Coleções contam a história do Museu de Geociências da USP

Pesquisa resgata a trajetória da instituição através de descobertas relacionadas a seus acervos

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Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

 

A museóloga Miriam Azevedo diz que, no Brasil, coleções de museus não são muito utilizadas como fontes diretas para a pesquisa histórica. Para ela, os objetos que compõem o que é chamado de cultura material geralmente não são explorados como fontes primárias pelos historiadores, que se apegam mais à tradição oral e aos documentos escritos. Sua pesquisa feita no Instituto de Geociências (IGc) mostra como isso pode ser feito ao reconstruir a história do Museu de Geociências da USP com base em suas coleções. Entre os resultados, foi possível traçar a origem e percurso de peças e reconhecer a importância de colecionadores particulares para a formação do acervo.

Historiadora de formação, ela iniciou o estudo quando trabalhava como técnica do museu, e a instituição deu início a um inventário das coleções. Esse foi um processo difícil, porque a única contagem prévia havia sido feita na década de 1970, sendo a única fonte de informação sistematizada disponível. Surgiu, então, a necessidade de um respaldo da área de museologia para suprir a necessidade de obter informações mais precisas sobre os artefatos do local. Diversas peças tinham mais de um número de catalogação, sem registro de mudança, ou mesmo nenhum tipo de dado que identificasse sua origem.

Miriam Della Posta de Azevedo: a cultura material costuma ser mais associada à arqueologia e à antropologia, mas pode ter grande valor para a pesquisa histórica – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Determinadas peças do museu tinham etiquetas que identificavam o nome do colecionador ao qual pertenciam. Baseada nisso, Miriam começou a pesquisar mais a fundo as coleções. Buscou registros na diretoria do Instituto de Geociências (IGc), documentos de fundação do museu e atas, mas sem nenhum sucesso. Então, decidiu procurar as informações a respeito dos colecionadores informalmente. Durante as pesquisas, descobriu mais a fundo quem era Araujo Ferraz, por exemplo. Figura importante, Ferraz foi diretor do serviço mineralógico brasileiro e possuía um vasto acervo. “A partir de notícias de jornal, documentos transcritos encontrados no Arquivo Geral da USP, que não tinham relação com o museu, eu consegui ir levantando informações”, explica.

Durante suas pesquisas, a museóloga também fez descobertas sobre a Coleção Schnyder. Apurou que ele foi um colecionador particular que possuía um livro descrevendo sua coleção pessoal. É uma das poucas que ficam com todas as peças expostas junto. Quando os herdeiros do colecionador a doaram, pediram para que tudo ficasse mais ou menos do jeito que estava na casa de seu pai.

 

 

A Coleção Schnyder, que pertencia ao colecionador particular Carlos Ludovico Schnyder – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

 

Outra coleção alvo de suas pesquisas foi a de Luis Paixão. Através da busca em jornais como O Estado de S. Paulo e no Diário Oficial, a pesquisadora descobriu que o colecionador havia falecido em 1949, e seus herdeiros propuseram a compra pela USP. Na época, o curso de Geologia pertencia à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (atual FFLCH). Uma comissão foi organizada e o acervo de Paixão, analisado. No final, a coleção foi adquirida e dividida entre os departamentos de Antropologia, Geologia e Paleontologia, e o de Mineralogia e Petrografia.

Inicialmente, a museóloga pensava que a coleção completa de Paixão estava no Museu de Geociências, que iniciou suas atividades na década de 1930. Com o trabalho descobriu que, na verdade, ela era muito maior do que imaginava, passando dos 13 mil exemplares. A parte que se encontra no museu atualmente é referente à parcela que pertencia ao Departamento de Mineralogia e Petrografia. Através do Diário Oficial, foi constatado que o restante está no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. “Tudo isso para a história da instituição é muito importante”, pondera a pesquisadora. Saber como as coleções chegaram à instituição foi essencial para entender como funcionava a dinâmica do museu e, consequentemente, reconstruir sua história.

As peças expostas na vitrine, que pertencem a diversas coleções, são utilizadas durante as aulas no IGc – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

 

 

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A metodologia utilizada foi adaptada para o estudo de coleções a partir de um modelo da Universidade de Lisboa. O primeiro passo consistia na descrição da peça, seguido de uma análise da interação do objeto com o museu. Essa segunda etapa buscou entender como as coleções chegaram à instituição e seus percursos no local.

Foi constatado que a história do museu é muito mais informal do que formal. Esse tipo de estabelecimento, assim como outros da Universidade, foram criados inicialmente para servirem de apoio para as aulas dos institutos. Segundo Miriam Azevedo, museus universitários geralmente são resultados de processos de ensino e pesquisa. É normal as pessoas não associarem esses locais ao desenvolvimento de atividades científicas, mas “a Universidade faz ciência de todo tipo”. Prova disso é a exposição Tipo, do próprio Museu de Geociências, que traz minerais descobertos e descritos por professores do instituto. 

A dissertação de mestrado Acervos que escrevem a história: a trajetória do Museu de Geociências do IGc-USP contada pelas suas coleções foi defendida em agosto de 2018 e teve orientação da professora Maria Margaret Lopes.

O Museu de Geociências fica localizado dentro do Instituto de Geociências da USP – Rua do Lago, 562, Cidade Universitária, em São Paulo. Funciona de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 12 horas e das 13h30 às 17 horas. Para mais informações, acesse o site.

 

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

 

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