Crise causada pela pandemia faz surgir novos grupos vulneráveis no mercado de trabalho

População negra é a mais desprotegida, mas surge também uma nova faixa vulnerável formada por homens e mulheres brancos em serviços não essenciais

Estudo realizado pela Rede de Pesquisa Solidária estimou quais grupos de empregos e trabalhadores são mais afetados pelo impacto econômico da pandemia – Imagem: Cecília Bastos/USP Imagens

A pandemia de covid-19 já vem causando grandes impactos econômicos. Porém, estes impactos atingem com intensidade maior ou menor grupos distintos, conforme a situação empregatícia e socioeconômica de cada um. A Rede de Pesquisa Solidária, formada por cientistas da USP e diversas outras instituições de pesquisa, emitiu uma Nota Técnica sobre os trabalhadores frente às mudanças causadas pela crise.

Conforme mostram os dados levantados, homens e mulheres negras são os que mais ocupam os setores dominados por vínculos empregatícios frágeis. As mulheres negras são o grupo mais vulnerável, uma vez que também estão mais presentes entre os setores considerados não essenciais, correndo um risco maior de perder o emprego ou a renda.

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Pandemia muda status econômico e cria novos grupos de vulneráveis

O cenário da pandemia também causou uma situação inédita, na qual foram classificadas como não essenciais algumas das atividades onde mais se concentram trabalhadores com ensino superior. Com isso, embora tradicionalmente ocupem cargos mais estáveis, parte dessas pessoas passou a ocupar espaços de maior vulnerabilidade na atual conjuntura. Esse conjunto foi chamado pelos pesquisadores de “novos vulneráveis”.

Segundo as estimativas do estudo, 83,5% dos trabalhadores encontram-se em posições vulneráveis, 36,6% destes porque possuem vínculos informais, e 45,9% porque, embora formais, foram drasticamente afetados pela dinâmica econômica. São estes últimos os “novos vulneráveis”, que se somam e duplicam o usual contingente de trabalhadores sob risco. Os indivíduos com vínculos mais estáveis, atuando em setores essenciais não afetados economicamente, somam apenas 13,8% da força de trabalho ocupada.

Empregos vulneráveis

A estratégia para identificar a vulnerabilidade do emprego utilizada baseia-se em dois critérios: a instabilidade do vínculo ou posição do trabalhador e o grau de fragilização dos setores econômicos por conta da pandemia. Os vínculos de trabalho foram classificados como de alta instabilidade, possuídos por trabalhadores informais; média instabilidade, que inclui empregados domésticos com carteira assinada, conta-própria formalizados e trabalhadores de pequenos estabelecimentos; e baixa instabilidade, onde se encaixam os empregadores e trabalhadores formais de empresas médias e grandes, funcionários públicos estatutários e militares.

Já a classificação setorial mantém a divisão estabelecida pelo governo federal entre “Serviços Essenciais” e “Serviços não Essenciais”, conforme a Medida Provisória nº 926/2020. A classificação foi refinada subdividindo os “Serviços Essenciais” em dois grupos: de um lado, aqueles que já experimentam perdas econômicas severas, de outro, aqueles que foram capazes de se blindar ou até melhorarem sua performance. Para identificar os setores economicamente afetados, foram considerados dados do Google Mobility Reports, que registra mobilidade nos estabelecimentos comerciais, as informações de faturamento dos Boletins Cielo e a ocorrência de demissões ou menor faturamento segundo declaração dos empregadores ao Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Recorte regional

Quanto às diferenças regionais, há pouca variação entre os Estados quanto à distribuição de empregos de setores essenciais ou não essenciais, conforme mostra o quadro abaixo. A elevada concentração diferencial de vínculos informais, em especial nas regiões Norte e Nordeste, é o que mais fragiliza esses mercados de trabalho – acirrando a vulnerabilidade mesmo nos setores essenciais com boa performance econômica. Ceará, Maranhão e Pará trazem as maiores proporções de trabalhadores na situação mais crítica: vínculos altamente instáveis em setores não essenciais. Santa Catarina, por contraste, se destaca com o menor porcentual nessa categoria.

Gráfico indica a vulnerabilidade de profissionais de diferentes setores em regiões brasileiras – Imagem: Rede de Pesquisa Solidária

E apesar das diferenças na estrutura produtiva, a composição dos grupos de vulnerabilidade também é semelhante nos Estados. A tabela abaixo apresenta os cinco ramos de atividade econômica representativos das categorias mais vulneráveis, e indica em quantas unidades da federação cada setor figura entre aqueles que mais empregam.

