Com tamanho estimado de um metro, a Boipeba é interessante por ser bem maior do que as serpentes da linhagem, que são pequenas e chegam a 30 centímetros. Com a descoberta, ela se torna o único registro fóssil de indivíduos do grupo Scolecophidia que data da era dos dinossauros. Arte sobre reconstrução de Boipeba tayasuensis de Jorge Blanco

Cobra-cega que viveu com os dinossauros preenche lacuna na evolução da espécie

Boipeba tayasuensis tinha cerca de um metro, viveu no Cretáceo, há 87,8 milhões de anos, e pertence à linhagem dos Scolecophidia, as populares cobras-cegas. A hipótese é que o tamanho reduzido nos dias de hoje seja resultado de um processo de milhões de anos de miniaturização

16/12/2020
Por Beatriz Azevedo

Pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, em parceria com as instituições australianas South Australian Museum e Flinders University, descobriram  uma nova espécie de serpente, que viveu no período Cretáceo há 87.8 milhões de anos. A Boipeba tayasuensis pertence à linhagem dos Scolecophidia, as populares cobras-cegas. Com tamanho estimado de um metro (m), a cobra é interessante por ser bem maior do que as serpentes da linhagem, que são pequenas e chegam a 30 centímetros.

Thiago Schineider Fachini - Foto: Lattes

Thiago Schineider Fachini – Foto: Lattes

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artigo Cretaceous Blind Snake from Brazil Fills Major Gap in Snake Evolution mostra as tendências evolutivas dos Scolecophidia. A hipótese é a de que o tamanho reduzido encontrado nos dias de hoje seja resultado de um processo de miniaturização, que aconteceu ao longo de milhões de anos. 

O fóssil foi encontrado na cidade de Taiaçu, no interior de São Paulo e coletado em rochas de Formação Adamantina, em que se preservaram apenas vestígios vertebrais. O estudo contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“As serpentes do grupo Scolecophidia são padronizadas como sendo umas das primeiras a surgir”, diz ao Jornal da USP Thiago Schineider Fachini, um dos pesquisadores envolvidos no trabalho. Até então, os registros fósseis do grupo datavam de 56 milhões de anos — do final do Paleoceno e início do Eoceno na Europa e África. Com a descoberta, a Boipeba se torna o único registro fóssil de indivíduos do grupo Scolecophidia que data da era dos dinossauros.

A: vértebra pré-cloacal em vista anterior, posterior e lateral respectivamente (linha superior) e em vista dorsal e ventral respectivamente (linha inferior). B. Mapa esquemático demonstrando a localização
geográfica do achado – Foto: iScience, doi: https://doi.org/10.1016/j.isci.2020.101834

O achado traz evidências de que a diversificação inicial da cobras-cegas pode ter ocorrido na América do Sul.

É uma descoberta importante porque estende o registro do grupo para o Cretáceo superior do Brasil preenchendo uma lacuna de espaço e tempo durante o Mesozóico, prevista pelas análises moleculares, mas que, anteriormente, careciam de evidências paleontológicas.”

Antes da descoberta, haviam estudos moleculares que mostravam que o Scholechphidia surgiu em torno de 120 milhões de anos, mas não havia nenhum registro fóssil que mostrasse isso. “Com o surgimento da boipeba, há um indivíduo concreto que está na idade estipulada, não exatamente, mas bem mais próximo”, diz Thiago. 

A metodologia

O processo de estudos sobre o fóssil durou quatro anos. Ao ser descoberto, eles estudaram o achado com base na literatura e comparação com outros animais viventes do grupo Scholechphidia, encontrados na Austrália. Além disso, o grupo realizou análises filogenéticas — estudo da relação evolutiva entre grupos de organismos — para  entender onde a boipeba se encaixaria.

A Boipeba tayasuensis possuía, em sua morfologia vertebral, as características típicas de outras cobras-cegas, principalmente com as serpentes da família Typhlopidae. Tais como vértebras fortemente achatadas e algumas outras características das estruturas de articulação das costelas com as vértebras.

 Exemplo de cobra-cega atual do grupo Scolecophidia. Espécie Anilios nigrescens – Foto: Dr. Mark Hutchinson (South Australia Museum)

Mais informações: e-mail thiagoschineiderf@usp.br, com Thiago Schineider


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