“Fake news”: termo é um novo jeito de chamar velhos problemas

Artigo do jornalista e professor Caio Túlio Costa ressalta que boatos e mentiras sempre existiram nas mídias tradicionais

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Foto: Moisés Dorado / USP Imagens

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O Dossiê Pós-Verdade e Jornalismo é composto por artigos de jornalistas renomados, especialistas no tema proposto pela atual publicação do número 116 da Revista USP. O editor da revista, Francisco Costa, apresenta um questão polêmica dos dias de hoje: a pós-verdade, “eleita em 2016, pela Universidade de Oxford, como a ‘palavra do ano’”. Mas o que é a pós-verdade?”, indaga Costa. Os que são as fake news? Ao investigar o conceito das palavras, Costa nos conta que o professor e jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva afirma que fake news são “’notícias fraudulentas, ou seja, aquelas notícias publicadas com intenção de dolo, de modo baixo e trapaceiro”. É como um mal que se alastra apoiado pelas redes sociais de maior alcance atualmente: o Facebook e o Google.

No artigo aqui enfocado, “Verdades e mentiras no ecossistema digital”, Caio Túlio Costa, a partir de exemplos retirados do Facebook e do Google, questiona e analisa formas de garantir o acesso de todos à informação e à diversidade de opiniões e de como manter e incentivar o pluralismo das fontes, sem incorrer no risco das fake news. O artigo aborda a qualidade do atual uso irrestrito de acesso à informação. Informações improcedentes, boatos e mentiras sempre existiram, não é fato novo, mas preocupa “os profissionais da imprensa tradicional, como se o jornalismo nunca tivesse deparado com notícias falsas, plantadas por terceiros nos meios tradicionais de comunicação […] como se nunca houvesse existido a imprensa marrom”.

Foto: Pixabay – CC

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A questão que se apresenta sobre o tema é que, ao mesmo tempo em que precisa ser garantida a possibilidade de acesso à informação e, portanto, à diversidade de opiniões, é preciso garantir o acesso irrestrito ao “pluralismo das fontes”, e aí temos um problema: lidar com as chamadas fake news e a insegurança de saber-se o que é verdade e o que é mentira, visto que as redes sociais se tornaram a “torre de Babel” moderna em nossa era digital. “A estranha novidade é que esse não seria um movimento novo, e sim um retorno às culturas orais de séculos atrás. No entanto, agora, na era pós-impressão […], não há mais a solidez do papel para garantir a verossimilhança de uma afirmação qualquer. Se é que havia essa garantia”.

O autor afirma que, mesmo matérias divulgadas por jornais ditos de qualidade são  suscetíveis de adulteração. As mentiras históricas, por exemplo, geralmente não são questionadas e ninguém garante que sejam mentiras ou verdades – “Robin Hood não era um bandido generoso, nem roubava os ricos para dar aos pobres”. Verdade ou mentira? Nenhuma pesquisa vai garantir uma ou outra afirmação. As antigas mídias permitiam acesso ao seu conteúdo perante pagamento. “Ao mesmo tempo, as duas maiores  empresas de mídia mundiaisnão chegam a produzir nem um tipo de conteúdo, pois estes vêm de mão de obra de terceiros e gratuitamente – O Facebook e Google […] Esta última empresa tem o maior valor de mercado e o maior faturamento.”

Todavia, todas as mídias – a tradicional, o Facebook e o Google tentaram impedir a divulgação de falsas notícias. As publicações tradicionais de imprensa batem de frente com duas “ferramentas poderosas de distribuição de notícias” – as citadas acima, que contam com a ajuda gratuita “de milhares de usuários para ter uma notícia compartilhada em rede”. Google e Facebook se utilizam de informações da mídia tradicional “para oferecer resultados de busca (Google), distribuir notícias (Facebook) e lucrar com a venda de publicidade sem pagar nenhum direito autoral”.

O autor ressalta que não há como saber se, no atual momento, os conteúdos essencialmente criados por amigos e familiares, o chamado Feed de Notícias, prevalecerão sobre os conteúdos divulgados pelas mídias tradicionais. Porém, é indiscutível a preocupação de todos em “preservar, de alguma forma, a produção de conteúdo jornalístico de qualidade”. Mas há uma indústria, segundo o autor, pronta para usar e abusar, sempre em proveito próprio, da liberdade de publicação nas mídias tradicionais ou digitais – estamos falando do “big data” – conjunto de dados armazenados que implica na rapidez de circulação de notícias, na quantidade e na variedade das mesmas. Mas que não nos enganemos, pois é necessário enfrentar e encarar, sem medo e sem concessão, as artimanhas do “big data”, buscando-se, sem trégua, independentemente do resultado, a possibilidade da transparência das mídias tradicionais e digitais em prol da verdade.

Caio Túlio Costa é jornalista, professor de Jornalismo na Era Digital da ESPM-SP e doutor em Comunicação pela USP, com pós-doutorado na Universidade Columbia, além de fundador do Torabit, empresa de inteligência de dados.

COSTA, Caio Túlio. Verdades e mentiras no ecossistema digital. Revista USP, Brasil, n. 116, p. 7-18, maio 2018. ISSN: 2316-9036. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i116p7-18. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/146573/140219>. Acesso em: 08 jun. 2018.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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