Formação de professores retrata caminhos da educação no País

No interior do Pará, pesquisa acompanha implementação de Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica

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Realizada no Oeste do Pará, análise envolvendo trajetórias, expectativas e identidades de professores permitiu refletir sobre benefícios e deficiências dos cursos de formação docente – Foto Jhonatan Fernandes

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Para muitos professores, a sala de aula é apenas o primeiro espaço a ser conquistado. Em sua pesquisa de doutorado no interior do Pará, a paulistana Lilian Cristiane Almeida dos Santos deixou o confinamento da classe e foi ao outro lado do País conhecer a realidade de alunos e daqueles que são preparados para o ofício de ensinar.

Com um ponto de partida não convencional, a educadora construiu seu trabalho ao redor da própria experiência de vida em um novo ambiente de trabalho, somando às suas impressões uma análise criteriosa da literatura sobre pedagogia, dados objetivos sobre a implantação de planos de educação e relatos pessoais de estudantes e professores com quem conviveu diariamente.

A base para as investigações foi o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) – criado pelo Ministério da Educação visando à formação de professores da rede pública, especialmente dos que não possuem formação de nível superior. Na região pesquisada ele constitui a principal iniciativa oficial de formação e aprimoramento dos educadores.

Sempre conectando suas reflexões ao “ambiente da teia”, ou seja, ao contexto regional, que até certo ponto se ressente de mais atenção do poder público, o trabalho destaca a construção da identidade dos professores, desde o momento em que ingressam no Parfor, durante a formação, até o final do percurso. Observar este “movimento da identidade” dos professores forneceu ponto de vista privilegiado para entender as contribuições e deficiências do programa.

As reflexões da pesquisadora foram apresentadas em tese defendida no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, do Instituto de Física (IF) da USP. Entre outros pontos, ela defende uma maior adequação dos programas de formação docente à realidade local, embora reconheça que o Parfor também pode ser instrumento de inovação na educação da região.

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Do Jardim Paulista para Santarém

Formada e licenciada na USP, Lilian atuou com educação desde que saiu da faculdade, trabalhando na Escola de Aplicação da USP. Logo em sua chegada à escola, foi encarregada da supervisão de 12 estagiários, a maioria deles jovens que se tornariam, sob a tutela dela, professores.

Autora destaca necessidade de entender peculiaridades e a vivência das pessoas na região em que realizou a pesquisa – Foto: Jhonatan Fernandes

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“A perna tremeu”, confessa, ao se recordar dos primeiros dias na função. “Mas foi um trabalho que sinceramente gostei muito, em especial ver aquele estagiário, geralmente muito tímido no começo, crescer profissionalmente e pessoalmente”, relembra.

Ao ingressar, mais tarde, como professora na Universidade Federal do Pará em Santarém, ela vivenciou a fusão daquele campus com uma unidade da Universidade Federal Rural da Amazônia, criando a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).

Enquanto a Ufopa dava seus primeiros passos junto à comunidade, cursos do Parfor estavam entre os primeiros ministrados no local  – implementação da qual Lilian teve oportunidade participar.

Em parceria com secretarias de ensino municipais e a secretaria estadual, foram ofertados diversos cursos de formação inicial na região Oeste do Pará. Em particular, na área de ciências exatas, é oferecida a Licenciatura Integrada em Matemática e Física. “No Oeste do Pará há especificidades relacionadas ao ambiente, ao clima e ao modo de vida fortemente impregnadas pela realidade amazônica, constituindo um universo social muito particular”, escreve Lilian em sua tese.

Nascida no Jardim Paulista, na capital de São Paulo, Lilian se deparou com uma realidade distinta das salas de aula que frequentou; entretanto, reconheceu nos alunos e professores em formação um conjunto de similaridades e fragilidades que a fizeram entender melhor o Brasil. “Era uma outra realidade, mas que precisava ser compreendida”, resume.

