Patrícia Galvão, a Pagu: pioneirismo em política, feminismo e poesia

Artigo da “Revista Comunicação & Educação” resgata a produção híbrida de poemas-desenhos da ‘musa do Modernismo’

A escritora e jornalista Patrícia Galvão, mais conhecida como Pagu, na década de 1930 – Foto: Autor desconhecido / Domínio Público via Wikimedia Commons

Quem já ouviu falar de Pagu? A cantora Rita Lee criou uma música em homenagem a ela e à mulher brasileira. Pagu é o apelido da poeta Patrícia Galvão, escritora, desenhista, tradutora, feminista e militante política, conhecida como a “musa do Modernismo”, movimento que revolucionou a arte brasileira em seus diversos aspectos, tendo como auge a “Semana de 1922”, em que vários conceitos artísticos expressavam a contestação dos dogmas culturais, sociais e políticos da época. O artigo da revista Comunicação & Educação tem como objetivo mostrar “a produção híbrida de poemas-desenhos (Álbum de Pagu) e seu poema mais célebre, Natureza morta, publicado sob o pseudônimo de Solange Sohl, em 1948″.

O autor do artigo cita o texto de apresentação do poeta Augusto de Campos, para a reedição da obra de Patrícia Galvão, enfatizando a presença literária marcante da artista na época em que, apesar de muitas mulheres realizarem importantes conquistas no campo literário, no início do século 20, algumas “intelectuais de primeira linha, tiveram, lamentavelmente, suas carreiras ofuscadas pela condição feminina de então”. Foi o próprio poeta e tradutor brasileiro o responsável pela divulgação da obra e vida de Pagu no final da década de 1970, cujo objetivo era: “remitificar Pagu” e, ao mesmo tempo, desmistificá-la, “enfatizar não a face superficial de sua atividade, mas a densidade maior de sua aventura intelectual”.

Augusto de Campos propôs “definir os rumos e o lugar de Pagu nas letras nacionais”, recuperar a imagem de uma rebelde na vida e nas artes, segundo Rebechi Junior, que aponta Patrícia Galvão como uma personalidade rara, “dentre as poucas a tomarem uma posição de inconformismo que, a partir de 1922, incandesceu o nosso provinciano ambiente cultural”. A Revista de Antropofagia, naquele momento, delineava um novo caminho para a segunda fase do Modernismo, da qual Pagu participou: “Patrícia foi dos poucos remanescentes do modernismo que permaneceram fiéis aos ideais revolucionários do movimento no tocante à renovação da linguagem artística, quando a maioria ou se academizou ou se arrependeu”.

 

Croquis IV e V15 – GALVÃO, Patrícia. Pagú nascimento vida paixão e morte. Código, Salvador, n. 2, 1975, p. 26. (Reprodução)

 

No poema Meu quintal é uma cidade!, na obra Álbum de Pagu, Augusto de Campos observa um “gosto de invenção e de liberdade”. Autobiografia ilustrada por 28 croquis, a obra revela a artista como “uma representante autêntica dessa fração de modernistas antropofágicos”. Aqui se destaca “uma inovadora abordagem sobre a sexualidade e sobre a liberdade do corpo feminino, muito à frente do seu tempo”. Sob o pseudônimo de Solange Sohl, Pagu publica seu poema mais conhecido, Natureza morta, mostrando a “intensidade de poesia maldita”, angústias e amarguras e “uma incontornável dissolução daquilo que pode parecer absoluto”, como diz o poema: “[…] “Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas. Estou dependurada na parede […] Puseram um prego em meu coração […] Espetaram, hein? a ave na parede […] Mas conservaram os meus olhos”.

Croquis IV e V – 18 – GALVÃO, op. cit., p. 26. (Reprodução)

Nessa verdadeira homenagem à Pagu, o autor esclarece que seu artigo é somente uma breve apresentação dos “fragmentos poéticos deixados por Pagu”, e finaliza com o suposto último texto da artista publicado em vida, o poema Nothing, que expressa a força, a coragem e a intensidade dessa musa que busca os significados mais profundos para as situações complexas do indivíduo moderno, diante de um “sistema produtivo sem precedentes”, como em seus escritos/depoimentos no panfleto político Verdade e Liberdade, de 1950: “Também passei por essa prova. Também tentaram me esganar em muito boas condições. Agora, saio de um túnel. Tenho várias cicatrizes, mas ESTOU VIVA”.

REBECHI JUNIOR, Arlindo. Pagu: poesia, militância e condição feminina. Comunicação & Educação, São Paulo, v. 23, n. 1, p. 159-170, jun. 2018. ISSN: 2316-9125. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9125.v23i1p159-170. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/145613. Acesso em: 13 jun. 2018.

Arlindo Rebechi Junior é professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista, atuando em diversos cursos na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e é doutor em Literatura Brasileira pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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