Psicólogo aponta “jogo de forças” no programa Consultório na Rua

Estudo revela disputas na condução de programa de saúde para pessoas em situação de rua, analisando seu impacto na comunidade

Foto: Divulgação / Prefeitura de São Paulo

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O programa Consultório na Rua, do governo federal, é formado por equipes multiprofissionais que buscam desenvolver ações integrais de saúde para a população em situação de rua. As atividades são feitas de forma itinerante e, quando necessário, em parceria com equipes das Unidades Básicas de Saúde locais. Em pesquisa realizada na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), o psicólogo Igor da Costa Borysow demonstrou os desenvolvimentos e conflitos do programa.
 No trabalho, Borysow estuda a condução do programa por meio de comparações internacionais, análises sociais e entrevistas com envolvidos, e avalia que existe um conflito de interesses dentro e fora da iniciativa.

“Conseguimos ver como aqueles que estão em altos cargos, nos ministérios por exemplo, tinham mais facilidade em impor suas opiniões”, afirma.“Percebemos também que as pessoas que batiam o martelo em muitas decisões eram médicos.” O psicólogo descreveu o desenvolvimento do programa como “um jogo de cabo de guerra entre interesses pessoais, políticos, institucionais e da população”.

Igor da Costa Borysow – Foto: Arquivo Pessoal

Com relação à reação externa, o psicólogo ressalta que muitas vezes o trabalho do programa é mal compreendido pela comunidade. “Muitos nos abordavam dizendo para internarmos as pessoas e as tirarmos da rua, mas nem sempre esse é o objetivo. Precisamos respeitar a escolha e os direitos de cada um e negociar para que recebam o tratamento, mediando isso com a comunidade.”

Tendo a saúde mental como um dos focos, no programa é dada atenção fundamental aos direitos da pessoa em situação de rua. “Para muitos é complicado entender o que é o serviço e que devemos garantir os direitos humanos de quem está na rua”, diz o autor, “por mais que a pessoa esteja lá, ela tem autonomia para decidir sobre a vida dela.”

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Visão social

O psicólogo também avaliou o funcionamento dos consultórios na rua por meio de análises comparadas com programas similares em Portugal e nos EUA: “Identificamos núcleos comuns em todos os países, como a própria ideia de serviço móvel, que pode romper as barreiras físicas entre o paciente e o tratamento”.

Para o psicólogo, o estudo teve como base uma forte visão social, que ele considera ter sido “fundamental”. Para tanto, foram realizadas entrevistas com os envolvidos na iniciativa, como coordenadores das equipes, agentes das unidades de atendimento, médicos e pessoas amparadas pelo programa. “A perspectiva da sociologia reconhece que qualquer objeto que se estude é composto por pessoas.” Com essa perspectiva, ele já tinha em mente a importância de sempre se lembrar que todos os pesquisados são seres humanos.

A tese de doutorado O consultório na rua e a atenção básica à população em situação de rua foi defendida no Departamento de Saúde Coletiva da FMUSP e teve a orientação do professor Juarez Pereira Furtado.

O Programa Consultório na Rua começou a funcionar em 2011 e atendia cerca de 9 mil pessoas por mês na cidade de São Paulo, segundo dados de 2016 apresentados no segundo Seminário Nacional de Serviço Social, Trabalho e Políticas Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Mais informações: e-mail igorsow@yahoo.com.br, com Igor da Costa Borysow

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