Pesquisa ajuda a aperfeiçoar treino para exercício entre os mais difíceis da ginástica artística

No exercício do crucifixo, realizado na prova das argolas, os ombros do ginasta devem ficar a 90 graus em relação ao tronco. Estudo mostra os benefícios de uso de fita durante os treinos

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Arhur Zanetti durante Copa do Mundo de Ginástica Artística, no Ginásio do Ibirapuera, em em maio de 2015 - Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas
Arthur Zanetti, durante Copa do Mundo de Ginástica Artística, no Ginásio do Ibirapuera, em maio de 2015 – Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Dois cabos paralelos pendurados. Na ponta de cada um deles, uma argola. Mãos firmes as seguram e, entre vários movimentos, o ginasta deve ficar suspenso no ar, com os braços estendidos formando um ângulo reto em relação ao tronco durante, no mínimo, dois segundos. Este é o crucifixo (também chamado de cruz ou cristo), considerado por muitos ginastas um dos mais difíceis de serem executados na prova de argolas da ginástica artística masculina. Os ombros precisam ficar com exatos 90 graus em relação ao tronco – nem mais, nem menos – e os cabos das argolas devem permanecer o mais imóveis possíveis, sem balançar pra frente e para trás – caso contrário pode haver perda de pontuação. E em competições internacionais um centésimo faz muita diferença.

Foi exatamente a perfeição na execução dos movimentos das argolas que levou o brasileiro Arthur Zanetti a ganhar o ouro nos Jogos de Londres, em 2012, além do Campeonato Mundial em 2013 e o vice-campeonato em 2011 e em 2014, entre outras conquistas. Mas para chegar a esse nível é preciso muito treinamento.

“Durante os treinos, os ginastas costumam utilizar uma fita que é fixada sob o antebraço e também às argolas. Ela facilita muito a execução do crucifixo pois ajuda o atleta a ficar em um ângulo mais próximo a 90 graus”, explica o pesquisador Paulo Carrara, educador físico, ex-ginasta e árbitro internacional de ginástica artística e ginástica de trampolim. A fita, segundo ele, é utilizada por ginastas de todo o mundo durante os treinamentos para a realização do crucifixo.

Modelo de empunhadura com auxílio da fita durante o crucifixo nas argolas de treino - Fotos: Cedidas pelo pesquisador Paulo Carrara
Modelo de empunhadura com auxílio da fita durante o crucifixo nas argolas de treino – Fotos: Cedidas pelo pesquisador Paulo Carrara

Entretanto, diz Carrara, sempre houve questionamentos se o uso da fita ajudaria apenas os atletas iniciantes e aqueles sem muita força muscular para executar o movimento, ou se beneficiaria também os de alto desempenho, como Arthur Zanetti, que executam o crucifixo com perfeição sem o uso da fita. Esses questionamentos, além da escassez de estudos específicos sobre esta temática, que o motivaram a pesquisar o tema em sua tese de doutorado pela Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP.

Na pesquisa, ele avaliou 12 atletas da seleção brasileira masculina de ginástica artística. Carrara os gravou durante a execução do crucifixo. Foram seis gravações para cada atleta, em duas condições (três com fita e três sem), totalizando 72 vídeos. As gravações foram realizadas na Associação de Ginástica di Thiene – AGITH, em São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo, e no Esporte Clube Pinheiros, na zona sul paulistana, locais onde ocorre o treinamento habitual desses atletas.

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Benefícios para iniciantes e medalhistas

Foram colocados alguns sensores nos ginastas e as informações captadas foram inseridas em um computador. Após processamento das imagens e análise dos dados foi possível verificar o ângulo de execução do exercício nas duas condições. E os resultados mostraram que o uso da fita beneficia tanto ginastas iniciantes como os de alto desempenho.

“Até mesmo os atletas medalhistas são beneficiados pois, com a fita, eles conseguem ficar em uma posição mais próxima de 90 graus do que sem ela, mesmo que seja imperceptível para quem está olhando. Ou então para diminuir a carga de treino ou se está com alguma restrição musculoesquelética, ele pode usar a fita para treinar o movimento certo com mais facilidade”, explica.

Quanto aos iniciantes, o acessório ajuda na coordenação muscular e na correção da posição do ombro em relação ao tronco. Nem sempre eles têm força suficiente para, durante dois segundos, manter os ombros em 90 graus em relação ao tronco. “Ele vai treinar com a fita várias vezes para adquirir uma maior condição física e, um dia, executar o crucifixo sem uso dela. Então é preferível ele treinar de forma a adquirir a percepção da posição correta do que treinar na posição errada”, destaca.

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Modelo de execução

Carrara é o primeiro autor de um artigo sobre os resultados da pesquisa publicado recentemente na Revista Brasileira de Educação Física e Esporte. O foco foi a biomecânica do exercício crucifixo executado pelo ginasta Arthur Zanetti. “O objetivo foi obter um modelo descritivo desta habilidade executado por um campeão olímpico. Esse artigo fornece bases para os técnicos treinarem outros ginastas”, finaliza.

A pesquisa foi defendida em setembro de 2015, na EEFE, sob orientação do professor Luis Mochizuki, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. O doutorado foi realizado na modalidade sanduíche na Cardiff University, no País de Gales, sob a coorientação do professor Gareth Irwin.

Mais informações: email paulocarrara@usp.br, com Paulo Carrara

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