Por trás da poeira cósmica surge um par de estrelas brilhantes

Nuvem de poeira que encobre a visão da Eta Carinae deverá se desfazer em dez anos, calcula astrônomo

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Par de estrelas Eta Carinae está distante 7.500 anos-luz da Terra, na Constelação de Carina; em 1845, uma grande erupção aumentou seu brilho, tornando-a visível durante o dia, mas ao mesmo tempo lançou uma nuvem de poeira que dificultou a observação  – Foto: Nasa/Wikimedia Commons

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Por entre a poeira cósmica, um par de estrelas aparecerá com todo seu brilho dentro de poucos anos. Observações analisadas pelo professor Augusto Damineli, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e uma equipe de astrônomos descobriram uma nuvem de poeira que encobre a visão da Eta Carinae, um sistema binário formado por duas estrelas ligadas entre si. Antes, os cientistas acreditavam que o aumento de brilho da Eta Carinae surgiu na estrela principal do par, o que levaria a uma explosão em algumas décadas. No entanto, a nuvem de poeira existente na frente da estrela está se dissipando e  deve desaparecer por completo em aproximadamente dez anos, calcula o professor.

Damineli conta que a Eta Carinae  tem seguidores no mundo todo. O par de estrelas está distante 7.500 anos-luz da Terra, na Constelação de Carina. “Em 1845 aconteceu uma grande erupção, que aumentou seu brilho e a tornou visível até durante o dia. Essa mesma erupção lançou uma nuvem de poeira cósmica que dificultou sua observação”, relata o professor.

“A estrela principal continuou a brilhar escondida atrás da poeira com uma potência de 5 milhões de sóis, o que está no limite teórico, um pouco mais que isso ela evapora”, relata Damineli. “Nos últimos 20 anos, astrônomos detectaram um aumento do brilho da Eta Carinae, que se fosse dela mesmo já teria ultrapassado esse limite. Com isso, surgiu a hipótese de que ela explodiria dentro de algumas décadas.”

O professor do IAG coordenou uma equipe de 17 pesquisadores do Brasil, Argentina, Alemanha, Canadá, e Estados Unidos, que analisou todos os dados de observação disponíveis sobre a Eta Carinae dos últimos 80 anos. O conjunto principal de dados vem de mais de 60 mil observações, a maioria feita por estudantes de Astronomia no telescópio da Universidade Nacional de La Plata, na Argentina, entre 2003 e 2015”, diz. “Elas foram comparadas com os dados do telescópio espacial Hubble, que corrigiram as distorções das observações do solo e proporcionaram imagens de qualidade excepcional da Eta Carinae, separando-a da nebulosa do Homúnculo que a cerca.”

Nuvens de poeira

Professor Augusto Damineli: nuvem de poeira encobre Eta Carinae como um véu, cada vez mais fino, e em breve estrelas gêmeas aparecerão nuas no céu – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A análise revelou que, além de três nuvens de gás (chamados glóbulos de Weigelt) existe uma quarta que obstrui sua visão quando observada do planeta Terra. “Uma dessas nuvens se desfez recentemente, um indício de que o mesmo deverá acontecer com a que tampa nossa visão”, afirma Damineli. Anteriormente, acreditava-se que a estrela estava aumentando seu brilho e explodiria em menos de um século. “Já se sabia que havia algo na frente da Eta Carinae. Agora comprovou-se que há uma nuvem de poeira que a encobre como um véu, que está ficando cada vez mais fino, e em breve as gêmeas aparecerão nuas no céu.”

O professor do IAG calcula que, em cerca de dez anos, a nuvem de poeira se dissipará por completo. “Ainda não é possível determinar uma data com precisão, pois só quando se constata o efeito é possível monitorar de forma mais detalhada sua realização, mas o processo deverá terminar até 2032”, aponta. “É como quando se vê o Sol aparecer por entre as nuvens em um dia dublado. Você pensa que o Sol está mais brilhante, mas na verdade ele continua com brilho igual.”

Sem a nuvem, a visibilidade da Eta Carinae será semelhante a uma das estrelas da Constelação do Cruzeiro do Sul. “Por mais de meio século os cientistas acreditaram que a Eta Carinae era malcomportada, cheia de tiques e que vivia aprontando”, ressalta Damineli. “No entanto, daqui a alguns poucos anos será possível constatar que as estrelas são comportadas e com brilho estável, e que o meio interestelar ao redor dela é que causava uma aparente anormalidade.”

Imagem da Eta Carinae em 2000, feita pelo telescópio espacial Hubble (esq.) e previsão para 2036, quando o brilho das estrelas ofuscará a nebulosa próxima (dir.)- Foto: N.Smith e J.A. Morse/ cedida pelo pesquisador

De acordo com o professor, a importância da descoberta é que o fenômeno permitirá um mapeamento completo da Eta Carinae. Durante um período de cinco anos após o fim da nuvem de poeira ela terá um brilho oscilante, causado pela colisão entre os ventos das estrelas companheiras, e calcula-se que em 2036 ele ofuscará completamente a nebulosa onde está localizada. O artigo sobre a descoberta, Distinguishing Circumstellar from Stellar Photometric Variability in Eta Carinae, foi publicado na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society em 4 de janeiro.

Mais informações: e-mails augusto.damineli@gmail.com e damineli@astro.iag.usp.br, com o professor Augusto Damineli

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