Tolerância e políticas afirmativas são chave para enfrentamento do racismo no Brasil, sugere estudo

Pesquisa da Faculdade de Educação (FE) da USP analisa o envolvimento de professores brancos com a educação das relações étnico-raciais

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Foto: Cecília Bastos
Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O pequeno aumento da porcentagem dos que se autodeclaram negros, registrado pelo IBGE em 2014, pode sinalizar um futuro de melhor convivência entre essa parcela da população e os que se autointitulam brancos. Mas não chega a ser, por si só, animador, num país em que a população negra ainda sofre com a violência, salários menores e crimes racistas.

Entendendo o ambiente escolar como cenário propício para investigar essa ainda conturbada relação, Janaina Ribeiro Bueno Bastos o escolheu como espaço de pesquisa, tratando especialmente do envolvimento de professores brancos com a educação das relações étnico-raciais.

Na dissertação Da história, das subjetividades, dos negros com quem ando, apresentada na Faculdade de Educação (FE) da USP, Janaina coloca mais uma vez em xeque o mito da democracia racial no Brasil, enquanto reflete sobre a dificuldade dos indivíduos brancos de se identificarem com o enfrentamento de um problema do qual não são vítimas.

Dentre as conclusões do trabalho, está a noção de que a tolerância seria uma das chaves para solucionar os embates que permeiam a identidade nacional dos brasileiros. “Tolerância no sentido de aceitação, de reconhecimento. Eu aceito a história, reconheço os fatos, a realidade, e a partir daí posso decidir a mudança”, salienta a especialista.

O apoio a políticas afirmativas também seria fundamental para tratar a questão. São elas que, para Janaina, possuem o potencial de promover a convivência entre brancos e negros nos espaços de poder, além de fornecer referências públicas positivas sobre a identidade negra, o que tende a desconstruir estereótipos e fortalecer a autoestima e a imagem dessa população, gerando oportunidades e quebrando barreiras.

Por meio da convivência nos espaços de poder é que seria possível modificar a estrutura de desigualdade, “fragmentando as idéias da existência de pessoas inferiores ou superiores”, diz.

Marcas da branquitude

Por conta do processo histórico que marcou a gênese da própria identidade branca e do legado de seu privilégio simbólico, a autora identificou as chamadas “marcas da branquitude” nas observações e entrevistas que realizou. Pequenas frases e palavras indicavam  “uma forma de consciência estruturada a partir do privilégio branco, que toma sua identidade como norma, que conduz o branco a ver sua identidade como algo natural, acerca da qual não haveria razões para reflexão – e não como uma construção”, explica ela.

O ideal de branqueamento e o mito da democracia racial estão arraigados nas relações brasileiras, na medida em que projetam o ideal de brancura e negam a existência de desigualdades.

A própria pesquisadora, que se identifica como branca, revela que parte de sua motivação para investigar o tema vem da esfera pessoal já que, de família humilde, conviveu desde criança com vizinhos e amigos de infância em sua maioria negros. Como professora, se viu trabalhando com grupos de professores majoritariamente brancos que pareciam não perceber a existência do racismo. “Quando comecei a estudar a temática étnico-racial, passei a compreender de que maneira o ideal de branqueamento e o mito da democracia racial estão arraigados nas relações brasileiras, na medida em que projetam o ideal de brancura e negam a existência de desigualdades”, conta ela.

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Em novembro de 2015, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2014, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou que 53% dos brasileiros se declararam pardos ou negros no ano anterior. Diante de 45,5% que se disseram brancos, a população negra crescente não tem relação, para especialistas do IBGE, com um possível aumento da taxa de natalidade, mas sim, com o crescimento da “autodeclaração”

De acordo com ela, o discurso do mito da democracia racial carrega “uma regra de silêncio” em torno dessa realidade, dificultando a discussão sobre o problema no país. “E as escolas brasileiras, erigidas nesse sistema, terminam por reproduzir as relações permeadas pelo silêncio, o racismo e os discursos racistas que demarcam a história do país, muitas vezes sem questionamento”, pontua. Na dissertação, é explicitado que é o mito da democracia racial que naturaliza as desigualdades no país, apregoa a inexistência do problema e dificulta o diálogo, amortizando a discussão da questão por grande parte da sociedade brasileira.

