Tratados musicais ajudam a entender as composições do século 16

Estudo da Escola de Comunicações e Artes analisa textos históricos que mostram que a música vai muito além da partitura

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A partitura não contém todas as questões, algumas são de emoções, intenções, etc. Por meio dos tratados é possível escutar o que  o compositor tinha em consideração – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Dizia Frank Zappa que “escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura”. Mas é provável que muitas pessoas do século 16 não estivessem de acordo com essa opinião. Nessa época era comum que músicos e diletantes registrassem no papel elementos retóricos, poéticos e científicos associados às composições musicais. A investigação desses tratados musicais deu origem à tese de doutorado do músico e pesquisador Delphim Rezende Porto Junior, defendida na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP sob orientação dos professores Mônica Isabel Lucas e Giuseppe Gerbino.

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Tratados musicais trazem informações para além das músicas do século 16

“Nessas peças você consegue perceber o alto conhecimento dos músicos. Porque eles transitavam nas cortes e tinham uma cultura geral bastante interessante”, afirma Rezende.

Ele explica que a prática de escrever sobre música se perdeu a partir do século 19 e que, até recentemente, o próprio estudo desses textos não era valorizado. Muitos estudiosos consideravam que tudo o que era relevante para a música estava incluído na partitura, uma ideia que trabalhos como o de Rezende contestam.

“Através dos tratados você pode escutar o que é que o compositor tinha em consideração, o que você não pode fazer só com a partitura. A partitura não contém todas as questões, algumas são de emoções, intenções, etc.”, explica Rezende.

Durante a sua investigação, Rezende traduziu para o português muitos textos escritos em vernáculo, língua precursora do atual idioma italiano. Alguns desses textos são raras joias, como um tratado de Dom João IV, no qual o então rei de Portugal defende a polifonia sacra de Giovanni Pierluigi da Palestrina, um compositor do século 16.

“Esse texto foi publicado em italiano. Então é um texto escrito por um português, traduzido ao italiano, sobre um texto italiano”, explica Rezende.

O músico perfeito

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Uma ideia que permeia muitos dos tratados do século 16 é o conceito do “perfetto musico”. Ou seja, a reflexão sobre quais caraterísticas levam um músico a alcançar a perfeição na sua arte.

“O músico perfeito não é só aquele que toca bem”, explica Rezende. “É aquele que transita bem em todos os outros conhecimentos. Que sabe dos instrumentos, mas também sabe da literatura, sabe de astronomia… Porque o conceito de música era muito mais amplo do que aquele só do exercício da performance.”

Essa visão mais abrangente da música é uma das coisas que Rezende quer resgatar com o seu trabalho. Segundo ele, o conhecimento dos tratados pode ajudar tanto a ouvintes como intérpretes. Ele mesmo aproveita as lições dos tratados quando interpreta composições da época em algum dos instrumentos de teclado antigos que ele toca, como o órgão, o cravo e o clavicórdio.

“Conhecer essa literatura faz com que a minha performance seja beneficiada”, diz Rezende.

Ouça neste link a entrevista que o pesquisador Delphim Rezende Porto Junior concedeu ao Jornal da USP no Ar, programa veiculado na Rádio USP. Com alguns exemplos práticos, entre eles Jesus, Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach, é possível perceber a influência dos tratados musicais na execução das peças e que, de fato, a música vai muito além da partitura.

Mais informações: e-mail delphim@usp.brcom Delphim Rezende Porto Junior

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