas possibilidades para empresas brasileiras – afinal, qual empresa não gostaria de declarar em seu portfólio para consumidores europeus que é fornecedora do Cern?”, exemplifica o pesquisador.

Ele afirma que a associação facilita imensamente a formação e aperfeiçoamento de pessoal altamente especializado – tanto em nível técnico como superior – por meio de estágios de longa duração envolvendo diretamente a empresa interessada e o Cern. O custo da associação com o Cern varia entre os países a partir de um mínimo de 1 milhão de francos anuais (cerca de R$ 3,8 milhões). Trata-se de um recurso que não sai do orçamento de Ciência e Tecnologia, mas entra na rubrica de contribuição nacional a organismos internacionais, como ONU e OEA. Além disso, argumenta, “a contabilidade envolvida antes do fechamento dos contratos leva em conta um peso que permite equilibrar a contribuição de um país com a quantidade de compras realizadas pelo Cern”.

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