Interior paulista, o berço da cultura caipira. A pesquisa revelou que os idosos são os guardiões do dialeto caipira - Imagem: Almeida Júnior/ Wikimedia

Dialeto caipira do interior paulista está caindo em desuso, aponta pesquisa

Estudo verificou convergência semântica da fala dos moradores com o galego e constatou tendência ao desuso na população mais jovem

 01/04/2022 - Publicado há 3 meses  Atualizado: 05/04/2022 as 13:24

Autor: Ivanir Ferreira

Além do sotaque caipira com a pronúncia do “erre mais rasgado”, moradores de cidades do interior paulista, localizadas próximas ao Rio Tietê, têm um vocabulário peculiar. O terçol na pálpebra do olho pode ser viuvinha; a garganta, goela; o quadril de uma mulher tem a designação de anca ou “os quartos”. Uma pesquisa feita na USP mostrou que, embora ainda seja marcante, o dialeto caipira está caindo em desuso principalmente entre a população mais jovem e as mulheres. Os idosos são os guardiões do sotaque acaipirado. O estudo também apontou que o português falado nessa região e o galego (linguagem da região ocidental da Península Ibérica – Portugal e Galiza) possuem bastantes semelhanças lexicais. Cerca de 82,4% das palavras do vocabulário desses paulistas possuem correspondência com as unidades lexicais do galego.

Em entrevista ao Jornal da USP, a autora da pesquisa, Lívia Carolina Baenas Barizon, explica que o Rio Anhembi (atual Rio Tietê), por ter seu fluxo d´água correndo sentido continente, foi fundamental para a difusão da língua portuguesa e o dialeto caipira durante o início do século XVIII. Segundo a pesquisadora, “o dialeto caipira teria surgido nos núcleos familiares das cidades paulistas a partir do século XVIII e sido levado pelas monções para dentro do território paulista. Em sua caminhada rumo ao Mato Grosso (o Rio Tietê deságua no Rio Paraná, na fronteira com o Mato Grosso) para desbravar terras e retirar ouro, os bandeirantes saíam da capital paulista e seguiam a rota do Rio Tietê”, diz.

Lívia Carolina Baenas Barizon, autora da pesquisa - Foto: Arquivo Pessoal

Entrevista com os moradores

Para obter os dados para a tese defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Lívia entrevistou moradores das cidades de Santana do Parnaíba, Itu, Sorocaba, Porto Feliz, Pirapora do Bom Jesus, Capivari, Piracicaba e Tietê para verificar o quanto itens lexicais dessa região convergiam semanticamente com a língua galega. A filóloga tinha interesse em identificar tendência à manutenção, tendência ao desuso e estabilidade semântico-lexicais das lexias que possuem correspondência ao galego.

O contato inicial da pesquisadora com os moradores – homens e mulheres de três faixas etárias – jovens: de 18 a 25 anos; adultos: de 36 a 55 anos; e idosos: acima de 60 anos – se deu por meio de um bate-papo informal e apresentação da pesquisa, seguido de aplicação de questionário. De posse de desenhos, era apontada aos entrevistados alguma região do corpo humano no papel e solicitado a eles que dissessem o nome pelo qual conheciam essa parte do corpo ou se havia alguma outra designação.

As razões que levaram a filóloga a realizar a comparação com o galego foi o fato de ela já saber por outros estudos que havia um parentesco próximo entre o português e o galego e a facilidade de acesso ao corpus galego, via Atlas Linguístico Galego (Alga), que se encontra disponível on-line.

Das 85 unidades lexicais selecionadas para análise (barba, boca, cabeça, calcanhar, cotovelo, cuspe, dedo, dentadura, goela, quadril, anca, cadeiras, sovaco, axilas, terçol, umbigo, útero, orelha, junta, articulação, dentre outras) retiradas do Atlas e comparadas com as falas dos moradores, 82,4% foram convergentes.

