Discriminação na TV: ainda falta diversidade na novela

Pesquisa publicada na “Revista Plural” avaliou a representação de atrizes e atores pretos ou pardos na teledramaturgia brasileira

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Pretos e pardos constituem somente 8,8% dos atores e atrizes dos elencos de telenovelas analisadas em pesquisa – Foto: Gustavo Torres via Pixabay – CC

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O Brasil abriga um alto contingente populacional de negros e os considerados pardos. Apesar disso, os programas da Rede Globo de Televisão, emissora que se popularizou na década de 1960, especificamente pelas telenovelas, não cumprem o papel, apregoado nas mídias, de serem o espelho, de representarem o povo e a nação, pois a participação das personagens pretas e pardas nos elencos da emissora sempre “esteve aquém do seu peso demográfico no país”.

Esse é o tema do artigo da revista Plural, em que Campos e Féres Júnior apresentam pesquisa com objetivo de avaliar a inexpressiva representação de atrizes e atores pretos ou pardos na teledramaturgia brasileira. Buscam “entender por meio dela a imagem de nação parcial que as telenovelas produziram e difundiram nas últimas três décadas”, na clara evidência de hegemonia e privilégio dos brancos nos elencos da emissora, ou, nas palavras dos autores, na constatação da “branquitude”.

Desde a década de 1930, explicam eles,  popularizou-se uma concepção de nação, um “projeto de nação”, “materializado nas narrativas teledramatúrgicas” brasileiras. Mas o que está excluído dessa concepção?, questionam os autores, já que “o suposto hibridismo dessa imagem unificadora da nação se aproxima mais de uma ‘negação do Brasil’ do que da expressão de suas diferenças.”

A presente pesquisa, ainda não totalmente concluída, serviu-se de uma base de dados criada pela própria Rede Globo de Televisão e disponibilizada no portal “Memória Globo”. Diante da pequena quantidade de pretos e pardos nos elencos, os autores dividiram os atores em dois grandes grupos: um chamado “branco”, composto por atrizes e atores classificados como brancos ou amarelos; e outro grupo denominado “não brancos”, composto por atrizes e atores classificados como pretos e pardos.

Para autores de artigo, a inserção de negros e pardos nas telenovelas vem acompanhada de estereótipos – Foto: Discover Freedmen via Pixabay – CC

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Feres Júnior e Campos contam que a distribuição das personagens das telenovelas de acordo com a cor e outras características, como a de gênero, colabora para a afirmação que a população preta e parda brasileira não está representada nas telenovelas globais, e sim, sub-representada, já que perfazem somente 8,8% dos atores e atrizes dos elencos, ao passo que o percentual de atores e atrizes brancos nas novelas levadas ao ar nos últimos trinta anos atinge os 91%.

As populações pretas e pardas do Brasil estão locadas, em sua maioria, no Norte e Nordeste, seguida do Centro-Oeste, o que confirma a distribuição desigual dessas populações pelas cinco regiões brasileiras:
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As telenovelas Globais não somente representam a região Sudeste como majoritariamente branca, mas como mais branca que a própria Europa.

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A inserção de negros e pardos nas telenovelas vem acompanhada de estereótipos como os temas que focam na escravidão, nas favelas e nos cortiços, que se mostram como espaços sociais onde transitam essas personagens : “as novelas que se desenrolam basicamente em espaços urbanos são, todavia, majoritariamente brancas”. Desse modo, Campos e Feres Júnior nos revelam a falsa mestiçagem brasileira, pois, o que está nas entrelinhas, ao contrário do que nos querem convencer, é que, “na verdade, se pensa em acelerado processo de embranquecimento”. Nota-se que as telenovelas brasileiras não contam, em seu quadro de diretores e/ou escritores, os pretos e pardos, e, além disso, a predominância de produtores (escritores e diretores) brancos “é ainda mais aguda do que a de atores brancos em relação a pretos e pardos” . Fica claro que “mesmo quando são colocados em papeis de protagonistas, os atores selecionados são majoritariamente mais claros, ou seja, quase brancos”.

Luiz Augusto Campos é professor de Sociologia do Iesp-Uerj, onde coordena, com o professor João Feres Júnior, o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa). É também pesquisador associado do Grupo de Estudos sobre Democracia e Desigualdades (Demode-UnB).

João Feres Júnior é professor de Ciência Política da Uerj e da Unirio, editor da revista Contribution s to the history of concepts, coordenador, no Brasil, do Projeto de História Conceitual do Mundo Atlântico (Iber- conceptos) e coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa).
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CAMPOS, Luiz Augusto; FERES JÚNIOR, João. “Globo, a gente se vê por aqui?”- Diversidade racial nas telenovelas das últimas três décadas (1985- 2014). Plural – Revista de Ciências Sociais, São Paulo, v. 23, n. 1, p. 36-52, 2016. Dossiê “Desigualdades e relações raciais”. ISSN: 2176-8099. Disponível em: http://revistas.usp.br/plural/issue/view/8888/showToc. Acesso em: 26 ago. 2016.

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Margareth Artur / Portal de Revistas da USP 

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