Pesquisa explora sentidos e significados da propriedade para comunidade indígena Guarani

Geógrafa investiga as contradições entre o conceito capitalista de propriedade privada da terra e a noção de apropriação indígena concebida pelos Guarani

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Pátio do Colégio – Foto: Paulo Pinto/Fotos públicas

Presentes no território brasileiro desde muito antes de Cabral colocar suas caravelas no mar, os Guarani, uma das mais representativas etnias indígenas das Américas, sempre possuíram conceitos próprios sobre a natureza da propriedade e a importância da terra.

Em tese de doutorado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a geógrafa Camila Salles de Faria investigou, nos dias de hoje, as contradições entre o conceito capitalista de propriedade privada da terra e a noção de apropriação indígena concebida pelos Guarani.

Posicionando seu conflito conceitual na cidade de São Paulo, Camila foi a campo para acompanhar os resultados de uma série de movimentos que garantiram visibilidade para a comunidade local dos Guarani. Da ocupação do Pátio do Colégio, no centro da cidade, em abril de 2014, até o fechamento da Rodovia dos Bandeirantes e diversos atos nas ruas da capital, os Guarani têm se organizado politicamente para exigir direitos e garantir conquistas.

O resultado da campanha pela demarcação das terras no município de São Paulo deu grande visibilidade para a discussão sobre direitos territoriais dos povos indígenas e abriu espaço para regiões como a TI Jaraguá. Em maio de 2015, o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, assinou a Portaria Declaratória N° 581 que declarou 532 hectares no Jaraguá, território tradicionalmente ocupado pelo povo Guarani, como Terra Indígena (TI).

Indo além de questionários

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Aldeia Guarani da Barragem em 1988 – Foto: Arquivo CTI

Para Camila, o envolvimento com o processo de luta pela terra dos povos indígenas não é algo recente. Já no mestrado, em 2005, “iniciei essa discussão sobre a luta pela terra dos Guarani, principalmente na TI Jaraguá em São Paulo”, relembra ela. “Esse processo foi se consolidando quando, em 2010, participei do Grupo Técnico de Delimitação e Identificação da Terra Indígena Krenak, em Resplendor (MG) pela Funai”. O trabalho a levou para o GT Guarani de Delimitação e Identificação das Terras Indígenas Massiambu e Cambirela, em Santa Catarina, e posteriormente outros tantos, que culminaram na elaboração da tese.

No Jaraguá, Camila começou a atuar a partir de uma solicitação da própria Funai, passando a frequentar reuniões dos grupos indígenas e colher os primeiros depoimentos que dariam base para o doutorado.

Participando de viagens pelo interior e para fora do Estado, a pesquisadora admite ter se desvencilhado do rigor dos questionários acadêmicos para melhor apreender os sentidos por trás do pensamento e da luta indígena. “Não foi uma coisa muito focada, tanto é que algumas entrevistas eu coletei no caminho. Não teve uma regularidade e não teve uma programação”, revela.

“Se você vai com uma coisa fechada, você só está aberto para aquilo que está dentro das suas questões. Tudo depende da relação que você cria”, explicita a geógrafa. Para ela, a flexibilidade permitiu que o que começou como uma pesquisa, virasse, de fato, uma contribuição para aquela comunidade, que enxergava nela alguém além de uma observadora interessada.

Para ela, a experiência possibilitou também uma mudança em sua percepção sobre a importância de se estabelecer um conflito conceitual entre as diferentes lógicas de ocupação da terra, a capitalista moderna e a indígena guarani.

“A importância é entender a coexistência dessas lógicas tão distintas que se territorializam”, elabora Camila. “Perceber que não se trata da homogeneização da lógica capitalista na metrópole paulistana, mas compreender que esta se desenvolve permitindo ocupações com lógicas e conteúdos diferentes que se articulam e, ao se constituir enquanto propriedade privada capitalista da terra, utiliza-se muitas vezes da apropriação privada das terras ou ainda pela ‘tomada’ das terras indígenas”, problematiza.

Novos modos de ver o mundo

Sobre como as demarcações de terras indígenas e a aquisição de terras decorrentes das compensações pelos impactos das obras de infraestrutura atingem os Guarani, a pesquisadora defende que “essas formas se tornaram imprescindíveis estratégias de resistência Guarani, pelas quais se faz possível sua permanência e a realização dos seus modo de ser/viver Guarani – nhandereko – nessas terras”.

Além disso, por meio de seu contato diário durante o trabalho e as entrevistas, Camila pôde compreender que, para os indígenas, a terra é algo sagrado, de apropriação comunitária, e tem como seu único dono Nhanderu (divindade), quem a criou.

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Aldeias Guarani da Barragem em 1988 – Foto: Arquivo CTI

Na rotina com os Guarani, a especialista acredita ter começado a entender melhor como, apesar de estarem inseridos no contexto social e cultural contemporâneo, suas bases de pensamento se diferenciam do entorno. “Por exemplo, eu estava numa reunião com eles, todo mundo estava dormindo, em São Miguel das Missões, em lonas”, narra ela. “Aí choveu e arrancou a lona inteira. A primeira coisa que nós [técnicos e pesquisadores] fizemos foi correr para desligar os equipamentos, enquanto eles começaram a rezar, porque a chuva iria parar se eles rezassem.”

Foi aliando a proximidade com os Guarani do repertório acadêmico que a pesquisadora pôde concluir que, desde a conquista europeia do continente até os dias de hoje, em uma cidade como São Paulo, os Guarani resistem e lutam para permanecer e retomar suas terras, no que chamou de um processo de “expropriação, resistência e retomada”. “A tríade é o caminho de exposição da análise geográfica do processo de luta pela terra dos Guarani em São Paulo, que se apoia em uma vertente teórico-metodológica baseada no pensamento de Karl Marx e Henri Lefebvre”, esclarece ela.

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Manifestação na Rodovia dos Bandeirantes em 2013 – Acervo Comissão Guarani Yvyrupa

“Minha formação de geógrafa – diferente dos antropólogos – era apenas leitura, mas a partir do momento em que eu tive essa vivência no cenário, passei a entender o processo”, conclui Camila.

A tese A luta Guarani pela terra na metrópole paulistana: contradições entre a propriedade privada capitalista e a apropriação indígena foi orientada pelo professor Ariovaldo Umbelino de Oliveira, do Departamento de Geografia da FFLCH, e pode ser acessada neste link.

Mais informações: email camsalles@gmail.com, com Camila Salles

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