Adaptação para cinema mantém caráter atemporal de “Vidas Secas”

Ao apropriar-se da obra de Graciliano Ramos e reelaborá-la, Nelson Pereira do Santos inaugura um novo cinema brasileiro

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Trabalho analisa como Graciliano Ramos traduziu paisagens em imagens literárias, enquanto Nelson Pereira dos Santos transformou palavras em imagens cinematográficas – Foto: Domínio Público via Pixabay – CC

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Foi com um estilo de escrever amadurecido no cenário de crise econômica, que se somou à seca no Nordeste e à revolução da década de 1930, que Graciliano Ramos forjou um clássico da literatura. Nessa crua realidade, o autor nos apresenta um homem submetido à terra hostil, devorado pelos problemas que o meio lhe impõe, e que muda de casa constantemente para fugir da aridez da caatinga. Tal é o cenário de sua obra mais conhecida e elogiada, Vidas Secas – narrativa que economiza nos adjetivos transmitindo a aridez do ambiente e seus efeitos sobre as personagens.

O livro que conta a história da família sertaneja retirante – Fabiano, Sinhá Vitoria, os dois filhos e a cadela Baleia – foi inspiração para Nelson Pereira dos Santos produzir mais uma obra clássica, esta do cinema: o filme Vidas Secas (1963). Maria Ignês Carlos Magno e Maria Aparecida Bacegga, em artigo da revista Reb. Revista de Estudios Brasileños, nos contam como Graciliano Ramos traduziu as paisagens em imagens literárias, enquanto Nelson Pereira dos Santos transformou palavras em imagens cinematográficas.

O artigo é uma tentativa de ressaltar algumas similaridades históricas na trajetória do romancista e do cineasta em relação ao processo criativo de ambos. O trabalho busca, especificamente, “entender como o arranjo de palavras e de imagens na construção da narrativa faz com que uma obra permaneça atual e provoque o leitor e o espectador para que sejam sempre lidas, vistas e estudadas”.

Para pesquisadoras da obra de Graciliano Ramos e de Nelson Pereira dos Santos, “quem se mete a fazer cinema precisa saber tratar as imagens como o escritor a palavra” – Foto: Romero Chaves via Pixabay – CC

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O conto virou romance, “um livrinho, sem paisagens, sem diálogos. E sem amor”, segundo Graciliano, e o filme mostra esse universo inóspito, pois “as pessoas adultas, preocupadas com o estômago, não tinham tempo de abraçar-se”, declaram as autoras do artigo. Nelson Pereira dos Santos se identificou com a questão política e social proposta por Graciliano, além da riqueza e profundidade psicológica dos personagens. Nesse ponto as autoras questionam: como uma trama simples e tão popular, uma família sertaneja, esfomeada e em fuga da seca, desperta tanto interesse ainda hoje? Talvez uma das respostas seja a genialidade de uma história quase sem diálogos, em que a conversa dos personagens é, sobretudo, interior, no questionamento sobre o poder das palavras e seus sentidos.

Se Graciliano Ramos declara: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”, Maria Ignês e Maria Aparecida ressaltam o mesmo em relação ao filme, “pois quem se mete a fazer cinema precisa saber tratar as imagens como o escritor a palavra. O contrário também”. No romance, as imagens são ocupadas pela palavra, foco de interesse de Fabiano e o filho mais velho: “Como podem os homens guardar tantas palavras?”.

Maria Aparecida Baccega nos traz a questão da construção da realidade e da formação do indivíduo a partir da apropriação “dos sentidos das palavras, dos signos, reelaborando-os”. Para as autoras, Nelson Pereira dos Santos, ao ler “aquele livrinho seco de Graciliano Ramos”, fez o mesmo: apropriou-se, reelaborou e transformou aquelas palavras/imagens literárias em imagens cinematográficas, inaugurando um novo cinema brasileiro.

Maria Ignês Carlos Magno é doutora em Ciências da Comunicação e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Audiovisual da Universidade Anhembi Morumbi.

Maria Aparecida Baccega
é livre-docente em Comunicação, doutora em Letras e Decana do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Mídia e Práticas de Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

CARLOS MAGNO, Maria Ignês; BACCEGA, Maria Aparecida. Das palavras às imagens e o contrário também. Um estudo da adaptação do romance Vidas Secas para o cinema. Revista de Estudios Brasileños, Salamanca, v. 4, n. 7, june 2017. ISSN 2386-4540. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/reb/article/view/134504/130320>. Acesso em: 19 oct. 2017. doi: http://dx.doi.org/10.3232/REB.2017.V4.N7.2822

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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