Quem vive na rua com HIV tem dez vezes mais chances de complicações

Fragilidade social, que inclui desemprego, situação de rua e baixa escolaridade agravam o quadro dos pacientes com HIV/Aids

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Estudo da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto mostra que pessoas com HIV em situação de vulnerabilidade social estão mais propensas a serem internadas devido a complicações da doença – Foto: C.Alberto via Flickr – CC

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Avanços nas pesquisas têm tornado cada vez mais eficazes os tratamentos para as pessoas que vivem com HIV. Atualmente esses indivíduos levam uma vida bem perto da normalidade e têm uma expectativa de vida quase pareada com o restante da população. No entanto, estudo na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP revelou que quem vive em condição de fragilidade social – como desempregados, pessoas em situação de rua, e com baixa escolaridade – está mais sujeito à internação hospitalar devido às complicações do HIV.  

De acordo com os resultados do estudo de Lívia Maria Lopes, os desempregados, por exemplo, têm quase quatro vezes mais chances de ter complicações. Os aposentados/do lar, em comparação com as pessoas empregadas, apresentaram sete vez mais chances de internação. Já quando se trata dos indivíduos em situação de rua, as chances de os mesmos serem internados foram dez vezes maior do que as dos que têm moradia.

O estudo foi realizado na cidade de Ribeirão Preto e analisou, também, o prontuário clínico de cada paciente que vive com HIV no município. Os dados revelaram que 60,7% dos que estavam internados não faziam uso da terapia antirretroviral (terapia medicamentosa para diminuir a mortalidade e promover a qualidade de vida) e 58,9% apresentavam histórico de abandono dos medicamentos antirretrovirais. Entre os que não estavam internados, 83,9% usavam corretamente a terapia antirretroviral, além de 83,1% tomarem corretamente os medicamentos.

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Grau de escolaridade

A partir do estudo, a enfermeira pôde constatar  também que a condição educacional está diretamente ligada à situação de saúde dessas pessoas, pois os mais estáveis, isto é, que não tiveram complicações em função do HIV, na maioria das vezes estavam entre os mais bem informados, tendo maior grau de escolaridade.

Lívia avaliou as influências do grau de escolaridade de duas formas: primeiro, de forma individual, ou seja, como ele afeta o aspecto pessoal; e depois no aspecto socioeconômico. No plano individual, a enfermeira notou que a baixa escolaridade interfere no quanto o paciente está informado sobre as formas de transmissão do vírus e a prevenção para o não agravamento da doença. A baixa escolaridade também interfere no  conhecimento sobre a importância do tratamento e no autocuidado. Na análise do aspecto social, o estudo mostrou que as internações por HIV estão diretamente relacionadas com a ausência de fonte de renda – ou seja, com a pobreza, que também se conecta à menor escolaridade.

Além disso, a ausência dos familiares e a falta de um trabalho agravam o cenário para as pessoas vivendo com HIV em situação de rua. “A permanência em situação de rua muitas vezes é influenciada por elementos estruturais e biográficos. Sendo assim, compreender e até mesmo enfrentar tal realidade implica no reconhecimento das condições de vida desses sujeitos e da disponibilidade dos serviços sociais existentes em cada cidade”, pontua Lívia.

Ausência dos familiares e falta de trabalho agravam cenário de quem vive em situação de rua com HIV – Foto: Marco Gomes / Flickr-CC

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O foco do problema

Quando questionada sobre o fator que mais leva à internação hospitalar, a pesquisadora é enfática ao afirmar que a ausência de suporte social a essas pessoas é o grande vilão da história. Para ela, o cuidado prestado às pessoas que vivem com HIV/Aids é complexo e não se limita à disponibilidade e oferta de ações e serviços de saúde. “É necessário o empreendimento de políticas públicas capazes de garantir a intersetorialidade e a integração entre os diversos serviços de assistência social e de saúde pertencentes à rede assistencial, com o intuito de minimizar as vulnerabilidades existentes nesse cenário de pobreza e exclusão social”, defende.

A pesquisa avaliou pessoas que vivem com HIV/Aids, tanto em estado de internação quanto em acompanhamento nos ambulatórios da rede pública de saúde, para identificar as diferenças entre os dois grupos em relação às complicações por HIV. Por meio de entrevistas foram coletados dados sociodemográficos, características clínicas e vulnerabilidades a que essas pessoas estavam expostas, sejam elas sociais ou individuais. Outra forma utilizada para avaliação foi a análise do prontuário clínico dos pacientes.

A tese Internações por HIV: Análise dos fatores associados no município de Ribeirão Preto – SP foi defendida na EERP, em setembro de 2016, e orientada pela professora Aline Aparecida Monroe.

Stella Arengheri, de Ribeirão Preto

Mais informações: e-mail liviamalopes@gmail.com

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