Fragmentação do arquivo de Fernando Pessoa dificulta acesso público

Artigo publicado nos “Anais do Museu Paulista” elogia mediação cultural de misto de museu e biblioteca localizado em Lisboa

  • 391
  •  
  •  
  •  
  •  
Baú de rascunhos amassados no quarto do poeta é um dos exemplos de mediação cultural propostos pela Casa Fernando Pessoa. Instituição tem a guarda de parte do espólio de Fernando Pessoa – Foto: Arquivo Pessoal / Taiguara Villela Aldabalde

.
O famoso poeta português Fernando Pessoa deixou um grande e diverso acervo de manuscritos. Inclui poemas, peças de teatro, romances policiais e até mesmo mapas astrais. É material o bastante tanto para alimentar uma variedade de pesquisas sobre o escritor e suas contribuições à literatura moderna e à cultura lusófona, quanto para fomentar a apropriação da produção de Pessoa pelo público geral, por meio de museus, oficinas e recriações de suas obras. Entretanto, todas essas atividades são dificultadas pela fragmentação do arquivo pessoal em coleções sob a guarda de diferentes instituições.

A crítica é do pesquisador Taiguara Villela Aldabalde, professor do Departamento de Arquivologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que publicou recentemente nos Anais do Museu Paulista, da USP, os resultados de seu estágio de pós-doutoramento realizado em Portugal. “Eu queria entender qual era a circulação dos manuscritos do Fernando Pessoa, tanto os inéditos quanto os éditos. Como as populações brasileira e portuguesa, a lusofonia de modo geral, tinham acesso a esse patrimônio”, conta o pesquisador.

Aldabalde trata a fragmentação como uma forma de desintegração do patrimônio cultural lusófono. Atualmente, o arquivo pessoal de Pessoa está repartido entre sete núcleos, que não estão articulados entre si e não seguem nenhum tipo de organização idealizada pelo escritor. Uma parte do arquivo está no Instituto Warburg, vinculado à Universidade de Londres, no Reino Unido. Outra está na Universidade Brown, nos Estados Unidos. Uma terceira coleção pertence a um ex-ministro brasileiro. Em Portugal, há uma coleção na Biblioteca Nacional e outra, menor, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. As demais coleções foram herdadas por familiares.

+ Mais

Historiadora recupera biografia política de poetisa portuguesa

“Slam” é voz de identidade e resistência dos poetas contemporâneos

O pesquisador optou por dedicar a maior parte do estudo à Casa Fernando Pessoa, que é o núcleo com maior circulação do público geral – os outros têm acesso mais restrito e perfil mais acadêmico. A casa é um centro cultural que funciona no último imóvel onde o poeta português viveu. Foi criada para abrigar a biblioteca particular de Pessoa e inaugurada em 1993. Também abriga objetos, mobiliário e documentos que pertenceram ao escritor, bem como obras de arte e uma biblioteca pública especializada em Fernando Pessoa e poesia mundial.

Procurando identificar como as pessoas se apropriavam dos manuscritos do poeta, se os documentos não estão organizados, Aldabalde encontrou na Casa Fernando Pessoa desde apropriações artísticas, como a reconstituição em porcelana de uma carta de amor, a práticas de mediação, como um curso de astrologia que utilizou os mapas astrais produzidos por Pessoa e representações dos manuscritos. Muitas das atividades mapeadas pelo pesquisador são realizadas junto a escolas e outros parceiros.

“É um museu e um espaço de mediação cultural. Você pode passar a noite no quarto onde ele morreu, pode visitar quartos dos heterônimos, que são pessoas que não existem”, conta Aldabalde, referindo-se a uma exposição que caracterizou o antigo quarto do escritor segundo a personalidade de seus heterônimos, como Álvaro de Campos e Alberto Caeiro.

Segundo o professor da Ufes, a experiência da Casa é um contraponto ao tratamento dado aos manuscritos pela Biblioteca Nacional de Portugal, por exemplo. “Em geral, estamos acostumados a trabalhar material de arquivo apenas para acadêmicos”, diz Aldabalde. “Restringir o acesso a esses documentos a uma elite intelectual é um atentado contra os direitos culturais dos países lusófonos. Não cabe a ninguém ocultar, dificultar ou enviesar pelo viés acadêmico. Isso (o arquivo) precisa circular de maneira livre, para que todos possam se apropriar”, conclui.

ALDABALDE, Taiguara Villela. Arquivos de Pessoa(s): um estudo sobre entendimentos e representações dos arquivos manuscritos na Casa Fernando Pessoa. Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 26, e. 11, 2018. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142018000100601&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 21 ago. 2018.

  • 391
  •  
  •  
  •  
  •  

Textos relacionados