Jornais noticiaram Esquadrão da Morte de acordo com clima político

Veículos paulistanos foram mudando de posicionamento frente ao grupo paramilitar de acordo com a situação política do País

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“O Esquadrão da Morte da cidade de São Paulo foi um grupo formado por policiais que, liderados por Sérgio Fleury, executaram sumariamente em torno de 200 pessoas, além de terem envolvimento com tráfico de entorpecentes, prostituição, corrupção e proteção de quadrilhas de traficantes” – Fotomontagem jornal.usp.br

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m meio ao regime militar, surge, em 1968, um grupo paramilitar formado por policiais intitulado Esquadrão da Morte. Seu objetivo era simples: perseguir e executar criminosos potencialmente perigosos à sociedade. Mas como, em um regime militar, a mídia se portou perante esse grupo? De acordo com a tese de doutorado da pesquisadora Márcia Gomes, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a mídia apresentou diversas facetas e mudou de posicionamento ao longo do tempo, adaptando-se aos diversos contextos vividos nos dez anos em que o Esquadrão da Morte foi ativo.

Márcia discute a questão na pesquisa O esquadrão da morte de São Paulo e a imprensa paulista: um estudo sobre o Jornal da Tarde, O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo (1968-1978). Ela analisou a forma como esses veículos de comunicação abordavam o assunto.

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Jornalismo e política lado a lado

Márcia conta que fez extenso uso bibliográfico das matérias dos jornais analisados, num total de 180 matérias estudadas (60 de cada jornal), com destaque para as reportagens do jornalista Percival de Souza, do Jornal da Tarde. Ela explica que isso se deve ao fato de, à época, haver certa proximidade entre repórteres investigativos, como Percival, e policiais, como Sérgio Fleury, peça-chave do regime militar, que atuou como delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo.

Tendo proximidade com suas fontes policiais, que dispunham de grande influência naquele cenário, os jornais, num primeiro momento, reproduziam os discursos dos militares e tomavam parte deles no caso. “Esses jornais tratavam a origem do esquadrão como uma forma de vingança pela morte de policiais baleados em tiroteios. Eles enxergavam esse esquadrão como um grupo de policiais que praticavam o bem à sociedade eliminando pessoas perigosas e irrecuperáveis”, diz Márcia, que é professora de História da Universidade Federal do Amapá (Unifap).

Ela explica, entretanto, que “segundo Hélio Bicudo ー jurista da Faculdade de Direito (FD) da USP, e militante de direitos humanos ー, o Esquadrão da Morte da cidade de São Paulo foi um grupo formado por policiais que, liderados por Sérgio Fleury, executaram sumariamente em torno de 200 pessoas, além de terem envolvimento com tráfico de entorpecentes, prostituição, corrupção e proteção de quadrilhas de traficantes”.

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O peso do tempo

De acordo com a pesquisadora, ao longo dos anos, diversos acontecimentos de ordem política, social e econômica aconteceram e, com eles, o posicionamento da mídia foi mudando. Entre 1969 e 1973, o Brasil viu um grande e promissor crescimento econômico. No mesmo ano de 1973, porém, iniciou-se uma crise econômica de ordem global da qual o regime militar parecia incapaz de se livrar. Mas já em meados dos anos 1970 sucedeu-se, então, uma crise política no Brasil.

Nesse segundo momento de atuação do Esquadrão, nos anos 1970, os jornais, já insatisfeitos com a censura ー e censores ー em suas redações, enxergaram um enfraquecimento do governo militar nas aberturas políticas, e passaram a apoiar a justiça e os membros do Judiciário que processavam e investigavam os policiais suspeitos de envolvimento com o Esquadrão.

Ainda sem força política suficiente para se declararem opositores do regime militar, os jornais passaram a expor fatos antes censurados. Um exemplo dado por Márcia é o de Sérgio Fleury. Ele foi acusado de assassinatos por integrar o Esquadrão, e então, em vista dos julgamentos, foi blindado pelas autoridades e por seus advogados de defesa, que tinham como estratégia manter sua imagem de pilar do governo militar. Os jornais, no entanto, passaram a expor essa estratégia adotada, bem como inúmeros favorecimentos durante os julgamentos e processos. “Muitos juízes o tratavam com reverência, inclusive”, conta Márcia.

A partir da crise do petróleo, em 1973, o regime militar foi se enfraquecendo e sendo forçado a recuar cada vez mais na censura. Como consequência desse enfraquecimento, o Esquadrão teve suas atividades encerradas em 1978.

E, com seu fim, vieram os julgamentos de 69 casos de execução atribuídos ao grupo, dos quais Fleury tomou parte em 22. Com isso, ele foi réu em sete processos, sendo absolvido em todos. No entanto, dentre os muitos outros policiais levados a júri, nem todos ficaram impunes: Adhemar Augusto de Oliveira, o Fininho; Astorige Corrêa de Paula e Silva, o Correinha; e José Alves da Silva, o Zé Guarda, foram condenados.

Mais informações: e-mail mag.fernandes@usp.br, Márcia Gomes Fernandes

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