Dieta com prebióticos pode modular microbiota do leite materno

Segundo estudo do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC) com a Universidade de Copenhagen, a modulação poderia ser usada para conferir benefícios à saúde do bebê

Prebióticos são componentes alimentares não digeridos pelo organismo, mas que podem ser consumidos por grupos de bactérias benéficas presentes no intestino – Foto: Pixabay

Por Angela Trabbold/Acadêmica Agência de Comunicação 

Durante a amamentação, a microbiota do leite materno – conjunto de micro-organismos naturalmente presentes no leite – é transferida para o bebê, ajudando na formação da sua microbiota intestinal e no desenvolvimento de seu sistema imunológico. Uma pesquisa desenvolvida pelo Centro de Pesquisa em Alimentos (Food Research Center – FoRC), em parceria com a Universidade de Copenhagen (Dinamarca), mostrou que é possível modular a microbiota do leite materno através da dieta com prebióticos – o que poderia beneficiar a saúde do bebê.
Marina Padilha é graduada em Nutrição e Metabolismo pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e possui mestrado pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) –
Foto: Reprodução

Os prebióticos são componentes alimentares não digeridos pelo organismo, mas podem ser consumidos por grupos de bactérias benéficas presentes no intestino, tais como Lactobacillus e Bifidobacterium, estimulando a sua atividade e proliferação. Segundo a pesquisadora Marina Padilha, primeira autora do estudo, dois grupos de mulheres lactantes foram acompanhados durante 20 dias – 28 mulheres receberam fruto-oligossacarídeos (FOS), um prebiótico, com um complemento de maltodextrina, e 25 receberam apenas a maltodextrina. O leite materno foi coletado antes e depois da intervenção.

Ao analisar estatisticamente a microbiota do leite materno, a pesquisadora identificou uma maior mudança na comunidade de bactérias do leite materno no grupo de mulheres que receberam o FOS, quando comparado ao grupo controle. “Se podemos modular a microbiota do leite através da dieta da mãe, acreditamos que futuramente será possível fazer com que o bebê receba determinados grupos de micro-organismos que poderiam proporcionar algum benefício à saúde”, explica Padilha.

Até o momento, as mudanças encontradas na microbiota do leite foram individuais e não houve um padrão nestas mudanças. O grupo analisou diversos fatores que poderiam estar influenciando a resposta ao FOS, como o Índice de Massa Corporal (IMC) e o uso de antibióticos durante a gestação. No entanto, o único fator relacionado foi a idade materna: as mudanças foram maiores em mulheres mais jovens.

Susana Saad é professora e chefe do Departamento de Tecnologia Bioquímica-Farmacêutica da FCF da USP – Foto: Reprodução

De acordo com a pesquisadora, uma possível explicação para isso seriam diferenças na composição da microbiota intestinal das participantes. Fatores como a idade ou mesmo os hábitos alimentares decorrentes da idade poderiam influenciar a composição de micro-organismos no intestino. Estudos prévios mostram que diferenças na microbiota intestinal podem ser responsáveis por diferentes respostas a uma intervenção dietética, como o FOS.

A orientadora do estudo, Susana Saad, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP e pesquisadora do FoRC, explica que a microbiota do intestino se torna mais estável conforme o indivíduo envelhece. Assim, outra hipótese é que a microbiota de uma pessoa mais jovem pode ser mais suscetível aos efeitos dos prebióticos.

Próximos passos

A pesquisadora Marina Padilha pretende investigar a microbiota intestinal das mulheres lactantes, para identificar se de fato essa microbiota responde de forma diferente ao FOS de acordo com a idade da mulher. Ela também propõe verificar se, de fato, a suplementação materna com o FOS exerceria influência sobre a microbiota do bebê.

“Seria importante, ainda, analisar outro tipo de componente do leite materno, os chamados oligossacarídeos do leite humano (HMOs) que, ao serem consumidos, estimulam a multiplicação de bactérias benéficas. É possível que o consumo de FOS pela mãe também influencie a composição de HMOs no leite.”

Internacionalização

O estudo faz parte do doutorado de Padilha, que recebeu uma Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (Bepe) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para conduzir a pesquisa na Universidade de Copenhagen durante seis meses. Lá, a cientista realizou o trabalho de biologia molecular: isolou o DNA das bactérias do leite materno e analisou os grupos de micro-organismos do leite.

A professora Susana Saad, orientadora da pesquisa, já tinha uma parceria com pesquisadores da Dinamarca, coordenando um projeto temático Fapesp de intercâmbio internacional. Saad também coordenou um projeto da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) de intercâmbio internacional com a Wageningen University (Holanda), entre 2007 e 2011.

 

Sobre o FoRC

Criado em 2013, o FoRC é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Reúne equipes multidisciplinares de diferentes instituições de pesquisa do Estado de São Paulo: USP, Unicamp, Unesp, Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Suas linhas de pesquisa estão estruturadas em quatro grandes temas: Sistemas Biológicos em Alimentos; Alimentos, Nutrição e Saúde; Qualidade e Segurança de Alimentos e Novas Tecnologias e Inovação. Além de realizar pesquisas e promover a transferência de tecnologias, o FoRC também realiza atividades de difusão do conhecimento científico para a sociedade.

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