Amazônia é cenário das premiadas histórias em quadrinhos de Belém do Pará

Juliana Angelim, mestranda em História Social da Amazônia na Universidade Federal do Pará, analisa obras de quadrinistas da região em artigo publicado na revista “9ª Arte”

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Capas das duas novelas gráficas produzidas pelo Estúdio Casa Velha – Foto: Reprodução / Acervo da autora

A cidade de Belém do Pará é conhecida pelas tradições culturais, pela culinária exótica, pelas belezas naturais. A Amazônia, por sua vez, é a maior floresta tropical do mundo, e isso todos já sabem, mas é  provável que poucas pessoas conheçam a arte das histórias em quadrinhos e seus artistas premiados, ambos nascidos e criados em Belém, região ribeirinha da Amazônia. O artigo da historiadora Juliana Angelim traz um panorama deste cenário na Amazônia, apresentando autores, grupos e suas criações. Mas também suas formas de viabilização financeira – concursos, editais e patrocínios privados, entre outras -, além dos eventos locais e os espaços de circulação das histórias. Apresentado na quarta edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, o trabalho foi vencedor do Prêmio Álvaro de Moya de Incentivo à Pesquisa em Quadrinhos de 2018.

Ao se reportar aos quadrinhos paraenses, a autora comprova a existência de uma produção de histórias em quadrinhos nacionais e regionais bastante expressiva, coexistindo com a importação de obras de outros países. No Pará, a publicação de HQ surgiu em jornais, concursos e editais. O estímulo para a criação individual foi visado com o chamado “fanzine”, o quadrinho alternativo,  a “publicação independente”. Assim apareceram os grupos e suas produções, destacando-se o grupo Ponto de Fuga, com fanzine de mesmo nome; e o Catarse Quadrinhos (Prêmio IAP de Edições Culturais do ano de 2008). Algumas revistas independentes, tais como Belém imaginária, Encantarias – a lenda da noite e Pretérito mais que perfeito também “adquiriram repercussão inclusive em outros estados”.

Capa do álbum Vero-Pexe e sua turma, contemplado pelo Edital de Arte em 1968 – Foto: Reprodução/Acervo da autora

Bichara Gaby foi o criador da primeira história em quadrinhos amazônica em 1972, publicada pelo jornal Folha do Norte, “na verdade, uma entrevista em quadrinhos, realizada com o grupo de teatro ‘GRUPAÇÃO’ “. Nos anos de 1988 e 1989, coube ao governo, por meio da Secretaria da Cultura e da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, incentivar a produção local de quadrinhos, com o lançamento do chamado Edital de Arte, cujo resultado foi a publicação de seis álbuns de quadrinhos, tais como o Vero-Pexe e sua turma, de Luiz Paulo Jacob e Gabriel de Jesus. Branco Medeiros foi o pioneiro em elaborar histórias em quadrinhos no computador, a partir de 1990. Não se pode deixar de citar Crash, de Gian Danton e Bené Nascimento. Este último, autor de produção premiada, é “mundialmente conhecido como ‘Joe Bennett’, desenhista contratado pela editora Marvel”, explica a autora.

Página do fanzine Ponto de Fuga, n. 2, com alguns nomes que integram o grupo – Foto: Reprodução/Acervo da autora

O grupo Ponto de Fuga incentivou a criação de gibitecas e foi responsável pela realização de eventos como o Amazônia Comicon, o último ocorrido em 2018, ainda a ser editado e publicado. Vale citar o fanzine de estilo underground A Boca no Mundo, o Catarse Quadrinhos (uma publicação contemplada pelo Prêmio IAP de Edições Culturais 2008) e o trabalho de Volney Nazareno e os outros integrantes do Estúdio Casa Velha para a publicação das novelas gráficas Belém Imaginária e Encantarias, esta última patrocinada pelo Banco da Amazônia.

Embora a produção de revistas em quadrinhos periódicas em Belém careça de circunstâncias favoráveis à sua manutenção, atualmente surgem alternativas que  beneficiam os quadrinhos de edição única – como as campanhas de financiamento coletivo lançadas na plataforma Catarse –, além da possibilidade de publicação no meio digital, por meio de blogs e redes sociais.

Dois projetos de quadrinhos locais foram muito bem-sucedidos: Castanha do Pará – prêmio Jabuti 2017 -, de Gidalti Moura Júnior; e Esquadrão Amazônia, de Alan Yango e Bené Nascimento. A pesquisadora cita Waldomiro Vergueiro, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e especialista em quadrinhos, o qual atesta que “o panorama dos quadrinhos no Brasil abrange um mercado composto de uma ampla e pujante rede de fanzines e revistas alternativas, publicadas de forma artesanal ou com suporte de recursos eletrônicos, principalmente a internet”.

A autora convida o leitor para olhar atentamente e comprovar a riqueza da chamada Nona Arte em Belém e na Amazônia, pois o desenvolvimento do mercado de quadrinhos na capital paraense é bastante expressivo, com apoio ou não do governo, graças ao talento dos quadrinistas e suas histórias criativas e inusitadas, cada vez mais reconhecidas em âmbito nacional.

Artigo

ANGELIM, J. A Nona Arte na Amazônia. 9ª Arte, São Paulo, v. 7, n. 1-2, p. 73-83, 2018. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/nonaarte/article/view/157289 . Acesso em: 16 ago. 2019.

Contato

Juliana Angelim – Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Margareth Artur / Portal de Revistas USP

 


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