Estrangeiros em SP vivem entre limites, discriminação e conquistas

Em artigo, socióloga discute a questão da conquista de espaço, limites da diversidade e discriminação dos estrangeiros em São Paulo

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Pluralidade étnica e de nacionalidades dentro da cidade de São Paulo teve crescimento com a questão atual dos refugiados – Foto: OuiSociety via Pixabay CC0

São Paulo é conhecida como a cidade que não para nunca. A imagem do centro de São Paulo nos remete à realidade de uma megalópole em que a pressa é a mola propulsora da vida dos paulistanos: de casa para o trabalho e do trabalho para casa: “um formigueiro de pessoas apressadas ao percorrer suas áreas centrais“. Mas um artigo da Revista USP lembra que, além dos paulistanos, na cidade circulam pessoas vindas dos mais variados lugares, raças e etnias, compondo um cenário bem variado de comércio ambulante de tecidos, produtos alimentícios e industrializados . O trabalho propõe discutir alguns conceitos sobre territórios e fronteiras da diversidade de estrangeiros em São Paulo, considerando as novas perspectivas que a globalização provoca.

Maura Véras chama a atenção para o fato de, além dos problemas internos de nosso País, cuja urgência de melhorias reside na área da saúde, educação, etc., no mundo capitalista de hoje, a mobilidade territorial é grande e imperam a competição e exclusão de diversos segmentos das populações estrangeiras, resultando em deslocamentos e expulsão constantes dessas aglomerações de indivíduos, gerando “degradação de áreas e de pessoas, segregação e fragmentação, e, sobretudo, discriminação, preconceito, dificuldades de reconhecimento dos direitos perante políticas sociais“.

Para autora, ao mesmo tempo em que os “territórios de pertencimento” acolhem os imigrantes, mostram um tipo de isolamento e segregação – Foto: geralt via Pixabay / CC0

Imigrantes sempre estiveram presentes em São Paulo, com algumas nacionalidades concentradas em determinados bairros: os italianos no Brás e no Bixiga; na Rua 25 de Março, sírios e libaneses; e o bairro da Liberdade concentra um grande número de orientais. Mais recentemente, os bairros do Bom Retiro, Brás e Pari concentram coreanos e bolivianos, paraguaios, chineses e peruanos, estes com seus restaurantes típicos se estabelecendo em maior número na Santa Efigênia e no distrito da República. O Glicério também abriga haitianos, onde se estabelece a Missão Paz dos “religiosos scalabrinianos“, que acolhe imigrantes e refugiados estrangeiros. Ao mesmo tempo, esses “territórios de pertencimento” mostram um tipo de isolamento e “segregação“, em meio a aglomerados como cortiços e espaços irregulares, tendo, como exemplo, as festas bolivianas na Praça Kantuta, nem sempre bem-vindas pela vizinhança.

Aqueles que se refugiam na cidade têm motivos fortes para isso: conflitos armados nos países de origem, violência política, perseguições étnicas, ou mesmo desastres naturais. “Dentro das condições atuais de transnacionalização e reorganização da economia mundial, a abordagem sobre os processos migratórios se reveste de maior complexidade“, afirma a autora. A circulação de trabalhadores é vista como intensificadora da circulação de capital, mercadorias, serviços e informações. A discussão aqui é comentar sobre as bases da análise gerada pela presença de latino-americanos na capital paulistana, os quais são excluídos “de muitas políticas públicas e dos direitos sociais, encontram-se em situação vulnerável. Trata-se de pessoas em situação de risco e privação em termos socioeconômicos e ambientais“.

Haitianos, latino-americanos, bolivianos, paraguaios, colombianos e venezuelanos, além dos recém-chegados palestinos, iraquianos, sírios, congoleses, angolanos e demais africanos sabem que viver entre duas culturas é escolher sempre entre o eu e o outro – Foto: Peggychoucair via Pixabay / CC0

Nossa preocupação está em analisar o cruzamento das fronteiras étnico-culturais e o enfrentamento do outro“, pois os refugiados lidam com o choque cultural, muitas vezes dramático. A autora exemplifica com o estatuto jurídico do imigrante, “pois ele perde os direitos sociais de seu país de origem e, no novo ambiente, é considerado estrangeiro“. Interpretar o fenômeno da migração é analisar as “múltiplas relações entre os imigrantes com seus locais de origem e de destino […] É época de transição, em que inúmeras possibilidades se descortinam, se possível em busca de uma cidadania global, transformando circulação em liberdade“. Haitianos, latino-americanos, bolivianos, paraguaios, colombianos e venezuelanos,  além dos recém-chegados palestinos, iraquianos, sírios, congoleses, angolanos e demais africanos sabem que viver entre duas culturas é escolher sempre entre o eu e o outro, e as discussões sobre o “direito à diferença” não excluem o outro, e sim somam experiências sociológicas diversas das nossas.

Maura Pardini Bicudo Véras – Professora titular de Sociologia e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP e membro do grupo Diálogos Interculturais do IEA-USP.

VÉRAS, Maura Pardini Bicudo. Estrangeiros na metrópole: territórios e fronteiras da alteridade em São Paulo. Revista USP, Brasil, n. 114, p. 45-54, set. 2017. ISSN: 2316-9036. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i114p45-54. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/142367. Acesso em: 20 abr. 2018.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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