Cobertura jornalística de crimes influencia opinião pública antes de julgamento, sugere estudo

Pesquisa analisa como a cobertura jornalística de grandes crimes pode influenciar a opinião pública antes das investigações e julgamentos emitirem vereditos

Compartilhar no FacebookCompartilhar no Google+Tweet about this on TwitterImprimir esta páginaEnviar por e-mail

20160518_00_crime790

Ao afirmar que o jornalismo “não espera o resultado da batalha, informa a cada troca de tiros”, o professor Bernardo Kucinski cristalizou em uma única frase uma das importantes bases para se entender o jornalismo online nos dias de hoje. Sua obra Jornalismo na era virtual é uma das referências de uma pesquisa realizada por Margibel de Oliveira, doutora pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Na tese As notícias de crimes: uma análise retórico-argumentativa do discurso jornalístico online por antecipação ao discurso jurídico, a pesquisadora analisou como a retórica da cobertura jornalística de grandes crimes pode influenciar a opinião pública antes das investigações e julgamentos emitirem veredictos. O método de pesquisa integrou análise do discurso e questionários que avaliaram a recepção do conteúdo por um grupo específico: alunos de Direito.

20160518_00_crime_noticias2Tomando como base os casos Isabella Nardoni, menina de cinco anos de idade jogada do sexto andar do Edifício London, em São Paulo, na noite do dia 29 de março de 2008 e o de Eloá Cristina, notoriamente conhecido como o mais longo sequestro em cárcere privado já registrado pela polícia de São Paulo e que se encerrou em 17 de outubro daquele mesmo ano, Margibel utilizou como fontes matérias veiculadas pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, comparando-as com boletins de ocorrência, denúncias da promotoria e as sentenças dos tribunais.

A pesquisadora optou pelos casos devido a grande repercussão midiática que geraram e pelo fato de já haver sentenças emitidas. Atualmente lecionando em uma faculdade de Direito, ela chegou até seu objeto de estudo a partir de uma inquietação surgida em aula para uma turma de calouros: Margibel notou que havia pouco ou nenhum questionamento dos jovens estudantes sobre a fonte de informação utilizada em sala. “Se eu levasse algum texto jornalístico para a sala de aula, eles não questionavam e usavam para fundamentar as peças deles”, explica ela.

Na disciplina em questão, alunos aprendem a organizar peças jurídicas como a petição inicial, a contestação e pareceres jurídicos, e devem questionar se as notícias registram fatos concretos ou interpretações. Para a professora, faltava a eles o questionamento da fonte como uma “fonte fidedigna, ou se aquele jornal, independente do texto trazido para a sala, tinha credibilidade para que eles o usassem na fundamentação”.

Tanto a imaturidade acadêmica dos alunos, quanto a desatenção do público geral foram alguns dos fatores comuns identificados por Margibel. Contudo, para a pesquisadora, é crucial que o público leitor – em especial futuros juristas – aprenda a enxergar na cobertura de crimes elementos e interpretações que vão além dos fatos comprovados e denotam suposições por parte de veículos e jornalistas.

Investigar não é julgar

Realizando a análise dos enunciados das manchetes, assim como excertos das notícias em busca de prejulgamentos dos jornalistas, Margibel se utilizou de instrumentos da análise linguística para tabelar padrões de discurso que faziam inferências ao destacarem fatos no decorrer das investigações.

Foto: Pedro Bolle/USP Imagens
Foto: Pedro Bolle/USP Imagens

Ao notar que, devido ao volume de produção que é exigido do jornalismo online, o discurso não hesita em prejulgar, mesmo sem um posicionamento de uma real autoridade jurídica, a pesquisadora pontuou as marcas linguísticas que revelavam tais prejulgamentos. Estas incluíam desde o uso de enunciados que denunciavam suspeitas infundadas de autoridades ou testemunhas, até a aplicação constante do chamado “discurso relatado” (“segundo a polícia”, “segundo vizinhos”) em que diferentes tipos de relatos, com diferentes funções, assumiam um caráter argumentativo. Ao tomar constantemente os relatos dos outros, algo que é praxe no fazer jornalístico, o discurso pode transformar o profissional de seu papel de investigador para o de um denunciante ou até mesmo julgador.

Observando o fluxo intenso de notícias, Margibel atribuiu ao modo operante do jornalismo online a necessidade de manter o público ligado. “No online, a ideia é manter a audiência conectada. Sabemos que temos ferramentas de medição de acessos, então veículos de comunicação fazem estudos sobre como manter a atenção do público”.

Para a especialista, uma alternativa é investir em um tipo de linguagem que expresse um discurso sem a interferência subjetiva do jornalista. Por exemplo:  usar mais ‘é possível, é provável’ nas manchetes, evitando assim dar certezas que ainda não existem. Citando as notícias que alegavam, dois dias após o crime, que Isabela Nardoni havia sido asfixiada, a professora recorda que, naquela altura, a polícia ainda não havia concluído o inquérito. “A denúncia não havia sido oferecida pelo promotor e já havia esse prejulgamento – e na verdade já era um sentenciamento”, reforça.

“Transmitir a informação de uma maneira que as pessoas consigam digerir é um grande caminho”, mas pensar bem na linguagem utilizada é essencial, afirma a professora, relembrando a citação de Kucinski – que além de jornalista, escritor e cientista político foi também docente da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – ao concluir que o jornalismo “é bom quando, na batalha, ele acerta seu alvo. Mas quando ele não acerta, demonstra um caráter de fragilidade”.

A tese de doutorado foi orientada pela professora Lineide do Lago Salvador Mosca, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Compartilhar no FacebookCompartilhar no Google+Tweet about this on TwitterImprimir esta páginaEnviar por e-mail

Textos relacionados