Maré vermelha traz microalga incomum e com potencial tóxico ao litoral de SP

Fenômeno registrado em março causou alta concentração de microrganismos potencialmente tóxicos no Canal de São Sebastião

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No dia 14 de março, mancha avermelhada foi registrada em imagens aéreas obtidas com um drone – Foto: Alvaro Migotto / Cebimar

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Pesquisadores do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP identificaram uma floração de microalgas do gênero Margalefidinium no Canal de São Sebastião no final deste verão. A floração de microalgas é um fenômeno conhecido como maré vermelha e, neste caso, surpreendeu os cientistas porque as espécies de Margalefidinium não são comuns no litoral de São Paulo. Além disso, são potencialmente tóxicas para peixes e outros organismos que compõem o ecossistema marinho.

A maré vermelha foi registrada nas praias de Guaecá e do Segredo, em São Sebastião, nos dias 13 e 14 de março, mas a concentração de Margalefidinium predominou no dia 14, quando chegou a 2 milhões de microrganismos por litro de água.

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“Essa é uma espécie que não tem muito registro [em São Paulo]. Aqui eu nunca tinha visto. Saí ligando para todo mundo para ver se alguém já tinha encontrado na costa de São Paulo e ninguém viu. Não quer dizer que não tinha, quer dizer que ninguém viu. Mas não é muito costumeira aqui”, contou a professora Áurea Ciotti, do Cebimar, lembrando que as Margalefidinium foram inicialmente reportadas na Ásia. Para classificá-las, a docente contou com a ajuda de pesquisadoras de outros Estados.

Ciotti é especialista em ecologia do fitoplâncton – as microalgas fazem parte desse grupo – e em oceanografia bio-óptica, um ramo da oceanografia que estuda os fatores que alteram a cor da água do mar. A maré vermelha é justamente um desses fatores. Embora os espécimes de fitoplâncton sejam pequenos demais para serem visíveis a olho nu, as florações de microalgas crescem em concentração tão alta que podem ser reconhecidas pelas manchas coloridas – muitas vezes, avermelhadas – na superfície do mar. No caso dos dinoflagelados, grupo ao qual pertencem as microalgas que compuseram a maré vermelha dos dias 13 e 14 de março, a concentração normal para o Canal de São Sebastião costuma ser de centenas de organismos por litro de água.

As florações ocorrem quando a temperatura favorece o crescimento de determinadas espécies e há excesso de nutrientes nas águas. Segundo Ciotti, a equipe do Cebimar ainda não sabe dizer de onde vieram as microalgas estranhas à costa paulista. As manchas coloridas são móveis e se deslocam junto com as correntes marítimas. De acordo com a Cetesb, o órgão estadual responsável pelo monitoramento ambiental das águas costeiras, há casos de florações que chegam ao litoral de São Paulo por correntes vindas do Paraná e de Santa Catarina, ou mesmo da costa do Uruguai.

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Foram encontrados, no dia 13, dinoflagelados Alexandrium e Dinophysis e observou-se que no dia 14 a mancha era formada quase que exclusivamente por dinoflagelados do gênero Margalefidinium (foto), atingindo densidades suficientes para gerar um potencial de toxicidade para organismos planctônicos e peixes – Foto: Divulgação / Cebimar

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Temporais e ligações de esgoto

Os pesquisadores do Cebimar trabalham com a hipótese de que as fortes chuvas de março tenham favorecido o crescimento dos microrganismos, já que, durante a coleta, foi registrada salinidade abaixo do padrão na água do Canal de São Sebastião. Além de aumentar o volume dos córregos e rios que desaguam no mar, as chuvas “lavam” o solo e arrastam para o oceano tudo que está no caminho. A chegada de mais nutrientes funciona como uma espécie de “fertilização” para os microrganismos, de forma semelhante ao que acontece na terra com as plantas. Quanto à temperatura, durante as coletas dos dias 13 e 14 de março, as águas do canal chegaram a 29° C. A ocorrência da maré vermelha foi relatada ao órgão estadual responsável.

Embora causas variadas possam influenciar a proliferação de organismos que compõem o fitoplâncton, como as mudanças climáticas ou a introdução de novas espécies por águas de lastro de navios, Áurea Ciotti destacou o impacto da ocupação humana no litoral.

As amostras de água obtidas dentro das manchas revelaram concentrações que superam 2 milhões de células por litro de água. A temperatura da superfície da água do mar nesses locais esteve acima de 29°C e a salinidade baixa, por volta de 33. A relação inversa encontrada entre o número de células e a salinidade sugere que o aporte de nutrientes em águas fluviais tenha sido a causa da proliferação da espécie no canal de São Sebastião

“Na maior parte dos sistemas costeiros que têm problemas com maré vermelha, existe uma relação bem forte com a ocupação desses lugares. Você constrói, tem uma erosão dos terrenos e os nutrientes são carreados para a água do mar”, contou a docente, lembrando ainda do problema da baixa coleta de esgoto. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) realizada em 2017 pelo IBGE, 88,9% das residências da região Sudeste tinham ligação de esgoto à rede geral. Mas o número pode variar conforme o município. Dados do último Censo, realizado em 2010, apontavam que, enquanto São Sebastião contava com coleta de esgoto adequada em 82,1% das casas, na vizinha Ilhabela, por exemplo, a rede alcançava apenas 36%.

“Haverá ter um descontrole de crescimento, porque aquele ambiente que está operando há muitos milhões de anos num nível de nutrientes, veremos que triplicou. Uma das coisas que acontecem é o crescimento de microalgas, que crescem bem rápido. Elas são unicelulares e só precisam de um pouquinho mais de nitrogênio para se dividirem”, explica a professora, que é coautora de um texto publicado no site do Cebimar explicando a importância do monitoramento das marés vermelhas.

No último verão, que compreende o período de dezembro de 2018 a março de 2019, os técnicos da Cetesb investigaram sete ocorrências de manchas avermelhadas ou acastanhadas no litoral paulista. Nem todas estavam relacionadas a microalgas. A pedido da reportagem do Jornal da USP, a Cetesb levantou os registros de florações desde 2000. De acordo com as informações disponibilizadas, houve um crescimento de ocorrências a partir de 2013. Essas ocorrências envolvem florações de dinoflagelados e outros microrganismos, incluindo cianobactérias, protozoários ciliados e outros.

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