Mesmo cientes que estão tomando placebo, pacientes melhoram sintomas; atletas, o desempenho

Pesquisa com ciclistas demonstra que efeitos benéficos da abordagem conhecida como “placebo honesto” também podem se estender ao esporte

“Durante o exercício, eu lembrei das pílulas que havia tomado. Eu visualizei as cores e o formato delas na minha mente e imaginei que elas estavam me deixando mais poderosa” – relato de participante do estudo sobre placebo aberto e desempenho esportivo – Arte sobre foto de Cecília Bastos/USP Imagens

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O efeito placebo intriga há décadas os cientistas. Recentemente, pesquisas têm mostrado que, mesmo quando alguns pacientes sabem que estão recebendo uma substância sem nenhum princípio ativo, melhoram de sintomas como dor, adicionando ainda mais perguntas e inaugurando um campo de pesquisa denominado “placebo honesto” (ou aberto). Agora, pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) acabam de divulgar o primeiro estudo no mundo a demonstrar os benefícios da intervenção com placebo aberto também para o desempenho de atletas. A pesquisa foi feita com ciclistas profissionais do sexo feminino e apontou que, na média, elas melhoraram seus resultados em teste de curta distância ao receber uma pílula estando cientes que se tratava de placebo. Nem todas, porém, melhoraram. “Algumas até pioraram os resultados, o que indica a necessidade de se compreender o perfil dos pacientes para quem o placebo é mais efetivo”, diz Bruno Gualano, um dos autores do artigo publicado na revista científica Plos One.

Bruno Gualano: “efeito placebo explica em parte a popularidade das inúmeras intervenções miraculosas que existem por aí” – Foto: arquivo pessoal

Efeito placebo é considerado como qualquer tipo de melhora manifestada por paciente ao receber um tratamento que não tem base em uma substância ativa. O assunto já vem sendo investigado na clínica médica, especialmente em áreas como síndrome do intestino irritável, câncer e dor crônica. Mais recentemente, começaram a ser feitos estudos em que os pacientes eram avisados que estavam recebendo uma substância inerte e, mesmo assim, alguns deles melhoravam dos sintomas. Mas não era apenas dizer que melhoravam: no caso da dor, análises clínicas apontavam que alguns parâmetros químicos para dor também se mostravam alterados após a intervenção com placebo aberto.

No mundo do esporte, o estudo atual é o primeiro a avaliar o placebo aberto. “Na nutrição esportiva, sabemos que existem cinco ou seis suplementos que funcionam porque têm substância ativa, diante de algumas centenas de milhares de produtos existentes no mercado, vendidos pela internet, que vivem do efeito placebo”, diz Gualano, ressaltando que a estimativa não é exagero de sua parte, correspondendo ao que as pesquisas já mostraram. “Achamos que ainda precisávamos entender melhor como este efeito funciona no esporte.”

Ted Kaptchuké – Foto: arquivo pessoal

Ted Jack Kaptchuké, um dos maiores estudiosos do efeito placebo no mundo, ao comentar o artigo de Bryan Saunders, Bruno Gualano e colaboradores, relatou estar “impressionado com os resultados, especialmente os detalhes qualitativos”. Para ele, que é professor da Harvard Medical School (Estados Unidos), o atual modelo que se tem para explicar o efeito placebo relacionando-o a expectativas “é fraco, especialmente em situações crônicas, mas também agudas, então não fico surpreso com esse resultado”. Kaptchuké também disse que aguardaria ansioso pelos resultados do próximo projeto do grupo.

Contexto psicoambiental

“Os achados demonstram o quão interessante e poderoso é o efeito placebo, que sequer necessita da expectativa da pessoa para ocorrer, e explica em parte a popularidade das inúmeras intervenções miraculosas que existem por aí e que, para alguns, parecem funcionar”, diz Bruno Gualano. Mas o que sobra quando se elimina a sugestão, quer dizer, o que pode explicar o efeito do placebo aberto? “O efeito placebo é afetado pelas características de quem trata, de quem é tratado e do ambiente. É a manipulação do contexto psicoambiental. Pesquisas sobre dor mostram que há até 50% de diminuição do efeito analgésico quando um medicamento é entregue por uma máquina, e não uma enfermeira num ambiente acolhedor”, exemplifica.