As escolas brasileiras terminam por reproduzir as relações permeadas pelo silêncio, o racismo e os discursos racistas que demarcam a história do país.

Para esclarecer o aparente paradoxo de existirem professores brancos que, como ela, estão envolvidos com a educação das relações étnico-raciais, a dissertação recorreu aos estudos do filósofo Theodor W. Adorno sobre a relação existente entre as forças internas da personalidade e a adesão às ideologias.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O trabalho de campo foi estruturado a partir de uma abordagem qualitativa, que envolveu observação e aplicação de entrevistas e questionários aos professores brancos sujeitos da pesquisa. A observação assistemática, esclareceu ela, é caracterizada pela espontaneidade e informalidade, na qual o pesquisador não utiliza planejamento e controle.

“Participei de um curso sobre a temática étnico-racial, majoritariamente composto por negros, e comecei a notar o envolvimento e as falas dos poucos professores brancos que estavam ali, o que me fez perceber, a princípio, seu comprometimento”, exemplificou. “Porém, se tivesse optado por fazer uma observação mais formal em outros contextos, talvez corresse o risco de impulsionar os sujeitos a emitirem discursos vazios e politicamente corretos”, conta Janaina. As estratégias, conforme a professora, foram úteis porque possibilitaram a obtenção de dados mais fidedignos à realidade.

Estranhamento

No decorrer da pesquisa, a professora enfrentou o que chamou de “estranhamento”, tanto da parte dos professores brancos, ao notarem a colega também branca como uma estudante das relações étnico-raciais, tanto do grupo negro, que estão acostumados a ver a grande militância contra o problema ser encabeçada dentro da sua esfera. “Muitos brancos não entendem qual o sentido de uma pessoa branca se envolver nessa causa – porque a maioria dos brancos não vê o racismo como algo que modela suas vidas, justamente por o vivenciarem na face do privilégio”, elucida Janaina. O estranhamento da ambos os grupos impulsionou a investigação, revela ela.

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Dentre os resultados obtidos pelas entrevistas e a análise das falas, a pesquisadora notou que os professores brancos participantes eram sujeitos de personalidades liberais, formadas a partir de meios familiares não autoritários, cujas estruturas de poder foram marcadas pela aplicação de um método disciplinar tolerante, pautado no afeto, no diálogo e na compreensão, e pela convivência com pessoas negras. Ainda assim, “todos demonstraram surpresa aos serem questionados sobre o que é ser branco, e acabaram associando o ser branco às características fenotípicas da pele clara, ao reconhecimento de privilégios, e a contraposição à identidade negra”, revela.

Frases como “Nisso eu nunca pensei!” ou “Ser branco é ter livre acesso”, ou “É não ser barrado”, carregavam para a especialista as marcas da branquitude, pois “a branquitude induz a ausência de reflexão sobre a identidade branca supostamente naturalizada”, explica. “A medida em que o sujeito reconhece que o ser branco é o não ser barrado, é porque existe alguém que é barrado, e esse alguém é o negro”, diz Janaina.

A medida em que o sujeito reconhece que o ser branco é o não ser barrado, é porque existe alguém que é barrado, e esse alguém é o negro.

O fato de serem sujeitos tolerantes e terem convivido afetivamente com negros abriu caminho para que esses professores se identificassem com essa população e fizessem com que a mesma continuasse a integrar os laços sociais constituídos na vida adulta, o que possibilitou o acionamento das predisposições de suas personalidades liberais contra o racismo, e a produção de rupturas com a consciência inerte da branquitude, na medida em que foram afetados pela experiência das pessoas negras com quem convivem, ao ponto de se envolverem com a educação das relações étnico-raciais.

 

A dissertação de mestrado Da história, das subjetividades, dos negros com quem ando foi orientada pela professora Maria Cecilia Cortez Christiano de Souza, do Departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação da Faculdade de Educação (FE) da USP. A pesquisa pode ser acessada na íntegra neste link.

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