Historiadora recupera biografia política de poetisa portuguesa

Sophia de Mello Breyner Andresen militou contra a ditadura salazarista e foi deputada constituinte em Portugal

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A trajetória militante de Sophia de Mello Breyner Andresen foi objeto de pesquisa de doutorado no programa de pós-graduação em História Social da USP – Foto: Reprodução – documentário O Nome das Coisas / Panavideo para a RTP via Youtube

“Eu acho melhor você ver o que era a militância do marido dela.” A historiadora Eloisa Aragão relata ter ouvido frases como essa diversas vezes enquanto pesquisava a trajetória de ativismo antifascista da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Sophia, que viveu de 1919 a 2004, produziu uma obra literária muito difundida em Portugal. Escreveu em verso e prosa e ficou famosa tanto por seus poemas quanto por seus livros infantis. No entanto, sua atuação política na oposição ao regime totalitário de António de Oliveira Salazar é menos lembrada.

Nascida de uma família aristocrática, a poetisa era ligada ao grupo de católicos progressistas que no final da década de 1950 rompeu com o Estado Novo salazarista. Ao lado do marido, o jornalista Francisco Sousa Tavares, ela fez também um trabalho de oposição ao regime no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa. Foi, ainda, uma das fundadoras da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e deputada constituinte eleita pelo Partido Socialista após a Revolução dos Cravos, levante que deu fim ao salazarismo em 1974. A partir da análise de documentos e de entrevistas com contemporâneos de Sophia, Eloisa procurou reconstituir a biografia política e intelectual da poetisa.

Defendida no programa de História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a tese de Eloisa Aragão toma como marco inicial a campanha para a eleição presidencial de 1958. A eleição foi fraudada em favor do candidato apoiado por Salazar, mas a candidatura oponente de Humberto Delgado foi capaz de aglutinar parte da oposição ao regime, incluindo os católicos progressistas.

Segundo a historiadora, um fato significativo durante a campanha foi uma carta do então bispo do Porto, António Ferreira Gomes, endereçada a Salazar. Nesta carta, ele tecia uma série de críticas ao governo e afirmava que não pretendia apoiar o candidato da situação. Foi a primeira vez que um clérigo católico fez uma declaração nesse teor desde a assinatura da Concordata de 1940 entre o Estado Novo de Salazar e a Santa Sé. O documento regulava as relações entre Estado e Igreja e impedia os religiosos de se manifestarem politicamente de forma livre.

Literatura como reconstrução da realidade

Na tese, Eloisa Aragão costurou a militância literária com a atuação mais propriamente política de Sophia por meio da análise de um conto que foi influenciado pelo episódio da Carta a Salazar e pela resistência de outros clérigos. O conto O jantar do Bispo integra uma coletânea publicada pela primeira vez em Portugal em 1962. O conto narra um encontro entre um fazendeiro e um bispo que toma contornos fantásticos quando um Homem Importantíssimo chega para o jantar sem convite.

A historiadora Eloisa Aragão combinou análise de documentos com relatos de história oral – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Eloisa conta que, na alegoria do bem e do mal presente na narrativa, o bispo trava um embate com o fazendeiro e o Homem Importantíssimo – que é identificado com Salazar. Enquanto o jantar ocorre na sala, chega à cozinha pela porta dos fundos um homem pobre e maltrapilho.

“O diálogo travado pelo homem pobre na cozinha com as pessoas que são os empregados – a Joana, a Velha Sábia, a Gertrudes, as pessoas ali da cozinha que não tinham acesso à ‘casa grande’ – é um diálogo de um autêntico cristão, do que seria a figura de Jesus representada na sua essência humana e solidária. Enquanto no salão acontecia esse embate entre o que seria o estatuto do Estado Novo contra a igreja progressista, a figura do bispo do Porto”, analisa a historiadora, que procurou trazer um olhar mais atento às personagens secundárias, em especial as femininas.

Processo revolucionário

Eloisa explica que a Revolução de 25 de Abril de 1974, que por aqui ficou mais conhecida como Revolução dos Cravos, foi forjada em anos anteriores. Sobretudo na década de 1960, com o movimento de descolonização em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau e a resistência de opositores ao Estado Novo salazarista que viviam na clandestinidade em Portugal.

Em 1961 estourou a guerra colonial. Muitos portugueses apoiaram a luta anticolonial dos angolanos, moçambicanos e guineenses e denunciaram as violências do Estado Novo contra estes povos. Sophia Andresen e os católicos progressistas estiveram presentes em dois importantes eventos, nesse contexto: a Vigília de São Domingos, em 1968, e a vigília na Capela do Rato, em 1972, ambas em Lisboa.

Sophia de Mello Breyner Andresen incorporou à poesia as críticas ao salazarismo, como no livro Mar Novo – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Sophia chegou a escrever um poema para ser cantado na vigília de São Domingos. “Ela ficou bastante conhecida por causa desse poema. Até hoje é cantado em Portugal por grupos de esquerda: ‘vemos, ouvimos e lemos; não podemos ignorar’,” diz Eloisa.

Poetisa deputada

No ano seguinte ao levante militar que depôs Marcello Caetano, o sucessor de Salazar, Portugal realizou eleições para a Assembleia Constituinte que ficaria responsável por produzir uma nova carta magna. Sophia foi eleita deputada na lista do Porto, pelo Partido Socialista. Eloisa conta que há um registro do dirigente socialista Mário Soares no qual ele comenta a escolha de Sophia como candidata, em detrimento do marido.

“Nós podemos imaginar que a Sophia, a essa altura, já tinha um prestígio muito grande, embora ela não tivesse um exercício cotidiano de estar no púlpito. O marido dela, ao contrário, imaginava-se que deveria ser ele chamado (para ser o candidato a deputado). Mas ele não foi chamado. Possivelmente por isso ele ficou muito aborrecido e se afastou do Mário Soares”, observa a historiadora.

Na Constituinte, Sophia de Mello Breyner Andresen trabalhou principalmente em pautas voltadas à defesa da cultura e da inclusão de direitos à pessoa com deficiência. Ela também participou do embate entre socialistas e comunistas sobre o papel das forças armadas no novo regime e a radicalização do processo revolucionário. Os comunistas defendiam a implantação de um modelo político similar ao soviético, aspiração da qual os socialistas não compartilhavam.

Ao fim da Assembleia Constituinte, em 1976, a poetisa praticamente some da cena política. É este o marco final da tese de Eloisa Aragão. “Sophia teve muitos desencantos com o processo revolucionário. Muito do que ela imaginava que pudesse acontecer, não aconteceu. Nos anos posteriores, o que eu soube é que ela assinou um abaixo-assinado ou outro, teve alguma atuação, mas nada tão firme e continuado como foi o processo anterior, que configurou sua trajetória de militância antifacista”, conclui a pesquisadora.

Mais informações: e-mail eloisa.aragao@gmail.com

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