Estudos recentes têm mostrado que os fatores do efeito placebo incluem aprendizagem, pré-condicionamento, experiência prévia, traços de personalidade – o otimista responde melhor ao placebo do que o pessimista, por exemplo – e genética. “Há toda uma área que estuda o comportamento relacionado ao efeito placebo e também a parte biológica. Existem mudanças nos nossos genes, os chamados polimorfismos, que explicam, em parte, a predisposição ao efeito placebo”, explica Bruno Gualano.

Ele conta que foi com base nesses estudos pioneiros, que mostravam que a expectativa não é tão importante assim para o placebo, mas só um fator entre outros, é que se começou a tratar o paciente falando que era placebo. “Até porque, existe uma questão ética bastante discutida. Um profissional de saúde não pode simplesmente dar um placebo a um paciente falando que é uma substância ativa”, diz o pesquisador, citando como exemplo o uso de placebo para realizar o desmame (parada gradual do uso de uma medicação) de remédios que geram efeitos colaterais severos com uso prolongado, como corticoides (anti-inflamatórios) e opioides (analgésicos) – algo que já vem sendo feito na clínica médica.

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Na média, o placebo aberto melhorou o tempo de conclusão e a potência no teste de um quilômetro. Analisando-se os dados individualmente, notou-se que 11 ciclistas melhoraram, 13 tiveram desempenho inalterado e quatro pioraram com placebo aberto. Frequência cardíaca, percepção de esforço e o lactato sanguíneo não variaram de forma significativa

O estudo

Ciclistas treinadas passaram por uma intervenção que consistia em uma apresentação individual, dada por um médico, sobre o conceito de efeito placebo. Nesta apresentação, o médico relatou outros testes (clínicos, não esportivos) que haviam indicado que mesmo o placebo sendo aberto, produzia resultados positivos. Em seguida, as participantes ingeriram duas cápsulas vermelhas e brancas contendo farinha. Quinze minutos depois, realizaram um teste medindo o tempo que levavam para completar um quilômetro na bicicleta ergométrica. No chamado grupo controle, que não passa por nenhuma intervenção para que os resultados possam ser comparados, cada participante somente ficou 20 minutos em silêncio antes de realizar o teste. Foram 28 ciclistas avaliadas no total.

Tempo e classificação de percepção de esforço foram monitorados durante a atividade, e o lactato sanguíneo, parâmetro fisiológico para verificar a intensidade do exercício, foi medido antes e depois do exercício. Questionários após o exercício foram realizados para se obter informações sobre como as participantes percebiam a influência do suplemento no desempenho – numa dessas entrevistas, aliás, surgiu a fala que é parte do título do artigo: “Eu coloquei na minha cabeça que o suplemento ia me ajudar” (“I put it in my head that the supplement would help me”: Open-placebo improves exercise performance in female cyclists).

Na média, o placebo aberto melhorou o tempo de conclusão e a potência no teste. Analisando-se os dados individualmente, notou-se que 11 ciclistas melhoraram, 13 tiveram desempenho inalterado e quatro pioraram com placebo aberto. Frequência cardíaca, percepção de esforço e o lactato sanguíneo não variaram de forma significativa.

Pelo que foi relatado nos questionários, os pesquisadores concluíram que ter uma expectativa positiva não é condição obrigatória para induzir melhorias de desempenho esportivo, embora o fato de não melhorar no teste pareça estar associado a uma falta de crença nessa melhora. “Os achados demonstram o quão interessante e poderoso é o efeito placebo, que sequer necessita da expectativa da pessoa para ocorrer, e explica em parte a popularidade das inúmeras intervenções miraculosas que existem por aí e que, para alguns, parecem funcionar”, ressalta Bruno Gualano.

Próximos passos

Sabendo que características genéticas ajudam a explicar diferentes respostas aos medicamentos e também ao placebo, o grupo de pesquisadores parte agora para um estudo de perfil genético. “Existe até uma área, que a literatura científica tem chamado de placebômica, que estuda todas as respostas moleculares que explicam o efeito placebo. Precisamos entender por que algumas participantes melhoraram, outras não, e outras até pioraram. Que diferenças individuais são responsáveis por esses resultados?”

O artigo “I put it in my head that the supplement would help me”: Open-placebo improves exercise performance in female cyclists  tem autoria de Bryan Saunders, Tiemi Saito, Rafael Klosterhoff, Luana Farias de Oliveira, Gabriel Barreto, Pedro Perim, Ana Jéssica Pinto, Fernanda Lima, Ana Lucia de Sá Pinto e Bruno Gualano, e pode ser acessado no site da Plos One.

Mais informações: e-mails gualano@usp.br e drbryansaunders@outlook.com

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