Gosto musical: questão de preferência ou adestramento?

Musicóloga ressalta papel do educador na construção de hábitos que preservem a diversificação do gosto musical dos alunos

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Na indústria da cultura, repetição e aceitação fazem parte da dinâmica de formação do gosto musical  – Foto: Gerlt via Pixabay / CCO

Embora nos dicionários ouvir e escutar apareçam como sinônimas, as palavras podem assumir significados diferentes, sobretudo quando falamos da música inserida em uma fase avançada da indústria cultural. O condicionamento e a nivelação do gosto e até a maneira de pensar formam os hábitos auditivos. Coloca-se então a questão: como fica o ensino de música em uma sociedade imersa numa domesticação sensorial para o consumo de massa?

Para a doutora em musicologia Cristina Camargo, a padronização, a satisfação imediata e o consumo, cada vez mais intenso e tecnológico, geraram um “adestramento na percepção ao promover um estado quase permanente de distração e de entretenimento”. Essa é a avaliação que ela expõe em artigo publicado na Revista da Tulha, ligada ao Departamento de Música de Ribeirão Preto da USP. O texto busca ainda apresentar alternativas para a recuperação de um pensar crítico, passando da escuta distraída a uma escuta concentrada, que “articula, interpreta, compreende e constrói um pensamento a partir do que se ouve”.

Ouvir é um ato involuntário, mas o “o modo como se ouve é particular, singular e consiste na construção interpretativa do ser humano”, afirma a autora. Mas com estereótipos envolvendo constantemente nossos ouvidos, pontua, o que fica é o “reconhecimento do sempre igual, rejeitando aquilo que se diferencia do padrão, da percepção do novo”. Se a sensibilidade é responsável por nossas escolhas, determinando a construção do gosto e de nosso juízo estético, na sociedade capitalista a construção dos hábitos de audição e formação musical está repleta de reflexos condicionados, sendo gerada em padrões:

da repetição (imitação) ao reconhecimento, do reconhecimento à aceitação. Com esse paradigma, não há quem escape da influência e do controle da indústria da cultura”.

Em um mundo cada vez mais tecnológico, acontece o adestramento da percepção, buscando-se promover um estado permanente de entretenimento – Foto: via Pixabay / CC0

A canção popular urbana, o mais saturada possível de estereótipos, é também a que mais contribuiu para a “padronização e mudanças nos hábitos de audição com a estagnação de padrões como a estrutura de distração, ligada à mecanização do trabalho”. O entretenimento passa a ser uma forma de relaxamento uniforme, sem esforço de atenção. A padronização musical para o consumo de massa, especialmente em relação à canção popular, levou a uma redução dos parâmetros básicos das dimensões estruturais que compõem a música (altura, duração, intensidade e timbre), dos atributos de expressão (andamento, dinâmica e articulação) e dos princípios poéticos musicais como repetição, contraste e variação.

Nesse cenário, a estudiosa aponta a importância da reinserção da música como disciplina nas escolas, que em sua visão deveriam contar com um conteúdo curricular musical abrangendo história da música e da arte. Ela salienta ainda a importância da postura crítica do educador para ajudar na construção de bons hábitos da audição, preservando a diversificação do gosto musical dos alunos. Tudo isso em um “processo vivo, dinâmico e mutável, de análise, interpretação e escolha, preparando-os para o desenvolvimento futuro de seu juízo estético, na valorização da música enquanto linguagem”. O objetivo é que os estudantes adquiram um “pensamento crítico por meio da invenção, apreciação/especulação e práticas musicais”, que lhes possibilite “ouvir, escutar, interpretar, compreender, julgar e escolher”.

O próprio universo provocativo e transgressor da arte pode ser usado para combater a padronização – Ilustração: via Pixabay / CCO

Normalmente, as informações auditivas do dia a dia mantêm nossa percepção “em estado de alerta e consciente do ambiente ao redor”, afirma a autora. Mas, em um mundo em que o consumo pelo consumo inverte essa percepção, vive-se em um “permanente estado de alienação”, já que não estamos alertas, e sim apáticos, privados de nossa capacidade de reagir, “tornando-nos suscetíveis ao controle dessa estrutura industrial”. Consequentemente, tornamo-nos presas da apatia que interfere em nossa escuta musical, gerando um estado de “desatenção e distração, passividade, destruindo a vontade, exaurindo os sentidos, anestesiando nossa capacidade de pensar”, de escutar. Essa apatia permite que o consumismo atue com um controle suave, que “não se efetua mais pelo constrangimento disciplinar nem pela sublimação, mas sim, pela auto-sedução”.

O antídoto contra essa situação está no próprio “universo provocativo e transgressor da arte, que para ser apreciada necessita da concentração, do esforço consciente da percepção e de um pensar crítico”; e no incentivo da coragem para experimentar, imaginar e inventar, atividades inatas em qualquer criança. Para a pesquisadora, é importante que a escola interfira na saúde do “escutar”, na quebra da sedução, alienação e entorpecimento dos sentidos. Só assim o aluno poderá desenvolver um sentir não padronizado.

Cristina Moura Emboaba da Costa Julião de Camargo é mestre e doutora em musicologia pela USP e professora na Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC) em Florianópolis.

CAMARGO, Cristina Moura Emboaba da Costa Julião de. Ouvir é escutar? Revista da Tulha, Ribeirão Preto, SP, v. 1, n. 1, p. 264-277, jan.-jun. 2015. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/revistadatulha/article/view/107707. Acesso em: 30 nov. 2015.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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