Conflito familiar e superação marcam a vida de mulheres lésbicas

Análise da vida de mulheres lésbicas que romperam relacionamento conjugal mostra interferência de preconceitos e machismo

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Visual Hunt
Culpa e preconceito interferiram de maneira negativa na manutenção dos relacionamentos – Foto: Visual Hunt

Na sociedade atual, mulheres homossexuais sofrem uma situação de dupla vulnerabilidade: vivem em um mundo machista e pautado pela heteronormatividade (ideia de que as pessoas são “naturalmente” heterossexuais; os que não se enquadram nisso são tidos como “anormais”). Diante disso, surge a dúvida de como essas questões podem influenciar a vida amorosa e conjugal de mulheres lésbicas. Esse foi o tema de pesquisa de doutorado da psicóloga Fabiana Esteca, no Instituto de Psicologia (IP) da USP.

Fabiana entrevistou cinco mulheres que já haviam mantido relacionamentos conjugais com outras mulheres, mas estavam separadas no momento. Os relacionamentos conjugais tiveram duração de um ano e meio a cinco anos, e a relação mais longa (namoro e casamento) durou 13 anos. Quatro das entrevistadas tinham idades entre 30 e 35 anos e a outra, a mais velha, 58.

A psicóloga desenvolveu um genograma para cada entrevistada, recurso que permitiu construir o mapa das famílias até a terceira geração, mostrando seus valores, princípios e relacionamentos, tendo como foco principal a família nuclear. Foram abordadas a questão da descoberta da homossexualidade, as primeiras experiências sexuais/afetivas, o momento de revelação para a família e, por fim, a história do relacionamento amoroso, desde o namoro até a separação conjugal.

Resultados

Foi possível constatar uma insatisfação sexual muito grande nos relacionamentos conjugais. Segundo a pesquisadora, essa questão está muito presente nas relações lésbicas pois, além da repressão sexual que a mulher sofre, existe o tabu da homossexualidade. “O começo da vida sexual delas foi marcado por solidão, vergonha, culpa, confusão. Tudo isso acaba desaguando, muitas vezes, numa relação insatisfatória, principalmente quando não há muito diálogo entre as parceiras.”

Outro causador de estresse conjugal foi a diferença subjetiva de cada uma para lidar com a homossexualidade. “Se uma das parceiras não se assume como lésbica ou se nega a dar um beijo em público, isso pode ser entendido como falta de amor”, afirma. É consenso entre elas que essa interferência dependerá muito da postura de enfrentamento do casal frente a essas adversidades. “Diálogo e cumplicidade são fundamentais.”

Foto: Cris Andina via Visual Hunt
Lidar com a reação das mães ao se assumir foi mais difícil para a maior parte das entrevistadas – Foto: Cris Andina via Visual Hunt

Para todas as entrevistadas, o processo de descoberta e aceitação da própria homossexualidade foi difícil, solitário e angustiante. A maioria não quis contar para a família e acabou descoberta. A partir daí, todas passaram, inicialmente, por grandes conflitos familiares, como brigas, agressões físicas e psicológicas. Entretanto, com o passar do tempo, as relações familiares foram se tornando mais amistosas, principalmente com as entrevistadas mais novas.

A única exceção ocorreu com a entrevistada mais velha, que chegou a ser agredida fisicamente pela mãe, quando esta descobriu seu namoro com outra mulher. “A questão se tornou uma grande fonte de conflitos até a morte da mãe, dez anos depois”, conta a psicóloga. Essa entrevistada relatou ter ficado muito surpresa, pois a mãe era muito culta e de mente aberta. “E esse relato não foi único: outras duas mulheres também consideravam suas mães cultas e de mente aberta, mas elas apresentaram atitudes semelhantes.”

Apesar de todas as dificuldades, nenhuma delas se arrependeu de assumir a homossexualidade, sendo que isso só beneficiou o vínculo amoroso.”

As mães com mais dificuldades em aceitar a homossexualidade das filhas foram aquelas que vivenciaram experiências de subversão do feminino, como engravidar antes do casamento quando isso era tabu ou viver um caso homossexual. “Outra entrevistada desconfiava de uma provável homossexualidade nunca assumida pela mãe”, conta.

Essas dificuldades poderiam estar ligadas à expectativa de que as filhas pudessem “corrigir” esses “constrangimentos” do passado, como uma espécie de compensação por a mãe não ter correspondido ao ideal feminino de conduta. Já os pais, embora com alguma dificuldade no início, acabaram por se aproximar das filhas e tiveram mais flexibilidade para lidar com isso.

“Apesar de todas as dificuldades, nenhuma delas se arrependeu de assumir a homossexualidade, sendo que isso só beneficiou o vínculo amoroso. Hoje, todas têm a vida mais plena. Isso é libertador.”

Criminalização da homofobia

Para a pesquisadora, é fundamental que a homofobia seja criminalizada. “Pesquisas americanas apontam que a criminalização, somada a várias outras medidas de reconhecimento legal para a população LGBT, têm transformado a opinião pública de modo favorável contra as discriminações.”

Outro desafio é promover um diálogo com instituições religiosas. “O tema é muito discutido no meio acadêmico, mas a discussão não chega até a população em geral. E os líderes religiosos poderiam contribuir para isso pois são formadores de opinião. O principal argumento em favor dessa aproximação com as igrejas é a defesa da vida e também da família, pois é a homofobia que mata e destrói relações familiares, e não a orientação sexual das pessoas”, finaliza.

A pesquisa foi defendida no Instituto de Psicologia, em julho de 2016, sob a orientação da professora Isabel Cristina Gomes.

Mais informações: e-mail fabiana.esteca@gmail.com, com a pesquisadora Fabiana Esteca

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