Fóssil de réptil descoberto na Alemanha ajuda a entender origem de lagartos e tuataras

Anatomia e dados moleculares indicam que ‘Vellbergia bartholomaei’ é um dos poucos vínculos entre répteis primitivos e modernos; descoberta divulgada na “Scientific Reports” é parte de estudo de ex-aluna da USP

Tuatara da espécie Sphenodon punctatus – Foto: PhillipC via Wikimedia Commons / CC BY 2.0

Uma nova espécie pré-histórica de répteis acaba de ser descoberta. Batizada de Vellbergia bartholomaei, ela possui características anatômicas que trazem informações sem precedentes que ajudam a compreender a evolução dos lagartos, cobras, a tuatara e todos os répteis fósseis mais proximamente relacionados a eles do que a aves e jacarés (Lepidosauromorpha). A novidade foi publicada em um artigo na revista Scientific Reports, e tem como autora principal Gabriela Sobral, ex-aluna da USP e que atualmente desenvolve pesquisa na Alemanha. Além dela, assinam Rainer Schoch, do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart, também na Alemanha, e Tiago R. Simões, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Os lepidossauromorfos formam um dos grupos mais diversos de vertebrados terrestres atualmente, incluindo mais de 10.500 espécies. Os ancestrais dos lagartos cobras e tuataras são encontrados em alguns poucos locais pelo mundo, e pouco se sabe a respeito dos primeiros estágios de evolução desses animais.

No artigo, Sobral e os demais pesquisadores revelaram ter descoberto o fóssil de um réptil do período Triássico Médio (240 milhões de anos atrás), em Vellberg, na Alemanha. Trata-se de um fóssil de uma espécie até então desconhecida, que possui características semelhantes tanto a espécies mais antigas do grupo dos lagartos e da tuatara, quanto de outros grupos de répteis mais primitivos. Como mostraram análises feitas com dados anatômicos e moleculares, tais características indicam que a Vellbergia é um dos poucos vínculos entre os répteis primitivos e os modernos.

 

Conjunto único de características anatômicas do fóssil ajuda a compreender como o grupo evoluiu nos primeiros estágios de sua história. Imagens digitalizadas do fóssil da Vellbergia – Reprodução/Scientific Reports

 

O fóssil também contribui para destacar a cidade de Vellberg como um local importante para compreender a evolução da família Lepidosauromorpha. Uma vez que existem poucos registros de fósseis do período Triássico Inferior, espécies do Triássico Médio são fundamentais para compreender como os vertebrados se recuperaram depois da maior extinção em massa de que se tem conhecimento, ocorrida entre os períodos Permiano e Triássico (cerca de 252 milhões de anos atrás), e como se diversificaram até chegar às espécies atuais.

“É um fóssil muito interessante porque mostra um conjunto único de características anatômicas que nos ajuda a compreender como esse grupo evoluiu nos primeiros estágios de sua história, especialmente na linhagem dos tuatara”, diz Sobral.

“A fauna de Vellberg preserva um dos ecossistemas mais diversos do Triássico”, diz Schoch. “Também vieram de lá o ancestral mais antigo da tartaruga, assim como familiares dos crocodilos e alguns anfíbios de até 5 metros de comprimento.”

Simões acrescenta: “Vellberg é uma mina de ouro, revelando as fases iniciais dos mais de 250 milhões de anos de história dos lagartos, que culminaram em mais de 10 mil espécies modernas”.

Ciência e divulgação

A pesquisadora e divulgadora científica Gabriela Sobral – Foto: Reprodução/Dragões de Garagem

A trajetória de Gabriela Sobral demonstra, na prática, que produção relevante de ciência e divulgação ao público leigo não são excludentes. Formada em biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela se voltou para a paleontologia já na graduação, e seguiu na área durante o mestrado, na USP em Ribeirão Preto, com o professor Max Langer. Depois, ela foi para a Alemanha desenvolver seu projeto de doutorado.

Na volta ao Brasil, continuou produzindo pesquisa, com dois projetos de pós-doutorado no Museu Nacional e no Museu de Zoologia (MZ) da USP, e também foi professora na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) durante um período. Foi então que recebeu a proposta para ir a Stuttgart, na Alemanha, onde está há cerca de um ano e meio trabalhando com o professor Rainer Schoch, no Museu de História Natural.

Lá, a pesquisadora já participou de outros projetos que envolvem análise de fósseis, além do Vellbergia. Como ela destaca, as descobertas que vêm aparecendo são suficientes para colocar a região de Vellberg como uma das mais importantes do mundo para o estudo desse grupo. A idade dos fósseis que são encontrados no local, de até 240 milhões de anos, também é um fator importante, por ser relativamente próxima ao momento em que ocorreu a extinção em massa do período Permo-Triássico.

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“A extinção do Permo-Triássico tem recebido muita atenção porque é um evento que de várias maneiras se assemelha ao que estamos passando hoje com a crise climática e de biodiversidade”, diz. “Estudar essas coisas se torna importante para entender como animais de vários grupos e ambientes reagiram, sobreviveram e se recuperaram. Isso ajuda a refinar os modelos atuais que nós temos e, quem sabe, ajuda a traçar estratégias, como identificar comunidades prioritárias para conservação e recuperação.”

Como divulgadora científica, Gabriela Sobral também tem um trabalho extenso, tendo participado de projetos como palestras e feiras temáticas, tanto no Brasil quanto na Alemanha. No período em que deu aula na UFSC, ela foi convidada a fazer parte do Dragões de Garagem, grupo que reúne textos, podcasts e conteúdo em vídeo e quadrinhos com objetivo de popularizar a ciência. O grupo é parte da rede Science Vlogs Brasil, junto com o Ciência USP. Mesmo na Alemanha, e com algumas dificuldades com o idioma, ela não abre mão de continuar atuando na divulgação, especialmente no museu. “Vou no meu alemão quebrado, na mímica mesmo, e dá certo”, brinca.

Matheus Souza, com informações da Assessoria de Imprensa do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart. Colaborou: Luiza Caires

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