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Mais que números, pessoas

De acordo com a pesquisadora, estudos anteriores na área de formação de professores mostraram que ações educacionais na região foram tímidas e não conseguiram causar impactos expressivos, o que apontou para a necessidade de se considerar as heterogeneidades das relações locais.

Diante desse quadro, entrevistas qualitativas foram incluídas na metodologia da pesquisa, buscando entender melhor que contribuição um programa de formação de professores como o Parfor pode oferecer à formação docente. “Meus entrevistados não eram só números, a região não era só mato, eu precisei entender a vivência das pessoas ali”, diz, ao fazer uma comparação com as rotinas que já conhecia em sua experiência profissional anterior.

Funcionando num período intervalar – geralmente entre janeiro e começo de fevereiro ou julho e começo de agosto – as turmas do Parfor formam professores para atuarem localmente, em especial nas zonas rurais, tanto as de terra firme quanto as de várzea, mais afastadas das zonas urbanas.

Nos primeiros meses da Ufopa, o campus ainda contava com defasagens em seu espaço físico e em quantidade de funcionários. A comunidade, de início, resistiu à chegada da Universidade, já que estava acostumada a desconfiar de iniciativas pontuais do Estado. “Mas a resistência passou com o tempo”, conta Lilian ao enfatizar que esforços sazonais motivados pelos interesses políticos locais estavam entre os principais fatores de descrença.

A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) nasceu da fusão do campus Santarém da Universidade Federal do Pará com a Universidade Federal Rural da Amazônia – Foto: Jeso Carneiro via Flickr – CC

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“Com quem eu trabalho?”

Ao iniciar as aulas dos primeiros cursos na Ufopa, a docente começou sua imersão em um sem-número de problemas que envolviam a formação de novos professores. Os problemas incluíam desde dificuldades de locomoção dos estudantes que moravam distante dos locais de aula até histórias muito particulares de alunos que, quando selecionados, não compreendiam a necessidade da realização de matrícula ou mesmo queriam transferir as vagas conquistadas para familiares.

“Foi aí que eu comecei a me questionar sobre quem eram esses professores com quem eu trabalhava”, Lilian revela, ao pontuar que inicialmente enxergava nos alunos grandes deficiências em português e matemática. Dentre as diversas iniciativas para complementar a formação, foram sugeridas oficinas uma vez por mês para alunos da zona rural, que, hoje em dia, estão conseguindo terminar o curso. “Algo que não acontecia no começo”, afirma ela.

Foi a partir dessa vivência local que Lilian procurou transformar a experiência em uma pesquisa acadêmica, com o propósito de identificar formalmente “a natureza das interações, tensões e pontes de diálogo que se instauraram, em seus diversos níveis, no sentido de melhor contribuir para o processo de formação docente”, registra na tese.

Para fazer isso, Lilian elaborou uma estratégia de análise, envolvendo as identidades dos professores, que permitiu com que ela refletisse sobre cursos dessa natureza e discutisse relações entre o programa de formação e os resultados encontrados.

Entendendo ser essencial dar voz aos professores durante esse processo, sua pesquisa optou por destacar questões relativas à identidade desses educadores, assim como sua realidade educacional e social.

Ao defender sua tese, Lilian acredita que seu objetivo principal, uma compreensão mais aprofundada e integrada da realidade educacional brasileira, sobretudo pela integração dos saberes amazônicos e globais, foi parcialmente atingido.

“Hoje eu enxergo o valor social desse curso, nessa universidade que, com todos os seus problemas, muda vidas”, conclui, ao reforçar que ainda falta estrutura para crescer, mas ao tentar compreender quem são as pessoas que formarão as novas gerações foi dado um passo essencial rumo a essa expansão.

A tese Identidades docentes e Amazônia: movimentos no contexto de um programa de formação foi orientada por Maria Regina Dubeux Kawamura, professora do Instituto de Física (IF) da USP, e pode ser acessada neste link.

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