Houve um predomínio maior do dialeto caipira entre os mais idosos, o que, segundo a pesquisadora, poderia estar associado à menor influencia das mídias digitais nessa faixa etária. Palavras como “pilão”, “juízo” e “dente do juízo” para se referirem aos dentes, ou “lombo” significando costas, “beiço” no lugar de lábios, “bucho” para barriga, “pestana” no lugar de sobrancelha, “capela do olho” no lugar de pálpebra, “curanchim” no lugar de cóccix, são alguns exemplos de expressões mais recorrentes entre os idosos.

Entre os mais jovens, foi constatado um porcentual de 58% de frequência relativa à tendência ao desuso das 85 lexias analisadas e 42% de tendência à manutenção. “Os jovens tendem a usar lexias mais próximas à realidade deles por terem maior escolaridade, pelo avanço tecnológico, pela influência das redes sociais, dentre outras inovações.” As mulheres também lideraram a tendência ao desuso (45%) e tendência à manutenção (23%). Já os homens apresentaram 18% de frequência de tendência ao desuso e 8% de tendência à manutenção.

A tese O léxico caipira: tesouro da língua às margens do Anhembi teve a orientação do professor Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH, e co-orientação da professora Maria do Socorro Vieira Coelho, da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

“A pesquisa da Lívia tem grande importância para os estudos do português falado em São Paulo, na região de cultura caipira, porque permite compreender os processos de variação e mudança da variedade que se expandiu desta região para outras partes do Sudeste, Sul e Centro-Oeste do Brasil, pelos caminhos das águas do Rio Tietê, antigo Anhembi, dentre outras vias fluviais e terrestres, a partir do século dezessete pelas ações das bandeiras e monções”, relata Almeida.

Raízes históricas: semelhanças lexicais entre o português brasileiro e o galego

O galego e o português possuem semelhanças lexicais devido às questões socio-históricas, relata a pesquisadora. Alguns linguistas já propuseram estudos comparativos entre o português e o galego, como meio de comprovar o parentesco entre ambas as línguas, provenientes da mesma “mãe”, o galego-português, língua falada na região da Península Ibérica (onde hoje é Portugal e Galiza) até meados do século XII.

Na tese, Lívia propõe um percurso histórico, mostrando que tanto o português quanto o galego são línguas resultantes do galego-português, e este é proveniente do romance, uma dialetação do latim vulgar. Para isso, a pesquisadora afirma que Castilho (2010) informa que entre os séculos VII e IX d. C. o latim vulgar dá surgimento ao romance, estágio linguístico que anuncia o desaparecimento do latim e o aparecimento das línguas românicas, entre elas o galego-português. Além disso, após o século XII, com a separação política e territorial entre Portugal e Galiza, separaram-se também as línguas, mas essas distinções linguísticas se consolidaram mais fortemente apenas após o século XV.

Embora tenha havido a separação territorial da Galiza e Portugal, até o século XV os letrados escreviam em galego-português, ou seja, “se delimitou o território, mas as influências de uma língua para outra não foram tão delimitadas assim, o que leva tempo, porque língua é cultura, é costume de um povo”, diz a pesquisadora. Somente no século XV, o português torna-se língua nacional em Portugal e o galego fica estagnado, sem cultivo literário, e passa a língua oral na Galícia.

Revalorização do galego

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Mais recentemente houve um movimento de revalorização do galego e, neste contexto, o governo da Comunidade Autônoma da Galiza (que é uma comunidade autônoma da Espanha) vem estimulando o uso do galego como língua oficial, mas a região ainda permanece bilíngue: o galego é empregado nas relações locais, e o castelhano, nas comunicações oficiais com a Espanha e o exterior. Em meados de 1970, foi criado o Atlas Linguístico Galego (ALGA) para estudar detalhadamente fenômenos linguísticos da Galícia. Na pesquisa da USP, Lívia procurou evidenciar pontos de convergência semântica entre as unidades lexicais do galego fornecidas pelo ALGA (2005, vol. V) e as unidades lexicais faladas no interior do Estado de São Paulo, na região do Médio Tietê.

Mais informações: e-mail livia.barizon@gmail.com com Lívia Carolina Baenas Barizon


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