Trabalhadores domésticos são, de forma geral, o segmento mais afetado, seguidos por trabalhadores dos serviços pessoais de beleza. Já nos segmentos menos vulneráveis e pouco afetados economicamente, em todas as localidades, estão os funcionários de administrações públicas e também empregados em supermercados e hipermercados.

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Categorias mais vulneráveis – Imagem: Rede de Pesquisa Solidária

Os resultados mostram que há muito mais convergências do que divergências quanto aos segmentos mais afetados entre os Estados. Os cinco setores que mais empregam, dentro de cada grupo, quase sempre são os mesmos nas 27 unidades da federação. Os pesquisadores indicam que isso pode gerar estratégias semelhantes ou convergentes de redução dos efeitos da crise a partir da articulação entre Estados e políticas federais.

Análise por grupos sociais

Por fim, o estudo ainda observou como diferentes fatores sociais se relacionam com os impactos causados pela pandemia no mercado de trabalho. Quando se compara o nível educacional, por exemplo, percebe-se que trabalhadores costumam deixar os setores essenciais conforme atingem níveis superiores de educação, e também ocupam empregos mais estáveis. Enquanto isso, trabalhadores com baixa escolaridade, mesmo os que trabalham em setores pouco afetados pela nova dinâmica econômica, são expostos ao risco por possuírem vínculos de alta instabilidade.

Gráfico compara o nível educacional em cada região com a vulnerabilidade – Imagem: Rede de Pesquisa Solidária

Analisando as diferenças entre os grupos de sexo e raça, os resultados indicaram que enquanto homens e mulheres se distinguem principalmente pelo tipo de setor, brancos e negros se diferenciam pelo tipo de vínculo. A participação dos homens é maior nos setores considerados essenciais, ao passo que as mulheres estão nos considerados não essenciais, e por este motivo estão mais sujeitas à perda do emprego e da renda.

Na divisão racial, há uma semelhança muito grande na forma como pessoas brancas e negras se dividem nos setores. Porém, a população negra está mais concentrada nos grupos de vínculos menos estáveis, e consequentemente mais vulneráveis à crise.

Tabela apresenta grupos sociais e seus níveis de vulnerabilidade – Imagem: Rede de Pesquisa Solidária

Com o quadro acima, é possível perceber que homens e mulheres brancos estão sobre-representados nos grupos dos “novos vulneráveis”. São esses também, majoritariamente, os setores dominados por pessoas com Ensino Superior Completo e vínculos de baixa e média instabilidade. No entanto, compõem setores essenciais muito afetados ou mesmo não essenciais.

Sobre a Rede

A Rede de Pesquisa Solidária é uma iniciativa de pesquisadores para calibrar o foco e aperfeiçoar a qualidade das políticas públicas dos governos federal, estaduais e municipais que procuram atuar em meio à crise da covid-19 para salvar vidas. O alvo é melhorar o debate e o trabalho de gestores públicos, autoridades, congressistas, imprensa, comunidade acadêmica e empresários, todos preocupados com as ações concretas que têm impacto na vida da população. Trabalhando na intersecção das humanidades com as áreas de exatas e biológicas, trata-se de uma rede multidisciplinar e multi-institucional que está em contato com centros de excelência no exterior, como as Universidades de Oxford e Chicago.

A coordenação científica está com a professora Lorena Barberia (Ciência Política-USP). No comitê de coordenação estão: Glauco Arbix (Sociologia-USP e Observatório da Inovação), João Paulo Veiga (Ciência Política-USP), Rogério Barbosa (Centro de Estudos da Metrópole /USP), Graziela Castello (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – Cebrap), Fábio Senne (Nic.br) e José Eduardo Krieger (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP – INCT-Incor). O comitê de coordenação representa quatro instituições de apoio: o Cebrap, o Observatório da Inovação, o Nicbr e o Incor. A divulgação dos resultados das atividades será feita semanalmente através de um boletim, elaborado por Glauco Arbix, João Paulo Veiga e Lorena Barberia. São mais de 40 pesquisadores e várias instituições de apoio que sustentam as pesquisas voltadas para acompanhar, comparar e analisar as políticas públicas que o governo federal e os Estados tomam diante da crise.

Confira a Nota Técnica na íntegra, e ouça também a entrevista do professor Glauco Arbix ao Jornal da USP no Ar.

Com informações da Rede de Pesquisa Solidária

As outras notas estão disponíveis neste link.

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