Em unidade hospitalar de Ribeirão Preto, 80% dos sobreviventes da covid-19 lá atendidos têm sintomas persistentes

Foram acompanhadas 175 pessoas que continuaram com manifestações da doença por quatro meses após o início dos sintomas

 Publicado: 05/10/2021  Atualizado: 07/10/2021 as 16:27
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Fotomontagem por Rebeca Alencar com imagens de Freepik e Pixabay

 

Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP apontam que 80% dos 175 recuperados da covid-19 atendidos no Ambulatório Pós-Covid (MINC) do Hospital das Clínicas da FMRP têm sintomas persistentes até quatro meses do início da manifestação da doença. O resultado foi apresentado no formato de pôster durante o 6th Internacional Conference on Prevention & Infection Control (ICPIC 2021), ocorrido em Genebra, na Suíça, em setembro. O evento internacional, realizado bianualmente, reúne cientistas de várias partes do mundo na área de infectologia.

“Os dados fazem parte do Projeto Recovida, que tem o objetivo de descrever a evolução natural da doença com os sintomas físicos, psicológicos, ambientais e sociais. Todos os sobreviventes participantes foram atendidos no Ambulatório Pós-Covid (MINC) do Hospital das Clínicas da FMRP”, conta a fisioterapeuta Lívia Pimenta Bonifácio, que desenvolve o projeto em seu pós-doutorado na FMRP.

A pesquisa

Os participantes foram divididos em três grupos, seguindo critérios estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que são: aqueles que tiveram sintomas leves, sem necessidade de oxigênio suplementar; com sintomas moderados, com necessidade de internação e oxigênio suplementar; e com sintomas graves, que necessitaram de intubação e tratamento na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). “Observamos que mesmo entre os sobreviventes com sintomas leves, 71% tiveram persistência das manifestações por, pelo menos, quatro meses, sendo 73% entre moderados e 93% em casos graves”, afirma Lívia.

Centro de Terapia Intensiva do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto – Foto: HCFMRP

 

Além disso, os cinco sintomas mais frequentes relatados pelos sobreviventes são: fadiga, dispneia ou falta de ar, tosse, dor de cabeça e perda da força muscular. “As manifestações persistentes podem variar de uma população para outra, não necessariamente as mesmas sequelas vão ocorrer em diferentes localidades geográficas. Isso ressalta a importância do nosso trabalho, que é entender as manifestações da população brasileira”, conta o professor Fernando Bellissimo Rodrigues, do Departamento de Medicina Social da FMRP e orientador do estudo.

Os pesquisadores ainda apontam que a qualidade de vida geral dos pacientes também foi afetada após a infecção pelo sars-cov-2. Antes da covid-19, os sobreviventes relataram que 64% era boa e 16%, muito boa, diminuindo para 56% e 12,3% depois da doença.

Perfil dos participantes e próximos passos

O grupo de 175 pacientes acompanhados é formado por 51,4% de mulheres, possui média de 53 anos de idade e com Índice de Massa Corporal (IMC) médio de 31,7, que já é considerado obeso. Entre as três doenças preexistentes mais frequentes estão: 37% hipertensão, 28% diabete e 48,6% obesidade. Além disso, 22% relatam tabagismo prévio, ou seja, que já foram fumantes.

“O estudo foi feito com uma amostra muito específica da população, pois são pacientes que, na maioria dos casos, foram internados, passaram pelo HCFMRP e tiveram uma apresentação moderada ou grave da covid-19. Eles não podem ser generalizados para toda a população, pois sabemos que na maioria dos casos os sintomas são leves”, explica a fisioterapeuta e pós-doutoranda Lívia.

Os pesquisadores continuam acompanhando os pacientes por um ano após o início dos sintomas, com aplicação de exames físicos para medição de pressão arterial, da saturação de oxigênio e da frequência cardíaca e respiratória, além de ausculta pulmonar, testes de força muscular, questionário e entrevista.

“Descrever as manifestações é o primeiro passo no sentido de estabelecer o processo de reabilitação. Se a gente não sabe quais são as sequelas e qual a frequência, como vamos planejar uma intervenção de reabilitação? Essa é a sequência do trabalho: permitir o planejamento e o estudo de diferentes formas para reabilitação dos pacientes para que eles tenham uma vida mais próxima do normal”, finaliza Bellissimo.

Além de Lívia e Bellissimo, colaboram com o estudo os professores e pesquisadores Viviane Csizmar; Francisco Barbosa-Junior; Ana Pereira; Marcel Koenigkam-Santos; Danilo Wada; Gilberto Gaspar; Felipe Carvalho; Valdes Bollela; Rodrigo Santana e João Paulo Souza, além de outros colaboradores.

Mais informações: e-mail livia_pb@usp.br, com Lívia Pimenta Bonifácio

Ouça no player abaixo entrevista dos pesquisadores ao Jornal da USP no Ar, Edição Regional.


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