Cientistas apontam possíveis causas do maior risco de diabete e obesidade em trabalhador noturno

Mudanças no padrão de sono geradas pelo trabalho noturno induzem a alterações no ciclo circadiano (ritmo biológico), levando ao estresse de organela das células humanas, sugere estudo

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O estudo contou com 20 trabalhadores diurnos e 20 trabalhadores noturnos, submetidos a uma jornada de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso há, pelo menos, cinco anos em um hospital de Ribeirão Preto – Foto: Marcelo Seabra / Ag. Pará – Fotos Públicas

 

A necessidade do funcionamento de serviços por 24 horas exige que muitos trabalhadores desempenhem sua função no período noturno, como é o caso dos profissionais de saúde, como enfermeiros, biomédicos, motoristas e socorristas. Estudo de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP mostra que virar a noite trabalhando provoca o desalinhamento do ciclo circadiano, o ritmo biológico dos seres humanos, e impacta negativamente o metabolismo, aumentando o risco de desenvolver obesidade e diabete, por exemplo.

O estudo contou com 20 trabalhadores diurnos e 20 trabalhadores noturnos, submetidos a uma jornada de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso há pelo menos cinco anos em um hospital de Ribeirão Preto. “Verificamos uma alteração dos genes relacionados ao estresse do retículo endoplasmático, uma organela muito importante nas células, induzido pela alteração no padrão de sono dos trabalhadores”, conta Rafael Ferraz Bannitz, cientista biomédico da FMRP e primeiro autor do artigo Circadian Misalignment Induced by Chronic Night Shift Work Promotes Endoplasmic Reticulum Stress Activation Impacting Directly on Human Metabolism.

Rafael Ferraz Bannitz, cientista biomédico da FMRP – Foto: Arquivo pessoal

Segundo Bannitz, estudos apontam que a ativação do estresse do retículo endoplasmático possui um grande impacto em doenças relacionadas com a síndrome metabólica, como a obesidade e a diabete. Ou seja, quando há um excesso de proteínas no retículo endoplasmático das células, ocorre uma sobrecarga da sua capacidade de funcionamento, ocasionando alterações na homeostase (equilíbrio fisiológico) dessa organela e gerando assim o estresse no retículo.

Os resultados do estudo de Bannitz sugerem ainda que o trabalho noturno pode alterar a resposta fisiológica ao estresse oxidativo. “Nós também observamos a diminuição da expressão gênica de NRF2, um importante regulador do estresse oxidativo nas células presentes do sangue dos trabalhadores noturnos.”

Isso significa, diz o pesquisador, que virar a noite no trabalho pode modificar as reações fisiológicas responsáveis pela proteção contra agentes oxidantes, provocando assim efeitos danosos ao corpo humano, como por exemplo o envelhecimento precoce.

Professora Maria Cristina Foss-Freitas, coordenadora do estudo – Foto: Arquivo pessoal

Além disso, os resultados apontaram um aumento dos níveis de glicose, triglicerídeos, circunferência da cintura e pressão arterial nos trabalhadores hospitalares noturnos quando comparados aos diurnos.

“Nossos achados agregam informações importantes para a compreensão dos efeitos negativos do trabalho noturno e abrem uma nova perspectiva para políticas estratégicas a fim de reduzir o estresse e minimizar os problemas metabólicos decorrentes do trabalho noturno.”

O estudo foi coordenado pela professora Maria Cristina Foss-Freitas e conta com coautoria dos docentes Ayrton C. Moreira e Margaret Castro e das pesquisadoras Rebeca A. Beraldo e Priscila Oliveira Coelho, todos da FMRP. O trabalho foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do Hospital das Clínicas da FMRP (Faepa).

Mais informações: e-mail rafael_ferraz@live.com, com Rafael Ferraz Bannitz

Ouça no player abaixo entrevista do pesquisador Rafael Ferraz Bannitz ao Jornal da USP no Ar, Edição Regional.


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