Na África, Igreja Universal se preocupa em respeitar aspectos culturais

Posicionamento diminui rejeição da religião e abre espaço para luta por poder político, mostra estudo feito em Moçambique

A chamada ‘sessão do descarrego’, por exemplo, é dirigida por um pastor moçambicano, porque ele tem a sensibilidade de não expulsar um espírito familiar e de não falar nada ofensivo. Na imagem, a Igreja Universal em Maputo, Moçambique – Foto: Jcornelius/Wikimedia Commons

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“Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes.” 

Assim foi definida a religião da Iyalorixá Gildásia dos Santos e Santos – a Mãe Gilda – pela Folha Universal, periódico da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), em 1999. No Brasil a Iurd já chegou ao ponto da ofensa, praticada principalmente contra religiões de matrizes africanas. Mas e se a Igreja fosse para a África, como seria sua abordagem do assunto?

Em sua tese de doutorado, intitulada A igreja Universal e o espírito da palhota: análise dos discursos ‘religiosos’ e ‘políticos’ da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no sul de Moçambique, o pesquisador Silas Fiorotti, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, investigou o posicionamento da igreja em solo africano e colheu resultados interessantes: ao contrário do que ocorre no Brasil, em Moçambique a Iurd não demoniza religiões de matrizes africanas por questões culturais, e essa postura lhe concede um aumento na popularidade tal que torna possível a luta por poder político no país.

“Religiofagia”

Fiorotti participou de diversas práticas religiosas em Moçambique em função de sua pesquisa sobre a atuação e posicionamento da Iurd no país – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Fiorotti conta que “em Moçambique, o espírito ancestral da família é muito bem quisto e respeitado, então se a igreja combatê-lo estará combatendo a família”. Ele percebeu, em sua análise do discurso religioso, que houve uma mudança de abordagem por parte da Iurd com o intuito de evitar a ofensividade para com a cultura e os costumes do país. Tendo isso em mente, a igreja praticou algo que, análogo ao movimento brasileiro literário-cultural do século 20, a antropofagia, pode ser chamado de religiofagia. A Iurd levou sua religião para Moçambique, mas não se limitou a ela: adaptou-se e assimilou religiões nativas do país.

“Nos cultos, eles trazem pastores moçambicanos para assessorar. Por exemplo, a chamada ‘sessão do descarrego’ é dirigida por um pastor moçambicano, porque ele tem a sensibilidade de não expulsar um espírito familiar, de não falar nada ofensivo, nem usar objetos que possam ser interpretados de forma ofensiva.” Tudo isso é feito para que não ocorram deslizes desrespeitosos do ponto de vista cultural, e evite-se a rejeição.

Do altar à política

Todo esse cuidado com deslizes e desrespeitos, entretanto, não é em vão. Segundo Fiorotti, além da “menor liberdade de ofensa religiosa em comparação ao Brasil”, a popularidade conferida por essa postura abre as portas do mundo da política à igreja. Não à toa o presidente da Iurd no país, José Guerra, é também presidente da TV Miramar, emissora pertencente à Record Internacional, além de assessor do gabinete do presidente moçambicano.

Essa luta por poder político tem dois alicerces: a popularidade da religião – principalmente entre a classe média, pela localização das igrejas, nos centros das cidades – e a estratégia adotada, que usa do discurso religioso para o apoio político, porém sem comprometer a possibilidade de apoio à oposição em caso de uma reviravolta política. Fiorotti conta que essa estratégia foi utilizada também no Brasil: “Na época do governo Lula, ela [a Iurd] apoiou o governo; no governo Dilma, ela sempre esteve próxima. Então percebeu-se que, se antes da eleição do Lula em 2002, ela demonizava a esquerda, com a eleição do petista ela se aproximou e fez um discurso mais amigável, mas quando o PT perdeu a base, ela saiu”.

Mais informações: e-mail silas.fiorotti@gmail.com, com Silas Fiorotti

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