Quanto melhor o néctar da planta, mais agressiva é a formiga que a defende

Pesquisa mostra que formigas defendem de forma mais agressiva plantas com néctares mais nutritivos; resultados podem ter aplicação na agricultura

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Formigas (Ectatomma tuberculatum – vermelha e grande; e Camponotus crassus – pequena e preta) se alimentando em um nectário extrafloral artificial durante o experimento de campo – Foto: Fábio Túlio Pacelhe/Instituto de Biociências da USP

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A interação entre plantas e formigas já é amplamente documentada na biologia: as plantas oferecem néctares nutritivos para a alimentação das formigas e elas, em troca, defendem os vegetais dos ataques de outros animais. Entretanto, pela primeira vez, um estudo comprovou que existe relação entre a qualidade do néctar oferecido e a agressividade com que as formigas defendem a planta em questão. Essa é uma pesquisa básica, mas cujo conhecimento produzido poderá ser aplicado, no futuro, na agricultura, usando determinadas plantas para atrair formigas que atacam as pragas, por exemplo.

A pesquisa de mestrado Plantas com néctar extrafloral de melhor qualidade são mais bem protegidas por formigas resultou num artigo publicado na revista Biotropica e pode ser acessado no site da Wiley Online Library. O estudo analisou o comportamento de 26 espécies de formigas com quatro modelos de nectários extraflorais artificiais. “Essas estruturas secretam um líquido açucarado com aminoácidos e lipídeos, que são nutrientes importantes para a dieta das formigas. Através deles esses insetos expandem colônias e aumentam o sucesso reprodutivo”, explica o professor Marco Aurelio Ribeiro de Mello, do Laboratório de Síntese Ecológica do Instituto de Biociências (IB) da USP, e orientador da dissertação de mestrado do biólogo Fábio Túlio Pacelhe, apresentada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os experimentos consistiram em instalar os nectários em plantas chamadas gomerinhas – Vochysia elliptica Mart. (Vochysiaceae) – e observar quantas formigas cada um deles atraía e como elas se comportavam uma vez na planta: se encontravam os cupins, herbívoros escolhidos como modelo; se os atacavam e se conseguiam exterminá-los.

Apenas as bases dos modelos de nectários eram diferentes: havia um à base de açúcar, outro à base de aminoácidos, um terceiro à base de açúcar e aminoácidos e, por fim, um modelo controle, à base de água.

A pesquisa incluiu quatro meses de estudo de campo na Serra do Cipó, em Minas Gerais. Foram instalados cinco nectários artificiais em 40 plantas durante o período na Serra do Cipó.
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Formiga (Camponotus crassus) atacando um cupim (Nasutitermes coxipoensis), usado como modelo de herbívoro no experimento – Foto: Fábio Túlio Pacelhe/Instituto de Biociências da USP

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Aplicações

Os resultados mostraram taxas maiores de recrutamento, encontro com os cupins, ataque e extermínio no néctar à base de açúcar e aminoácidos. Dessa forma, o estudo correlacionou uma maior agressividade das formigas com a oferta de um néctar com mais nutrientes.

As possíveis aplicações são vastas. Na agricultura de monocultura de alguns produtos alimentícios, como a soja e o milho, é possível realizar o cultivo junto ao de plantas que produzem esse néctar mais nutritivo para que as formigas ataquem as pragas que afligem a plantação principal.

Outras possíveis aplicações seriam utilizar a seleção artificial ou a bioengenharia para criar plantas com nectários de maior qualidade, ou colocar nectários artificiais, que funcionariam de forma similar às bombas de insulina, em plantas que não os possuem.

O pesquisador Fábio Pacelhe relembra, entretanto, que essas aplicações ainda são teóricas: “Nós fizemos uma pesquisa de base. Para colocar isso em prática, seriam necessários novos estudos”.

Mais informações: e-mail fabiotulio.bio@gmail.com, com Fábio Pacelhe

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