No Brasil, parasita causador da esquistossomose é transmitido pelo caramujo da espécie Biomphalaria glabratadoença, típica de países pobres, é tida como negligenciada – Imagem: Arte Jornal da USP

Descoberta sobre resposta imune abre caminho para vacina contra esquistossomose

Em testes com animais, anticorpos gerados na primeira infecção reconhecem mais rápido parasita causador da doença e aceleram cura em casos de reinfecção

 26/10/2021 - Publicado há 1 mês  Atualizado: 27/10/2021 as 16:47

A infecção pelo Schistosoma mansoni, parasita causador da esquistossomose, é capaz de criar uma resposta imune que gera uma espécie de “memória” nas defesas do organismo, fazendo os anticorpos responderem com muito mais rapidez a uma segunda infecção, acelerando a cura. A descoberta aconteceu em pesquisa do Instituto Butantan, com participação da USP, realizada em macacos infectados com os parasitas, os quais, após a segunda infecção, não conseguiram amadurecer nem se reproduzir. 

Agora, os pesquisadores planejam identificar proteínas do parasita que são atingidas por esses anticorpos, para serem testadas como possíveis candidatas a fazerem parte de uma vacina contra a esquistossomose, considerada uma doença negligenciada, típica de países pobres. As conclusões do estudo são apresentadas em artigo publicado pela revista Nature Communications em 26 de outubro.

A esquistossomose é transmitida pelo caramujo Biomphalaria glabrata, que é penetrado pelas larvas do parasita (miracídios), originadas dos ovos liberados das fezes de pessoas infectadas. Essas larvas se desenvolvem, transformam-se em cercárias, saem do caramujo, chegam ao ser humano ao entrarem em contato com a pele, alcançam a forma adulta e provocam a doença.

“A esquistossomose ainda causa milhares de mortes atualmente no Brasil, e estima-se que 1,5 milhão de pessoas estão em áreas de risco no País. Mais de 200 mil pessoas morrem anualmente de esquistossomose em todo o mundo”, afirma ao Jornal da USP Sergio Verjovski-Almeida, pesquisador do Instituto Butantan e professor do Instituto de Química (IQ) da USP, autor sênior do trabalho. “Não existe nenhuma vacina disponível para combater a doença no Brasil ou no mundo. Existe apenas um tratamento disponível, o medicamento Praziquantel, que é ineficaz contra as formas imaturas dos vermes, não combate a reinfecção e, para o qual, já há relatos de tolerância dos parasitas”, acrescenta Murilo Sena Amaral, pesquisador do Instituto Butantan e primeiro autor do artigo.

Sergio Verjovski-Almeida – Foto: Arquivo pessoal

De acordo com Verjovski-Almeida, desde o ano 2000, trabalhos científicos já apontavam a capacidade dos macacos-rhesus de combater naturalmente uma primeira infecção com o Schistosoma mansoni, agente causador da esquistossomose, que também é chamada popularmente de doença do caramujo ou barriga d’água. 

“No entanto, não era compreendido se os macacos eram capazes de desenvolver uma resposta imune capaz de curá-los mais rapidamente após uma segunda infecção”, observa Verjovski-Almeida. “A pesquisa avaliou se macacos infectados são capazes de desenvolver uma memória imune duradoura, de modo que esse conhecimento sirva como base para o desenvolvimento de uma possível vacina.”

Gráfico de Jornal da USP

No estudo, foram realizados experimentos in vitro e in vivo. “Nos experimentos in vivo, macacos foram infectados e reinfectados com o parasita, e vários parâmetros foram medidos para avaliar a evolução da infecção e a resposta imune dos macacos frente a ela”, descreve Amaral. “Nos experimentos in vitro, o plasma dos macacos contendo anticorpos foi incubado com os parasitas, a viabilidade deles e os genes afetados foram avaliados e comparados com os parasitas incubados sem o plasma.”

Recuperação rápida da reinfecção

Durante a primeira parte da pesquisa, 12 macacos-rhesus foram infectados e todos se curaram num período de 12 a 17 semanas após a infecção. “Depois de 42 semanas, quando os macacos já estavam livres dos parasitas, eles foram submetidos a uma segunda infecção. A conclusão foi que os macacos se recuperaram ainda mais rápido da reinfecção”, relata Verjovski-Almeida. “Após a primeira infecção todos os macacos liberaram ovos nas fezes, e alguns animais tiveram sintomas leves como diarreia e desidratação. Depois da segunda infecção, nenhum deles apresentou sintomas clínicos da doença, e já entre a primeira e a quarta semanas após a reinfecção os esquistossomos nem chegaram a amadurecer até vermes adultos e não liberaram ovos.”

Murilo Sena Amaral, primeiro autor do artigo sobre o estudo – Foto: Arquivo pessoal

Entre os 700 vermes presentes nessa fase dos testes, menos de três foram recuperados de cada macaco no final do experimento. “Todos estavam atrofiados, o que levantou a hipótese de que os anticorpos bloquearam a alimentação e o desenvolvimento dos parasitas, que não conseguiram amadurecer. Para testar essa hipótese, os parasitas foram incubados no laboratório com os anticorpos gerados pelos macacos”, observa Amaral. “Essa incubação levou à morte dos parasitas, e identificamos nove genes indispensáveis para sua sobrevivência e manutenção do metabolismo, que foram inibidos pela defesa imune do macaco. A descoberta abre a possibilidade de que esses genes passem a ser explorados como novo alvo contra o Schistosoma mansoni.

Segundo Verjovski-Almeida, a descoberta de que macacos-rhesus são capazes de desenvolver uma memória imune duradoura, de forma a responder mais rápido após uma segunda infecção, e de que há anticorpos gerados contra o parasita que encaminham a cura, indicam que é possível utilizar os alvos destes anticorpos, ou seja, proteínas do parasita, no desenvolvimento de vacinas nos próximos anos. “As próximas fases do estudo serão a identificação das proteínas do parasita que são alvejadas pelos anticorpos dos macacos e os testes destas proteínas como novos candidatos vacinais em camundongos”, planeja.

A pesquisa foi liderada por Sergio Verjovski-Almeida e Murilo Sena Amaral, do Instituto Butantan, com participação dos pesquisadores Daisy Woellner Santos, doutoranda em Bioquímica do Instituto de Química (IQ) da USP, Adriana S. A. Pereira, Ana Carolina Tahira, João V. M. Malvezzi, mestrando da Pós-Graduação Interunidades em Bioinformática da USP, Patrícia Aoki Miyasato, Rafaela de Paula Freitas, Eliana Nakano, Simone de Oliveira Castro e Vânia Gomes de Moura Mattaraia. Também colaboraram no trabalho os pesquisadores Jorge Kalil, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), Elisa M. Tjon Kon Fat, Claudia J. de Dood, Paul L.A.M. Corstjens e Govert J. van Dam, da Leiden University Medical Center, na Holanda, Ronaldo de Carvalho Augusto e Christoph Grunau, da Université Perpignan Via Domitia, na França, e R. Alan Wilson, da University of York, no Reino Unido.

Mais informações: e-mail verjo@iq.usp.br, com o professor Sergio Verjovski-Almeida

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