Crítica literária identifica violação das formas poéticas na obra de Jorge de Lima

A pesquisa foi baseada na análise de documentos inéditos do autor – transcrição de poemas, manuscritos e textos datilografados com correções

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Lasar Segall, ilustração do livro "Invenção de Orfeu" - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Lasar Segall, ilustração do livro Invenção de Orfeu – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Pesquisa realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP revela que a obra do poeta, romancista e ensaísta alagoano Jorge de Lima está marcada pela violação das formas poéticas, pelo embate ideológico e pela intertextualidade. Autor recentemente indicado para o vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Jorge de Lima teve seu trabalho investigado por Daniel Glaydson Ribeiro, com base em obras raras e documentos inéditos do poeta — transcrição de poemas, manuscritos e textos datilografados com correções.

Um dos destaques da tese de Ribeiro foi a análise de Invenção de Orfeu – último livro publicado em vida por Jorge de Lima, em 1952. Nesse poema de 10 mil versos, o autor faz uma remontagem de epopeias clássicas como a Divina Comédia, Os Lusíadas e a própria Bíblia.  Invenção é composto de métricas variadas, numa espécie de “dramaturgia das formas que põe em cena, simultaneamente, a história do Brasil, o sujeito moderno e a própria linguagem”, relata Ribeiro.

O trabalho procurou identificar a multiplicidade temática e poética de Jorge de Lima, ressaltando características intrínsecas de sua obra, como a transgressão e a “manipulação das formas fixas”, para expor ao final a “violação que habita o interior da própria Técnica”. No campo da religiosidade, o poeta reescreve, por exemplo, um versículo do profeta Isaías (personagem bíblico), transformando-o de acordo com sua própria inspiração poética. Têm ainda valor constitutivo as referências canibais e selvagens: Jorge de Lima retratou o embate entre a cultura indígena e a colonização do Brasil logo no primeiro canto, com o título “A fundação da Ilha”.

Segundo Ribeiro, Jorge de Lima foi “um ponto de inflexão na poesia brasileira do século XX porque faz convergir para sua obra os melhores achados do modernismo”, inaugurando ainda, com Invenção de Orfeu, o neobarroco na poesia brasileira. Embora o autor esteja um pouco esquecido, Ribeiro o considera um dos maiores poetas, comparando-o a Carlos Drummond de Andrade e a Manuel Bandeira. O pesquisador acredita que o poeta voltará a ser valorizado pelo grande público com a indicação de uma de suas obras — Poemas Negros — para a lista de livros indicados pelo vestibular 2017 da Unicamp.

Poemas Negros

Recentemente, a comissão do vestibular da Unicamp ampliou o leque de leituras obrigatórias de Jorge de Lima, com a indicação de Livro de Sonetos (1949) e Poemas Negros para o vestibular. Nestas obras, na vanguarda de seu tempo, o autor já demonstrava sua consciência quanto à questão da discriminação racial. Retratou a história vivida pelos negros no Brasil do período colonial, enalteceu a importância do sangue africano na composição dos pilares étnicos do povo brasileiro e falou do trabalho escravo e desumano ao qual os negros eram submetidos. Sobre a mulher escrava, Jorge de Lima ressaltou a exploração de sua mão de obra e denunciou a servidão sexual à qual era subjugada.
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Daniel Glaydson Ribeiro, autor da tese - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Daniel Glaydson Ribeiro, autor da tese – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Daniel Glaydson Ribeiro considera oportuna a indicação de Poemas Negros para o vestibular porque acredita que a obra levará para a sala de aula discussões importantes da sociedade contemporânea, como o preconceito racial, linguístico e religioso.

Jorge de Lima nasceu em 1893, em União dos Palmares, Alagoas. Trabalhou como médico e exerceu vários cargos políticos, mas foi como poeta que ganhou projeção nacional. Publicou vários ensaios, romances e poemas, além de pinturas e fotomontagens, sendo consagrado como nosso maior poeta regionalista desde o lançamento de Banguê e Essa Negra Fulô.

A tese Carnifágia malvarosa: as violações na Suma Poética de Jorge de Lima foi orientada por Maria Augusta Fonseca e tem como base a análise de documentos das bibliotecas do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e da Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, além do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Mais informações: email dgribeiro@usp.br, com Daniel Glaydson Ribeiro

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