Cinema e vídeo transformam a vida de jovens na periferia de São Paulo

Projeto implantado no bairro do Sapopemba, em São Paulo, permite a produção de filmes e vídeos que retratam o cotidiano local

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.Uma pesquisa realizada na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP viabilizou a implantação de um projeto que evidenciou a produção artística de jovens do bairro de Sapopemba, localizado na zona leste de São Paulo. O estudo de doutorado Processos criativos na produção fílmica de jovens de Sapopemba, periferia da Zona Leste de São Paulo é de autoria da professora Eveline Stella de Araujo e foi orientado pelo professor Paulo Rogério Gallo.

O projeto teve início em 2012, na Associação Amigos do Bairro de Sapopemba e os alunos que estudavam pela manhã participavam do projeto à tarde e vice-versa. As aulas do projeto foram ministradas na própria associação. A escolha do local se deu após uma constatação, por estatística, de que se tratava de uma região com alto índice de mortalidade de jovens por motivos de violência e atropelamento, dentre outros.

Antes de iniciar o projeto a pesquisadora fez um levantamento de todos os filmes, até então existentes, que traziam registros sobre a região.
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Ela conta que o bairro de Sapopemba, na época, estava entre as regiões com maior índice de mortes externas de jovens, por atropelamento e por outras formas de violência. “Logo no início, comecei a estranhar o movimento e a configuração do território, pois notei que algumas das meninas esperavam pelo ônibus dentro da instituição, calculavam o tempo e, quando o ônibus estava próximo, corriam para o ponto. Foi quando entendi os riscos pelos quais passei naquele território. Mais tarde, os estudantes passaram a me acompanhar até o ponto de ônibus”, lembra a pesquisadora. “No decorrer do projeto enfrentei toques de recolher, tomei conhecimento de que no território ocorriam estupros e cheguei a me deparar com corpos de pessoas mortas, que eram deixados nas proximidades.”

Trabalhando a afetividade

O objetivo principal da pesquisadora era analisar como esses jovens utilizariam a linguagem audiovisual e a relação destes com a internet. Cada equipe de jovens foi formada a critério dos próprios participantes, por afinidade. “A equipe de estudantes soube trabalhar muito a afetividade da amizade verdadeira, direito à cidade, trânsito de skate pela cidade, grafite colocando sua representação do social, trabalharam bem forte estas relações”, conta a pesquisadora. No início das atividades, a falta de equipamentos fez com que os jovens fizessem uso dos próprios celulares. “Só depois é que conseguimos uma câmera em VGA e câmeras compactas simples”, lembra Eveline.
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Dentre os produtos do projeto, destaques para a premiação dos jovens no Festival do Minuto, participação no Programa Manos e Minas da TV Cultura e projeção das produções destes jovens no Instituto CRIAR. Um dos jovens alunos de Eveline, com grande domínio na técnica de desenhar avatar, foi contratado em condição remunerada por um dos amigos da pesquisadora que estava no mestrado.

 

O êxito deste trabalho só foi possível graças à flexibilidade de Eveline, que soube manter uma relação fluida, acompanhou ensaio de danças para as festas juninas, jogos de futebol, oficina de grafite, fotografia e fez um redirecionamento do projeto para a temática Saúde, Ciclos de Vida e Sociedade.

Conscientização por meio dos filmes

A droga e a violência foram trabalhadas no filme de ficção A Esperança. “Personagens contagiados por mordidas viravam zumbis”, lembra Eveline sobre o filme. Segundo ela, eles trouxeram para a produção os seus referenciais sobre como a contaminação sacrificava as relações de amizade, e a situação de uma mãe que entregou seu filho para outra pessoa cuidar por ela não ter condições de fazê-lo.

Eveline lembra ainda que, para aqueles jovens, sair do território significava correr um risco. “Mas eles não tinham a noção que sair do território também era correr novos riscos”, ressalta. Segundo a pesquisadora, quando o trabalho de campo foi concluído, ela contabilizou um óbito e uma gravidez na adolescência. “Mesmo assim, houve uma maior conscientização e o hábito da atitude segura, trabalhou-se a questão da vacina HPV, uso da camisinha e relacionamento com afetividade, não só física.”
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Já na segunda fase de campo do projeto foi realizado um festival de Cinema, na Fábrica de Cultura de Sapopemba e na Faculdade de Saúde Pública da USP. O festival em ambos os espaços serviu para valorizar as produções cinematográficas novas e antigas da região e para afirmar que a periferia também é capaz de produzir cultura no seguimento cinematográfico.

Dentre as conclusões de Eveline, ela destaca que a região de Sapopemba é densamente povoada por metro quadrado, pela maior quantidade de conjuntos habitacionais, porém a relação política por vezes é tensa, sempre amedrontados por causas externas, o que impede a formação de coletivos de arte que possam ter a sua própria expressão política. De acordo com a pesquisadora, os festivais foram importantes para valorizar a estética da periferia.

Mestre Valdenor, especial para o Jornal da USP

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