Populações tradicionais praticam jogos inclusivos e representativos

Linha de pesquisa estuda jogos praticados por quilombolas, ribeirinhos, caiçaras e sertanejos, entre outras comunidades

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Foto: II Seminário Internacional de Jogos Tradicionais e Lazer
Jogos tradicionais não são necessariamente categorizados por faixas etárias ou tipo físico e, de certa forma, acolhem as diferenças – Foto: Divulgação / Seminário Internacional de Jogos Tradicionais e Lazer

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Para muitos, a pipa, a peteca e o pião ficaram perdidos nas memórias da infância, mas para algumas populações esses e outros jogos continuam vivos no dia a dia da comunidade. Isso porque esses elementos não são meros objetos de lazer – eles carregam em si valores ímpares para cada população tradicional que os adota.

Na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, as professoras Soraia Chung Saura e Ana Cristina Zimmermann coordenam uma linha de pesquisa que estuda as relações entre comunidades tradicionais e esses jogos, que são reconhecidos como patrimônios culturais imateriais pela Unesco.

“A ideia da pesquisa é pensar o universo dessas práticas corporais não como manifestações isoladas, como se fossem apenas um jogo ou uma dança, mas como manifestações que estão inseridas dentro de um contexto, de um universo cultural bastante complexo e dialógico”, explica Ana Cristina.

A principal característica dos jogos tradicionais é que eles não estão dissociados do todo, o que torna quase impossível estudar um aspecto sem considerar o outro. “Quando falamos sobre jogos tradicionais, falamos sobretudo dos modos de vida dessas populações, para as quais o jogo não é somente uma competição, mas sim parte constitutiva do seu jeito de viver, paradigmáticos em diversos aspectos para os dias atuais”, afirma Soraia.

Assim, à medida em que uma comunidade tradicional é valorizada, os jogos tradicionais são preservados. Da mesma forma, quando ela é ameaçada, eles podem ser extintos. Para evitar isso, a identidade de cada povo deve ser respeitada e reconhecida, para que suas tradições se perpetuem, afinal, o jogo só existe enquanto é jogado.

Um jeito único de viver

No Brasil, os povos tradicionais abrangem cerca de 5 milhões de pessoas e ocupam um quarto do território nacional, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Entre os principais representantes desses povos estão as populações quilombolas, ribeirinhas, caiçaras, sertanejas, pantaneiras, caatingueiras, entre outras.

Por estarem à margem da sociedade urbana, essas populações compartilham características como o uso da natureza como fonte de conhecimento e de renda, a produção em escala familiar, que gera baixo impacto sobre o meio ambiente e pouco acúmulo de capital, e a reprodução de uma educação fundamentada na experiência do mais velho, na qual o conhecimento é passado de geração em geração.
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Foto: II Seminário Internacional de Jogos Tradicionais e Lazer
Jogos permitem que a pessoa descubra novas facetas de si mesma – Foto: Divulgação / Seminário Internacional de Jogos Tradicionais e Lazer

Nos jogos tradicionais, o aprendizado é feito dessa forma. As tradições e instruções são passadas para os mais novos e são praticadas por toda a comunidade. Ao contrário dos esportes de alto rendimento que estamos acostumados a acompanhar, os jogos tradicionais não são necessariamente categorizados por faixas etárias ou tipo físico e, de certa forma, acolhem as diferenças.

Mesmo que o caráter lúdico das atividades físicas esteja ligado à infância, essas populações sabem valorizar a importância dos jogos para o bem-estar humano. “Os jogos são sempre importantes ao longo da vida de uma pessoa, porque ela sempre pode descobrir novas facetas de si mesma. E isso pode acontecer em qualquer idade, desde que a atividade converse com ela, com os seus desejos e com seu potencial”, diz Soraia. E completa: “Ao se movimentar, você constrói novas possibilidades e subjetividades. É uma forma de autoconhecimento, expressão e diálogo”.

Além de serem inclusivos, os jogos também exploram as qualidades de cada jogador. Enquanto na nossa sociedade as imperfeições são reforçadas, nas comunidades tradicionais os jogos são adaptados para aprimorar o que elas fazem de melhor.

“O grande aprendizado dos jogos tradicionais e das manifestações populares vem do fato de trabalharem sempre com a potência da pessoa. É um processo de autoconhecimento, que leva a questionar ‘quem eu sou?’. Isso vai sempre em direção daquilo que você faz melhor no contexto comunitário”, completa Soraia.

Universalidade

Por expressarem a cultura do povo que os pratica, os jogos não se restringem apenas ao uso da bola para suas práticas. As manifestações populares tradicionais estudadas pela linha de pesquisa da EEFE abrangem danças, músicas, brincadeiras e outros elementos das culturas populares.

Essas manifestações estão imbuídas de valores oníricos, muitas vezes ligados à natureza, que se adequam à realidade de cada comunidade e são encontradas em todo o mundo.

Foto: II Seminário Internacional de Jogos Tradicionais e Lazer
Alguns elementos estão presentes nas mais diversas populações, sendo utilizados de formas diferentes em cada uma delas – Foto: Seminário Internacional de Jogos Tradicionais e Lazer

“Alguns jogos estão presentes na história dos povos desde o início dos tempos e, ao mesmo tempo que cada jogo respeita as especificidades de cada grupo, há também uma universalidade em alguns símbolos”, diz Soraia. O boi, o tambor e a pipa são exemplos de elementos que estão presentes nas mais diversas populações, sendo utilizados de formas diferentes em cada uma delas. Estes símbolos materializam a representação da guerra, colheita, fartura, conquista, superação, entre outras situações, por exemplo.

Apesar de todas essas particularidades, os jogos tradicionais compartilham algumas semelhanças com os esportes de alto rendimento. “Há uma variedade muito grande de jogos tradicionais e o mais interessante é que a competição está presente em muitos deles”, diz Soraia. “É importante competir e ganhar, mas existem outros elementos em destaque, como, por exemplo, os modos de jogar, a diversidade de regras, a transmissão de valores caros àquela comunidade”, explica.

Além disso, a professora identifica que os valores olímpicos são caraterísticos das populações tradicionais, pois são alicerçados em valores humanos, em questões éticas ligadas à honestidade, excelência, respeito, amizade, coragem e inspiração.

“É importante destacar que os esportes olímpicos, de alto rendimento, não são uma evolução dos jogos tradicionais, como se estes fossem primitivos. Não há uma hierarquia de uns em relação aos outros. Eles dialogam entre si e com seus praticantes”, ressalta Ana Cristina.

Mais informações: e-mail ana.zimmermann@usp.br, com Ana Cristina Zimmermann; ou soraiacs@usp.br, com Soraia Chung Saura

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