Estudo que identifica formas de transmissão da covid-19 envolve engenharia e medicina

Vitor Nascimento revela que parceria entre Escola Politécnica, Instituto de Medicina Tropical e a Universidade de Oxford já resultou em protótipo, que será testado, com dados reais, para a obtenção de uma taxa mais precisa de transmissão do novo coronavírus

Aproximar a sociedade dos feitos da universidade pública torna-se efetivamente um excelente método para justificar a grandiosidade e a importância dessas instituições. A USP sempre esteve nessa linha e, mais uma vez, contribui para pesquisas científicas nacionais e internacionais com seus laboratórios, como vemos na Poli, com o Laboratório de Processamento de Sinais (LPS) colaborando com o desenvolvimento de ferramentas de estudos sobre a covid-19, liderados pelo Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP e pela Universidade de Oxford.

Trabalhando na criação de algoritmos para extrair ou modificar uma informação contida em sinais, ou seja, dados oriundos de fenômenos físicos, o LPS está localizado no Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Poli. A parceria com o IMT veio através de convite da professora Ester Sabino, em projeto junto à Oxford, que visa a estudar doenças transmitidas por mosquitos. “Meu aluno começou a trabalhar para prever onde seria o próximo surto de dengue. […] Quando estourou a epidemia de covid-19, todos começaram a trabalhar com [o novo coronavírus]”, explica o professor Vitor Nascimento sobre a parceria da Poli com o IMT, em entrevista ao Jornal da USP no Ar.

A partir da chegada do novo coronavírus no Brasil, os estudos epidemiológicos se debruçaram para descobrir para quantas pessoas os infectados passariam o vírus. Isso porque, dependendo da taxa de transmissão, as medidas tomadas pelas autoridades são diferentes. “No início da pandemia, [a taxa] era em torno de 3. Não é alto como o sarampo, que é 12, mas é alto. Por isso é que a gente precisa ficar em casa sempre que possível, porque você tem contato com menos pessoas”, alerta Nascimento, em importante recomendação para este momento de volta das atividades e com registros cada vez mais frequentes de aglomerações.

Saber exatamente a quantidade de pessoas infectadas a partir de um único infectado é complicado, pois ainda deve-se levar em conta os assintomáticos, que infectam conhecidos e desconhecidos, por exemplo, ao andar de Metrô. Por essa razão, chegar na taxa exata de transmissão (Rt) é um dos maiores desafios dos epidemiologistas e é aqui que entra a participação do Laboratório de Processamento de Sinais, no projeto do IMT em conjunto com a Oxford. Os estudos até agora são promissores e eles já chegaram a um protótipo com dados simulados que será testado no começo de setembro, com dados reais. 

“O intervalo de tempo entre infecção e início de sintomas é uma medida imperfeita entre a distância do intervalo de infecção de uma pessoa e de outra. O trabalho que estamos fazendo agora é corrigir [isso] ‘pegando’ o que conseguimos ver e estimando o que não vemos”, descreve Vitor Nascimento. Somado a isso, há uma dificuldade nas medidas de Rt no Brasil, pois aqui ainda não se testa muito e o número exato de casos por dia é divulgado atrasado. “O pessoal do IMT e do LPS tenta fazer estimativas corrigindo os atrasos da coleta de dados. Isso é importante porque, se você olhar a curva de casos da Prefeitura, ela sempre parece que está caindo [e isso acontece] porque tem um atraso entre o caso acontecer e ser lançado.”

Ouça a entrevista na íntegra no player acima.


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