Cronistas brasileiros ajudaram a transformar a imagem da capoeira no início do século 20

Artigo publicado na revista “Epígrafe” analisa como a capoeira, de arte marginalizada e reprimida, se transformou em ícone de expressão da cultura brasileira

 28/07/2021 - Publicado há 4 meses

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O artigo “O papel dos cronistas brasileiros na transformação da imagem da capoeira no início do século XX (1900-1930)”, analisa os diferentes papéis atribuídos ao esporte – Foto: Frank M.Rafik/Flickr

 

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

Quem procura um esporte como a luta, que abrigue, ao mesmo tempo, dança e música, vai encontrar na capoeira uma grande expressão, um dos ícones da cultura popular brasileira, de raízes negras. Hoje, ela marca presença em espaços diferenciados como comunidades, ruas e academias. Mas, historicamente, a capoeira passou por muitas definições e práticas, assumindo vários papéis e associada a uma imagem negativa, racista. Essa visão começou a mudar no início do século 20, como nos conta o pesquisador Neves de Aquino, em artigo da revista Epígrafe. O texto investiga como nasceu o conceito de capoeira, “uma nova imagem sobre a capoeira para a sociedade brasileira entre os anos 1900 e 1930”.

O autor parte da pesquisa em crônicas, artigos e guias esportivos escritos por intelectuais da época. Os argumentos desses estudiosos procuraram honrar e louvar a capoeira, na tentativa de anular “a manifestação ou apagamento da herança negra”. Para isso, segundo o artigo, os cronistas brasileiros buscaram valorizar a capoeira como esporte, ensejando e estimulando debates sobre a relação dela com o “entendimento de nacionalidade do povo brasileiro”, isso no período pós-abolição da escravidão, “marcada por teorias de superioridade racial”. 

Se, em 1907, O Guia do Capoeira ou Ginástica Nacional se refere à capoeira como puramente voltada a questões corporais – sem levar em conta a questão “da herança cultural negra e da raça de seus praticantes, ignorando também sua musicalidade, seu caráter folclórico, suas tradições” -,  esse pensamento se transforma quando os estudiosos a apresentam como possível modalidade esportiva, “a ginástica nacional”.  Mas por que esportivizar?  Porque o esporte foi difundido no mundo inteiro, principalmente na Europa, com o prestígio de representar uma nação e exaltá-la perante outras.

No final do século 19 a capoeira era praticada pelos escravos, atividade reprimida pelas autoridades, consolidando a marginalidade associada a ela. Neves de Aquino faz referência a obras da época como O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e Os Sertões, de Euclides da Cunha, em que os personagens simbolizam a malandragem, com o negro associado à violência, exemplo de como eram vistos o caráter e as atividades negras e mestiças, tal como a capoeira. Assim, estabelece-se a “autossabotagem nacional” ativada pelo preconceito do brasileiro contra si próprio e, em contrapartida, exaltando o que vinha de fora do País.

Nesse cenário comparecem os intelectuais brasileiros que prestigiaram a capoeira “enquanto parte da nacionalidade brasileira, enquanto um esporte”, agregando “o interesse nacional de construir uma identidade brasileira com a valorização da capoeira perante a sociedade”. Chama-se a atenção para Anníbal Burlamaqui, apelidado de Zuma, escritor e político que resgatou “origem negra da capoeira”, divulgando-a, em seus livros, como um esporte nacional, uma prática afro-brasileira criada pelos negros escravizados no Brasil; mas, no entanto, contraditoriamente, sua defesa da “esportivização da capoeira” não mencionava os instrumentos musicais e canções típicos da capoeira. 

Zuma, assim como outros intelectuais, contribuiu para a introdução e a valorização da capoeira para a sociedade em geral, na medida em que é vista como a “ginástica nacional, o esporte nacional”. Neves de Aquino finaliza seu artigo relatando a influência dos cronistas do início do século 20, no sentido de apresentar a capoeira em seu valor como a representante de uma nova nacionalidade brasileira, calando as altas classes as quais tendiam a considerar a prática capoeirista como “arte dos marginalizados, a ser perseguida”. 

Artigo

AQUINO, P. G. N. de. O papel dos cronistas brasileiros na transformação da imagem da capoeira no início do século XX (1900-1930). Epígrafe, São Paulo, v. 10, n. 1, p. 331-359, 2021. ISSN: 2318-8855. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2318-8855.v10i1p331-359. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/epigrafe/article/view/173667. Acesso em: 23 jun. 2021.

Contato

Pedro Gabriel Neves de Aquino Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. 

revistaepigrafe@usp.br


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