Cientistas encontram molécula na atmosfera de Vênus que pode indicar sinal de vida no planeta

Principal achado do estudo, que contou com equipe internacional, indicou grande quantidade de fosfina, composto que na Terra é produzido por organismos vivos

Encontrada na atmosfera de Vênus, fosfina é considerada uma bioassinatura porque na Terra é produzida por organismos vivos – Imagem: Wikimedia Commons

Uma descoberta relevante para as investigações sobre a existência de vida fora da Terra, e para a ciência como um todo, marcou esta segunda-feira (14). Pesquisa desenvolvida por cientistas do Reino Unido, Estados Unidos e Japão constatou a presença de um composto químico chamado fosfina na atmosfera de Vênus, o que pode indicar um sinal de vida no planeta. Os resultados foram publicados na revista científica Nature Astronomy

A fosfina (PH3) é uma molécula composta de um átomo de fósforo e três átomos de hidrogênio. Na Terra, ela pode ser produzida em laboratório e utilizada em fertilizantes e no controle de pragas, por exemplo. De maneira natural, o composto é produzido através da atividade biológica de bactérias anaeróbicas, ou seja, que não precisam de oxigênio livre. 

Roberto Dell’Aglio Dias da Costa é graduado em física e possui doutorado em Ciências (Astronomia) pela USP. Atualmente é professor Associado do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, e trabalha na área de Astronomia, com ênfase em Evolução Estelar – Foto: Reprodução / Lattes

Em entrevista ao Jornal da USP, o professor Roberto Dell’Aglio Dias da Costa, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, explica que o grande achado do estudo foi a alta quantidade de fosfina encontrada na atmosfera de Vênus, que não consegue ser explicada por processos naturais não biológicos. “A fosfina pode ser produzida residualmente por descargas atmosféricas, relâmpagos e vulcões, mas em quantidades muito pequenas. Segundo os autores do estudo há duas possibilidades: ou existem outros processos naturais não biológicos de produção dessa molécula que nós não conhecemos, ou esse é um indicador de atividade biológica.”

A fosfina é considerada uma bioassinatura justamente porque na Terra ela é produzida por organismos vivos, as bactérias anaeróbicas. Fábio Rodrigues, professor doutor do Departamento de Química Fundamental do Instituto de Química (IQ) da USP, explica que bioassinaturas são o que o nome indica: assinaturas de presença de vida. “A busca remota por vida microbiana é sempre feita de forma indireta. Isso significa que vamos ‘ver’ somente os rastros que um microrganismo deixa, como por exemplo sinais do metabolismo. E é exatamente isso que os autores do estudo propõem: que a fosfina possa ser uma dessas bioassinaturas em Vênus”, detalha. 

A presença do composto foi comprovada por meio de dados de dois telescópios diferentes: o Telescópio James Clerk Maxwell (JCMT), no Havaí, e o Telescópio Alma, no Chile, operado pelo Observatório Europeu Austral (ESO). 

Fabio Rodrigues também é pesquisador associado do Núcleo de Pesquisa em Astrobiologia (NAP/Astrobio) da USP. Tem experiência na área de Química, em temas como técnicas espectroscópicas, além de biogeoquímica, astrobiología, bioassinaturas espectroscópicas, interação química microorganismo – Foto: Reprodução / Lattes

A descoberta só foi possível graças a uma técnica chamada radioastronomia, em que os telescópios trabalham recebendo não luz, mas radiação na faixa de ondas de rádio. As moléculas e átomos absorvem luz em comprimentos de onda muito específicos. Quando a atmosfera de Vênus foi estudada, os cientistas viram a luz do Sol refletida em alguns comprimentos de onda bem específicos que foram absorvidos por moléculas e átomos, neste caso, moléculas de fosfina, presentes na atmosfera. De acordo com Rodrigues, “trata-se de uma técnica bastante importante e muito usada para estudar a presença de diversos compostos químicos fora da Terra”. 

A presença da fosfina foi detectada apenas na atmosfera, e não no solo de Vênus. “A superfície deste planeta é um lugar absolutamente hostil, com temperaturas em torno de 460 graus Celsius e um efeito estufa planetário. Em Vênus, não há diferença de temperatura entre dia e noite, equador e polo, inverno e verão. É sempre a mesma temperatura. Mas na alta atmosfera, entre 50 e 60 km acima do solo, a temperatura é da ordem de dezenas de graus, ambiente onde a fosfina consegue sobreviver”, explica Dias da Costa. 

Cautela

O professor do IAG ressalta que essa descoberta não é uma detecção direta de vida e sim uma detecção direta de uma bioassinatura. “A ciência sempre progride de forma cautelosa. É preciso ver se não existem agora outros mecanismos que produzam essa molécula de maneira abiótica (sem envolver vida). Só a divulgação desse dado hoje já é extremamente importante porque nunca tinha sido descoberta uma bioassinatura do tipo fora da Terra.” 

Telescópio James Clerk Maxwell (JCMT), no Havaí – Foto: Wikimedia Commons

Agora, as investigações dos cientistas precisam se voltar para as seguintes perguntas: de onde a fosfina na atmosfera de Vênus está vindo? Qual é o mecanismo de produção dessa molécula? É um mecanismo relacionado a organismos vivos ou não? “É um problema multidisciplinar que envolve áreas como física, geologia e química da atmosfera de um planeta. Isso deve ser entendido com bastante precisão para que seja possível explicar o que está acontecendo na atmosfera de Vênus”, finaliza Dias da Costa. 

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